Segunda-feira, 21 de agosto de 2017 - 06h07

Professor Nazareno*
Sou professor de Redação e de Língua Portuguesa. Já completei 41 anos de sala de aula. Trabalho vendendo meus conhecimentos no setor público e também no privado. Desde o longínquo ano de 1976 que leciono e neste período vi que quase nada mudou na estrutura da educação no Brasil. Ainda temos hoje em pleno século XXI um dos piores sistemas de educação do mundo. Porém a nossa educação cumpre rigorosamente o seu papel: foi feita para não funcionar e realmente não funciona mesmo. Ditados pela elite conservadora e reacionária, os objetivos do nosso sistema educacional reproduzem fielmente a realidade social preconizada por Gilberto Freyre em seu livro Casa Grande e Senzala. A educação pública é péssima, horrível e não ensina nada a ninguém. Mas na rede particular não há muita diferença, já que são todas “farinha do mesmo saco”.
Desde sempre, a maioria dos meus alunos ao término do Ensino Médio, por exemplo, não sabe ler nem escrever. Muitos infelizmente nem sabem grafar o próprio nome. Têm dificuldades de entender um simples texto e tropeçam nas mais elementares sentenças matemáticas. Sem leitura de mundo e sem conhecimentos básicos não estão preparados para enfrentar a vida. E quase todos eles acham que são culpados por esta tragédia, por este caos. Mas não são. A deficiência do nosso sistema educacional foi plantada há tempos. A precariedade de nossas escolas é ideológica, proposital mesmo. Darcy Ribeiro teria dito que “uma nação que não constrói escolas deveria construir presídios”. E não se enganou. Vejam: desde o final do século dezenove que os Estados Unidos criaram o sistema integral de ensino em suas escolas. E o que são hoje os EUA?
Infelizmente a classe política é corresponsável por toda esta desgraça. Os nossos políticos são marionetes do sistema empresarial e elitista que sempre mandou no país e consequentemente em todas as nossas escolas. Sistema esse com uma mentalidade tacanha e retrógrada que aposta no atraso e na ignorância para continuar mandando em todos. Confúcio não é o governador de Rondônia. Hildon Chaves não é prefeito de Porto Velho. Michel Temer não é o presidente do Brasil. Todos eles são marionetes, são apenas gerentes de um sistema maior chamado “establishment”. Dar ao povo uma educação de qualidade para quê? Para tirá-lo da miséria? Para fazê-lo protagonista da sua própria História? Nossas escolas têm que ser ruins mesmo, fracas, podres. Mas há saída: escolas integrais e o compromisso de todos podiam ser a “salvação da lavoura”.
Muitos dos nossos professores infelizmente têm culpa também por este caos. Vários deles são eleitores do Bolsonaro e do Lula e defendem ardorosamente a militarização das escolas, pois sem competência para disciplinar seus alunos, creem que ordem unida, hierarquia, fardamento e repressão são pré-requisitos para uma educação de qualidade. Conheço muitos colegas semianalfabetos e despolitizados que defendem o absurdo sem compreender que a ideologização militar é parte de uma estratégia criada para impor ainda mais ideias atrasadas e retrógradas às nossas crianças. Nossos jovens não precisam prestar continência a ninguém, usar fardas, nem saber cantar hinos toscos para ter sucesso na vida. Precisam da boa leitura e de informações. Patriotismo é o pior dos sentimentos coletivos, pois leva ao Nazismo e ao Fascismo. E muitos educadores parecem hoje querer isso. Até quando teremos de nos submeter ao que nos é imposto?
*É Professor em Porto Velho.
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