Porto Velho (RO) terça-feira, 24 de novembro de 2020
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Galinha no capacete


Galinha no capacete - Gente de Opinião


Por Altair Santos (Tatá)

Zé Luiz, mais um, dentre os tantos malfazejos que existem por aí, passou a noite de sexta-feira santa no boteco, enchendo a cara de cachaça. Bem cedinho, na quase aurora de sábado, resolveu ir pra casa. No caminho, optou em fazer um “atalho despretensioso”, segundo ele, justo por dentro de um quintal na circunvizinhança, só mesmo pra encurtar a distância e nada mais que isso! O dono da casa, já estava acordado, ouviu seus passos e pôs-se a observá-lo. No meio do quintal o sujeito que levava um capacete pendurado no braço, simplesmente resolveu parar... Olhou pros lados e, macio e silencioso, na ponta dos pés, leve como uma bailarina em delicado movimento foi pra detrás do banheiro, onde umas seis galinhas dormiam fagueiras no galho dum pequeno cajueiro.

A cena das penosas ali indefesas, fáceis ao seu alcance e dispor, lhe fez borbulhar a idéia arremetendo o mal intencionado a pratos apetitosos como galinha caipira, galinha no tucupi, cabidela, canja, etc e tal o fez animado a praticar o ato da gatunagem. Sem pestanejar investiu decidido contra uma das galinhas, agarrando-a com força. Pra abafar o seu escandaloso cocoricó, enfiou-a na marra dentro do capacete, abafou com a jaqueta jeans e saiu em desabalada carreira pra não ser avistado por algum madrugador do pedaço. O atento dono da casa reagiu de pronto, acionando o seu amigo de fé, o cachorro, gritando pega Leão, pega Leão!!! Mas Leão, coitado, um pobre e decadente vira-lata, magricela e faminto, mal esboçou uns dois latidos que mais pareciam espirros que o deixaram zonzo até cair. Prostrado o debilitado e inane animal, por tal esforço, parece foi a óbito naquele preguiçoso amanhecer.

Mais do que ligeiro e brabo além da conta, o homem armou-se dum facão, montou em sua bicicleta e pôs-se a pedalar na redondeza buscando do ladrão que empreendera fuga. Pra não dar bandeira, o meliante, discretamente voltou ao boteco e tratou de imprensar e esconder o capacete com a galinha dentro, em meio a uma pilha de caixas de cerveja e avisou ao atendente: olha aí, guardei meu capacete detrás das caixas pra ninguém mexer! Isto feito passou a refletir e esquematizar como resolveria a situação da galinha. Pacote “malocado”, veio a dúvida: comer com seus amigos em celebração ao domingo de páscoa ou vender? Pra decidir só mesmo a bordo de algumas latinhas de cerveja e danou-se a beber e ouvir música com alguns comparsas que de nada desconfiavam.

Já com o dia claro, começaram a aparecer as primeiras pessoas no recinto, dentre elas o dono da galinha que manobrou a bicicleta e a encostou num balaústre da varanda. Calado, ficou a “mancuricar” o comportamento de todos ali no bar, buscando minúcias para a sua perícia investigativa. O ladrão alternando nervosismo e certo descontrole já desconfiara da presença daquele cidadão calado e intrigante.

Pra despistar qualquer suspeita, por ventura,contra a sua pessoa, tratou de saber quem era o moço ali recém chegado. Aproximou-se e tentou mudar aquela atmosfera achando de envolvê-lo na conversa, inquirindo-o assim: bom dia, como vai o senhor, tudo bem? Vejo que o amigo é um homem de bem, lhe desejo Feliz Páscoa e vida renovada, certo? Como por resposta só obteve silêncio, resolveu insistir: o amigo não vai beber nada, nem uma latinha sequer? Veja bem, hoje é sábado de aleluia, um dia muito importante e bonito em nossas vidas! Eu mesmo acordei bem cedo rezei um pouco e fui ali, na rua de baixo, dar umas pauladas na cabeça dum Judas que a vizinhança de lá fez pra gente protestar contra esse prefeito que só faz merda atrás de merda na nossa cidade.

Mantendo o silencio o homem apenas se detinha a observar no que o pilantra reiterou assuntando: sim, mas o amigo não vai dizer nada, está tão calado, o que houve, não dormiu bem, não foi lá não, dá umas pauladas na cabeça do Judas Prefeito? Se você quiser podemos ir juntos, ainda tem um resto de Judas pra gente surrar! Levamos umas dez latas de cerveja pra beber no caminho, o que o amigo acha?

O homem em tom furioso respondeu: escuta aqui, meu chapa, também acordei cedo e queria dar umas pauladas sim, mas era num cabra safado, fí duma égua que bem cedinho roubou uma galinha em meu quintal! Por acaso vocês não viram se passou por aqui um sujeito com uma galinha? Zé Luiz, o implicado, sobrando em atrapalho e tentando despistar o reclamante bradou: porra foi mermo? Num diga uma sacanagem dessa homi! Éééégua, mas como foi isso meu patrão, logo cedinho, me diga! Olha eu não vi ninguém por aqui não! Mas quem sabe esse mau elemento não está lá pras bandas de baixo, lá pros rumos do Judas do Prefeito! Vamos lá pra conferir, convidou!

O cidadão aceitou dar um rolezinho no local pra ver se encontravam algo ou alguém. Ao se afastarem menos de dez metros, o garçon, desavisado, achou de gritar: ei Zé Luiz peraííí, tu esqueceu o capacete! E foi logo afastando as caixas de cerveja. Ao puxar o capacete foi tomado de grande susto que o fez cair de costas quando, lá de dentro do capacete, para alvoroço e agonia também dos demais presentes, a comprimida e desesperada galinha voa atarantada e sai rodopiando pela calçada e sobre as mesas, em meios aos que bebiam.

Vendo que a casa caiu, imediatamente Zé Luiz, o ladrão de galinha, aos gritos, tentando ainda eximir-se da coisa argumentou invocando Deus e o diabo numa uma só frase de desajustada aritmética de fé: “que diabo é isso meu Deus?” E disse mais: que porra é essa rapá? Joga esse capacete fora “mermão”, ele é amaldiçoado, isso não pode ser do bem!”! “Quem botou essa galinha aí dentro”? E perguntou ao homem, hein meu amigo, o senhor consegue identificar se essa é a sua “penosa”? Sem contar conversa o homem puxou o facão da cinta e exibindo a destreza e precisão de um samurai, parecendo um exímio e fatal espadachim, partiu pra cima desferindo golpes na tentativa de fazer filezinhos, do agora desesperado Zé Luiz que foi salvo por uma viatura da polícia em ronda no local.

Ali mesmo, no meio da rua, ao flagrante e trololó de praxe, o policial em tom severo, quase gritando e com cara de poucos amigos perguntou ao Zé Luiz: me diga aqui sujeito, você roubou ou não roubou a galinha do homem, hein? Diga logo seu puto! Zé Luiz acuado e miudinho ante a força e representação da lei, tentou reverter o quadro e saiu-se com essa pérola, em forma de discurso parabólico, segundo a sua própria ciência e doutrina: “veja bem senhor policial, você é um homem da Lei e também temente a Deus e aos ensinamentos bem sabe hoje é sábado de aleluia, sábado santo, correto dotô? Assim como o senhor sabe também sabe que a carne é fraca e o espírito é de porco! Em gargalhada incontida o PM titular da operação ordenou: xilindró pro meliante ladrão de galinha e blasfemador!

tatadeportovelho@gmail.com

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