Domingo, 3 de novembro de 2013 - 21h33
João Baptista Herkenhoff
Em recente reunião da Comissão Estadual da Verdade referi-me àqueles que sofreram gravames no período ditatorial, mesmo sem terem sido presos ou vítimas de tortura física. A tortura moral pode ser tão dolorosa quanto a que flagela o corpo. Relembrei episódio que teve como vítima o Arcebispo Dom João Baptista da Motta e Albuquerque.
Dom João Baptista foi intimado para comparecer ao antigo Terceiro BC, batalhão do Exército situado em Vila Velha.
Dom João Baptista, como Dom Hélder Câmara e outros Bispos brasileiros, entendia que a luta pela Justiça e pela Igualdade é uma luta cristã, como também é cristã a repulsa aos abusos contra e pessoa humana. Dentro da concepção de Cristianismo engajado cabia dar apoio às reformas de base, inclusive Reforma Agrária. Cabia denunciar, sem meias palavras, as afrontas que se perpetravam contra os presos politicos. No clima de caça às bruxas, que se seguiu a 31 de março de 1964, o apoio da Igreja aos movimentos libertários recebia a etiqueta de subversão. Consequentemente via-se Dom João Baptista como subversivo ou, no mínimo, complacente com a subversão. Não podia haver tolerância para com os comunistas, os apoiadores do Comunismo e os que serviam ao projeto de transformar o Brasil numa nova Cuba.
Dom João Baptista foi intimado para explicar, no Batalhão do Exército, o que estava acontecendo na Arquidiocese de Vitória, onde padres pregavam um Evangelho político. Queriam que Dom João coibisse o trabalho desses sacerdotes, que reprimisse o envenamento da Religião por teses comunistas. Não tiveram coragem de atacar mais diretamente o prelado, mas alcançaram de forma contundente alguns de seus principais colaboradores.
Por que os inquisidores não foram à residência do Bispo pedir esclarecimentos? Por que impuseram ao Arcebispo locomover-se até o território do Batalhão? A intimação para comparecer ao Batalhão de Caçadores, onde estavam ocorrendo processos sumários para punir comunistas, humilhou Dom João.
Católicos e cristãos não católicos compreenderam que alguma coisa tinha de ser feita para demonstrar solidariedade ao Arcebispo ofendido.
Um grupo de grande respeitabilidade social organizou uma sessão de desagravo ao Arcebispo. O ato de reparação ocorreu no Colégio do Carmo, um estabelecimento de ensino de grande tradição, pertencente à Igreja e que seria extremamente audacioso invadir. O salão ficou literalmente lotado. A Polícia Política esteve presente, gravou tudo mas teve de engolir a manifestação. Solicitaram que eu falasse desagravando Dom João. Falei. Foi o discurso mais importante que proferi em minha vida.
João Baptista Herkenhoff, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, Juiz de Direito aposentado e escritor. E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br / CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520
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