Porto Velho (RO) quinta-feira, 26 de novembro de 2020
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KANAL: O Levante de Varsóvia


                         Guido Bilharinho

                   Na Segunda Guerra Mundial, a Polônia, imprensada entre a Alemanha nazista e a União Soviética stalinista, foi tomada e dividida, em 1939, entre seus então ferozes vizinhos quando estes ainda eram aliados, nos termos do pacto Hitler-Stalin, assinado em 23 de agosto daquele ano.

                   No decorrer do domínio soviético, dissolvido com o ataque alemão à U.R.S.S., em 22 de junho de 1941, resultou o saldo da matança, segundo consta, pela NKVD (serviço secreto soviético) de aproximadamente quatro mil e quinhentos oficiais poloneses em Katyn, aldeia situada nas proximidades de Smolensk, crime, no entanto, atribuído pelos comunistas aos alemães.

                   A ocupação alemã durou até inícios de 1945. Nesse período ocorreram pelos menos dois levantes poloneses. Primeiro, o do Gueto de Varsóvia, em 1943. O segundo, iniciado em 1º de agosto de 1944, durou dois meses, ficando conhecido como “O Levante de Varsóvia”, envolvendo milhares de combatentes poloneses.

                   Um dos episódios desse último conflito integra o filme Kanal (Idem, Polônia, 1957), de Andrzej Wajda (1926-).

                   A recriação do teatro da luta é nesse filme tão notável que se julga estar assistindo, não à dolorosa recomposição ficcional realizada alguns anos depois, mas, aos próprios acontecimentos, como se se exumassem do passado aquelas figuras heróicas envolvidas num vórtice de fúrias e cataclismos. Até as pedras, as ondulações calcinadas dos terrenos, os prédios semi-destruídos ou simplesmente pulverizados parecem, ao espectador, espectros de realidade presente e palpável. Pouca coisa há semelhante no gênero, uma delas Outubro (Oktiabr, U.R.S.S., 1927), de Eisenstein.

                   Se o cinema é equivalente da realidade, Kanal o é do cinema, tão drásticas são a reconstituição material e humana e a criação artística que procede do acontecimento. Se a Polonaise, de Chopin, é o protesto musical da Polônia ocupada ao tempo do compositor, Kanal, na revivescência de outro momento análogo, constitui seu correspondente cinematográfico. Aqui, a imagem é tão bela no horror que exibe quanto os acordes sonoros de Chopin. Ambos se unem nas mesmas dores e revolta. Tanto o som quanto a imagem transmitem emoção e sofrimento.

                   A genialidade de Wajda, como a de Chopin, é cristalizar para sempre momentos heróicos cruciais.

                   Contudo, onde o filme atinge maiores qualidades é na composição do quadro humano dos combatentes poloneses. Se o cenário de aspectos da batalha é perfeito, o drama humano que se desenvolve nesse espaço abrasado o é absolutamente. Personagens, atitudes, gestos, expressões, relacionamentos e diálogos impregnam-se de tal autenticidade, que, à semelhança dos décors de interiores e locações exteriores, julga-se estar presenciando as expectativas e agruras, não de personagens, mas, de indivíduos de carne, ossos e nervos. Principalmente nervos.

                   Não se está, porém, apenas frente à obra realista, fiel aos acontecimentos, mas, à sua exumação crítica. Não mera foto da matéria demonstrável ou mostrável, mas, da exposição de seu interior, de onde ressalta o íntimo substancial (e substantivo) de seres humanos tomados e governados pela ciência e consciência de sua condição, por isso, imbuídos de responsabilidade, assumida até as últimas conseqüências, em atitude que resgata a espécie dos oportunismos, covardias (grandes e pequenas), jogos de interesses, crimes, sordidez e crueldade em que se compraz e, em grande parte, a caracterizam.

                   O filme, tanto nos exteriores quanto nos interiores dos esgotos (canais) de Varsóvia, onde os alemães não ousavam entrar, do início ao fim, em cada tomada e em todas as cenas e seqüências, compõe homogênea sinfonia de imagens, que, ao invés de gritos e uivos de dor, desencadeia visões concretas da sublimidade e da miséria humanas, fixadas no écran pelo heroísmo de um lado e pela perversidade de outro, sem quaisquer cambiantes, meios-tons ou atenuações.

                   Enfim, filme grandioso e digno quanto a epopéia que revive.

(do livro A Segunda Guerra no Cinema. Uberaba,

Instituto      Triangulino      de   Cultura,    2005)

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensãode 1980 a 2000 e autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional, entre eles, Brasil: Cinco Séculos de História, inédito.

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