Domingo, 18 de janeiro de 2015 - 11h35
É possível que não exista exceção em determinadas épocas da história em que a sociedade não tenha se espantado com a mudança de alguns valores de passado recente.
No episódio do ataque ao jornal francês ”Charlie Hebdo”, nas redes sociais, muitos criticaram os assassinatos, mas faziam uma ressalva de que o periódico desrespeitara uma crença, uma religião, um símbolo de fé, como se a indicar que “brincaram com fogo”; pagaram por isso.
Rebati esse argumento por conta de se ter muito cuidado com essa justificativa de desrespeito devido à variação dos valores em tempos e sociedades diferentes.
Citei alguns exemplos. Um, foi lembrar que os escravos poderiam pagar com as próprias vidas se olhassem diretamente nos rostos dos seus senhores. Era desrespeito demais; era uma ousadia infame.
O outro exemplo intolerável citado seria que em alguns países se uma mulher for vista sozinha acompanhada de um homem seria – e pode ser – penalizada cruelmente por desrespeito a esse valor sagrado. Isso vale também se ela se negar ao marido escolhido pelos parentes, especialmente pelo pai, independentemente de ela ser a segunda, oitava ou décima esposa desse cidadão.
As mudanças mais comuns recaem sobre os valores e eficácia de algumas expressões que refletem no comportamento de toda a sociedade. Aqui no Brasil, os políticos e autoridades em geral estão desvalorizando algumas palavras e frases por ficarem apenas num discurso falacioso, sem nenhuma efetividade.
Quando o programa Fantástico, da Rede Globo, faz uma denúncia, a primeira autoridade que aparece fala que “abriu uma sindicância interna para apurar o caso”. A polícia fala que “abriu um inquérito para investigar o sumiço ou o assassinato de uma pessoa”, quando o índice de apuração de homicídio não passa de 2% (dois por cento). E todos acham que alguém acredita naquilo que nem eles põem fé no que estão dizendo.
Sobre as diuturnas notícias de corrupção, o noticiário afirma que o partido divulgou nota e “nega veementemente” as acusações e o político acusado “afirma que não conhece e que nunca esteve com o acusador”. Poucos dias, fotos, gravações de voz e de imagens comprovam almoços e reuniões do acusador e acusado às gargalhadas em total descontração e intimidade. Aí se completa de que aquela reunião fora para “tratar de negócios”.
Sem aprofundar nos detalhes, o rol é muito grande: “número de presentes” numa passeada fornecido pelas polícias militares; “reforçou o efetivo nessa área”, quando o noticiário divulga crimes permanentes em determinados locais; “é preciso fazer as reformas constitucionais importantes”; “não foi bem assim”, essa, embora tenha o objetivo de amenizar, a probabilidade é de ter sido muito mais grave.
Qualquer pessoa apresenta uma mudança no semblante quando se sente culpado de algum ato falho. A frase de Jean-Jacques Rousseau de que se você cora já é culpado aplica-se a qualquer pessoa; não a políticos e agentes públicos de alto coturno.
Seria mais educativo se fosse construída uma linguagem mais sincera entre líderes e seu povo, mais condizente com a realidade.
Derrete como gelo todas as promessas dos governos estaduais e federal nas recentes campanhas eleitorais. Agora falam o oposto do que disseram antes. E a mídia brasileira peca – talvez pelas verbas publicitárias que recebe – em não mostrar o antes e depois e as mentiras vão se tornando cada vez mais institucionalizadas.
Pedro Cardoso da Costa
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