Sábado, 2 de maio de 2026 - 09h06

Ministros do Supremo Tribunal Federal têm se considerado
atingidos em sua honra por críticas de fulano, beltrano, sicrano e, inclusive,
de candidatos à Presidência.
Pessoalmente, tenho uma opinião a respeito da
indenização por danos morais. Certa vez, participava de um congresso no Rio de
Janeiro com o ministro Moreira Alves, e nós dois tínhamos como tema da palestra
a “quantificação de indenização por danos morais”.
Naquela oportunidade, o ministro Moreira Alves,
grande civilista, defendia que nós temos que quantificar a honra e que se trata
de um pretium doloris — um preço da dor. Desde aquela época,
entretanto, defendi a tese de que a minha honra não tem preço.
Nunca vou entrar com uma ação judicial contra
alguém que pretenda me ofender. Conhecendo quem sou e sabendo que, às vezes,
trata-se de uma mera agressão, nunca respondo, pois a melhor forma de responder
é não dando atenção.
Ao contrário do ministro Moreira Alves, que
defendeu a necessidade de haver um pretium doloris, dizia e digo o seguinte: a honra não tem preço;
ela não está no mercado, valendo "tanto" ou "tanto". Eu
defendia e continuo defendendo que a honra verdadeira não tem preço.
Mas o que vemos hoje tem, sobretudo, um viés
político, pois quando se procura atingir um candidato à Presidência da
República, um deputado, um senador ou um ministro da Suprema Corte, a pessoa
reage, demonstrando que realmente foi afetada pela manifestação de quem está
dizendo.
Além disso, a judicialização das críticas —
especialmente por parte de quem detém o poder — acaba por criar um efeito
inibidor na liberdade de expressão. Quando figuras públicas reagem a qualquer
contestação com processos, não protegem apenas sua honra; inadvertidamente,
sinalizam que o debate democrático é perigoso e deve ser contido. Isso
transforma o Poder Judiciário em uma arena de vaidades, onde questões que
deveriam ser resolvidas no campo do debate público ou da indiferença soberana
passam a ocupar uma pauta que deveria ser reservada a temas de real interesse
coletivo.
É preciso distinguir, portanto, a crítica ácida ou
o insulto gratuito da calúnia ou difamação propriamente ditas, que possuem
contornos legais definidos. A honra, em sua acepção subjetiva — o sentimento
que temos de nós mesmos —, não pode ser tutelada pelo Estado. Quando um
magistrado ou um político utiliza a máquina judicial para punir ofensas
menores, ele transfere a outros a responsabilidade por sua própria estabilidade
emocional, o que, ironicamente, diminui a estatura moral do cargo que ocupa.
Reafirmo: quem tem, verdadeiramente, honra pouco
se importa com a opinião alheia. A pessoa mais importante — que é Cristo, para
mim o próprio Deus — não deu atenção aos ataques que sofreu e perdoou a todos
quando estava na cruz. Ora, nós, que somos um ponto temporário no Universo,
dizer “fui atacado na minha honra e ela tem um preço” é, no mínimo, curioso.
Quem ataca, sim, demonstra que não tem honra. E
quem reage está dando um preço à sua honra e, ao mesmo tempo, desvalorizando-a.
Por esta razão, pessoalmente, nunca respondo, nem dou atenção.
Acredito, pois, que a melhor forma de mostrar que
aquela agressão não vale nada é desconsiderá-la; é não dar importância,
considerá-la sem relevo. Sendo assim, ao contrário do meu queridíssimo e
saudoso amigo Moreira Alves, eu sempre dizia e digo: a minha honra não tem
preço.
O silêncio diante da injúria não é sinal de
fraqueza, mas de superioridade. Quem ocupa postos de mando deve compreender que
a autoridade não emana da capacidade de silenciar críticos através de sentenças,
mas da solidez de um caráter que entende que a verdadeira honra, por ser
inalienável, jamais deveria ser objeto de compensação pecuniária.
Quem dá preço à sua honra é porque, realmente, a
ela não dá muito valor.
Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU,
do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do
Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal
Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral
(Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor
honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS,
catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior
de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras
(APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
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