Porto Velho (RO) quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
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Opinião: Cristianismo e cruz



 O centro da mensagem e da obra de salvação de Jesus é o amor ao Pai doando sua vida pela humanidade em humilde serviço aos semelhantes. Jesus anuncia o reino de Deus amando as pessoas, independentemente de suas condições particulares. O Pai ama a todos, sem discriminações. O anúncio do reino é um convite à construção da paz, cujo alicerce é um misto de amor e verdade. O amor e a verdade vêm do Pai e penetram o nosso coração. Nossa resposta depende do grau de compreensão desse amor.

A mensagem e a obra de Jesus são propostas de superação do egoísmo, do espírito de exploração e dominação sobre os outros. O amor passa pela superação da mentira que me divide interiormente, no mais íntimo de mim mesmo. O amor passa pela superação dos meus disfarces, máscaras e subterfúgios, enfim, da mentira que tento impor aos outros.

Para que o amor renasça, o cristão passa por uma crucifixão do próprio egoísmo. Não há Cristo sem sua cruz. Cristão não se nasce, mas se gera num processo permanente. O caminho da cruz supera nossos instintos egoístas, primitivos. Pela cruz exercitamos a liberdade de amar, ser amado, construindo a vida em base à solidariedade fraterna. As provações nos exercitam no desapego de nós mesmos.

A busca construtiva do reino de justiça e paz não dispensa o enfrentamento das cruzes. Nossa natureza relutará sempre com as exigências dos próprios instintos que, entretanto, não são reprimidos, mas canalizados para suas verdadeiras finalidades. Natureza reprimida não perdoa, mas se vinga. Natureza educada gratifica. Esse aprendizado é lento, repleto de provações. A formação é permanente, feita de purificação e iluminação.

Deus é amor. Com amor o Pai educa seus filhos e filhas provando-os. É uma lei misteriosa, inexorável, colocada na ordem da natureza. Essa lei de purificação e iluminação percorre um caminho feito de altos e baixos, com labirintos de contradições que jamais caberiam na lógica da razão. Se o grão de trigo não morrer ficará só. Se morrer produzirá muito fruto.

Ama e compreenderás! Deixa o Pai te amar, te purificar, te iluminar e compreenderás. Eis o sentido da Semana Santa e Páscoa, que a cada ano perdem seu significado de fé e tendem mais ao folclore do que vivência. Muitos cristãos, talvez a maioria, apenas foram batizados, porém, não acompanhados na fé e nas obras da fé.

A Igreja deve encarar o fenômeno da perda significativa de seus fiéis, cujas famílias, tradicionalmente católicas, contam com novas gerações com ideias caricaturais do Cristianismo. Que o mistério central da fé, a cruz e a ressurreição, como estrutura fundamental da vida cristã, possa ser testemunhado como graça transformadora que o Pai opera em nosso caminho de aprendizado.


Fonte:  CNBB / Dom Aldo Pagotto
Arcebispo Metropolitano da Paraíba - PB

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