Quinta-feira, 2 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Opinião

Palavras e frases desmoralizadas



É possível que não exista exceção em determinadas épocas da história em que a sociedade não tenha se espantado com a mudança de alguns valores de passado recente.

No episódio do ataque ao jornal francês ”Charlie Hebdo”, nas redes sociais, muitos criticaram os assassinatos, mas faziam uma ressalva de que o periódico desrespeitara uma crença, uma religião, um símbolo de fé, como se a indicar que “brincaram com fogo”; pagaram por isso.

Rebati esse argumento por conta de se ter muito cuidado com essa justificativa de desrespeito devido à variação dos valores em tempos e sociedades diferentes.

Citei alguns exemplos. Um, foi lembrar que os escravos poderiam pagar com as próprias vidas se olhassem diretamente nos rostos dos seus senhores. Era desrespeito demais; era uma ousadia infame.

O outro exemplo intolerável citado seria que em alguns países se uma mulher for vista sozinha acompanhada de um homem seria – e pode ser – penalizada cruelmente por desrespeito a esse valor sagrado. Isso vale também se ela se negar ao marido escolhido pelos parentes, especialmente pelo pai, independentemente de ela ser a segunda, oitava ou décima esposa desse cidadão.

 As mudanças mais comuns recaem sobre os valores e eficácia de algumas expressões que refletem no comportamento de toda a sociedade. Aqui no Brasil, os políticos e autoridades em geral estão desvalorizando algumas palavras e frases por ficarem apenas num discurso falacioso, sem nenhuma efetividade.

Quando o programa Fantástico, da Rede Globo, faz uma denúncia, a primeira autoridade que aparece fala que “abriu uma sindicância interna para apurar o caso”. A polícia fala que “abriu um inquérito para investigar o sumiço ou o assassinato de uma pessoa”, quando o índice de apuração de homicídio não passa de 2% (dois por cento). E todos acham que alguém acredita naquilo que nem eles põem fé no que estão dizendo.

Sobre as diuturnas notícias de corrupção, o noticiário afirma que o partido divulgou nota e “nega veementemente” as acusações e o político acusado “afirma que não conhece e que nunca esteve com o acusador”. Poucos dias, fotos, gravações de voz e de imagens comprovam almoços e reuniões do acusador e acusado às gargalhadas em total descontração e intimidade. Aí se completa de que aquela reunião fora para “tratar de negócios”.

Sem aprofundar nos detalhes, o rol é muito grande: “número de presentes” numa passeada fornecido pelas polícias militares; “reforçou o efetivo nessa área”, quando o noticiário divulga crimes permanentes em determinados locais; “é preciso fazer as reformas constitucionais importantes”; “não foi bem assim”, essa, embora tenha o objetivo de amenizar, a probabilidade é de ter sido muito mais grave.

Qualquer pessoa apresenta uma mudança no semblante quando se sente culpado de algum ato falho. A frase de Jean-Jacques Rousseau de que se você cora já é culpado aplica-se a qualquer pessoa; não a políticos e agentes públicos de alto coturno.

Seria mais educativo se fosse construída uma linguagem mais sincera entre líderes e seu povo, mais condizente com a realidade.

Derrete como gelo todas as promessas dos governos estaduais e federal nas recentes campanhas eleitorais. Agora falam o oposto do que disseram antes. E a mídia brasileira peca – talvez pelas verbas publicitárias que recebe – em não mostrar o antes e depois e as mentiras vão se tornando cada vez mais institucionalizadas.

Pedro Cardoso da Costa

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 2 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Onde há fumaça, há fogo

Onde há fumaça, há fogo

Circulou em um grupo de WhatsApp de aposentados da Câmara Municipal de Porto Velho que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (G

Autismo e educação: escola regular ou especial?

Autismo e educação: escola regular ou especial?

O dia 2 de abril é celebrado mundialmente como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). Mai

A violência começa antes do crime — e a lei chega tarde

A violência começa antes do crime — e a lei chega tarde

Punir não basta: o Brasil endurece as leis, mas o problema é mais profundo.Novas medidas contra a violência e humilhação de mulheres são necessárias

É preocupante o nível de desconfiança da população nas principais instituições brasileiras

É preocupante o nível de desconfiança da população nas principais instituições brasileiras

Apesar de a democracia está plenamente consolidada no Brasil, parcela significativa da população não confia nas nossas principais instituições. O Co

Gente de Opinião Quinta-feira, 2 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)