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Como salvar a tradição do fogo de artifício sem enlouquecer cães, pessoas sensíveis e bombeiros


António da Cunha Duarte Justo - Gente de Opinião
António da Cunha Duarte Justo

O céu não precisa de gritar para ser bonito

Vamos combinar uma coisa: fogos de artifício são bonitos e sempre foram. Desde que um chinês qualquer, há mil anos, teve a brilhante ideia de enfiar pólvora num cano de bambu, a humanidade olha para o céu e suspira. Que magia e que cores! É aquele momento em que todos param, olham para cima e se sentem, por um segundo, num videoclip dos anos 80.

Mas há um pequeno problema, vizinhos. Na verdade, há vários e todos eles fazem Fch... pum.

Para nós, o céu é um palco, mas para o cão do lado, é o apocalipse

Comecemos pelos nossos amigos de quatro patas. Um cão ouve até quatro vezes melhor do que nós. O que para si é um "pum" simpático, para o seu labrador é um trovão do Juízo Final a explodir dentro do crânio. Enquanto você diz "oh, que lindo", o cão sente: "é agora, vou-me esconder atrás da máquina de lavar e rezar aos donos da ração". Não é bonito porque é um inferno de pânico, baba e arritmia canina. Causa pânico e stress mortal a cães, gatos, aves e animais selvagens.

E não são só os bichos. Há os bebés a acordar em pânico. Os idosos com o coração frágil. Os veteranos de guerra para quem um estampido não é festa, é uma reexperiência traumática. E os 20% da população mundial que é hipersensível e que, durante meia hora, sente cada rebentamento como uma agulha nos nervos. Por isso, quando dizemos "é tradição", estamos a dizer: "o seu desconforto é o preço da minha nostalgia". E isso é, pelos vistos, um bocado feio.

Tradição não tem de ser sinónimo de martírio acústico

Antigamente, os foguetes serviam para afastar maus espíritos e anunciar festas numa altura em que ninguém tinha relógio. Nesse tempo fazia sentido. Mas antigamente também se sangravam os doentes com sanguessugas e acreditava-se que tomar banho fazia mal. A humanidade evolui e a sensibilidade cresce também. E hoje sabemos que o que afasta os maus espíritos não é o barulho, mas sim a empatia.

Por isso, a pergunta é simples: podemos manter a festa sem a tortura? Claro que podemos. E a boa notícia é que a tecnologia já resolveu isto há anos, só ainda não chegou aos ouvidos da tia que compra rojões de pólvora no hipermercado para encantar o seu neto.

Alternativas? Há-as a montes e são fixes

Imagine o seguinte: noite de Passagem de Ano. Em vez de uma saraivada de explosões que faz os bombeiros correrem e os cavalos terem ataques cardíacos, temos projeções laser no céu. Lemas e fotos de luz, ou constelações feitas a pedido e até o rosto dos noivos a sobrevoar silenciosamente a aldeia enquanto os convidados bebem champanhe sem ter de gritar "ooh" por cima dos Fch... pum!  Isto não é só possível, é mais bonito, mais limpo e mais poético.

E nos casamentos? Em vez do tradicional "susto de pólvora" depois do "sim" ou do corte do bolo, que tal uma chuva de luzes silenciosas a desenhar corações, ou um balão com imagens do casal a flutuar? A emoção não perde nada e ganha até requinte. E os convidados não passam a noite a proteger o copo de cinzas e estilhaços nem os vizinhos a meterem tampões nos ouvidos.

Até a polícia e os bombeiros estão de saco cheio e com razão

Em Berlim, o sindicato da polícia já pediu a proibição dos foguetes no espaço privado. Porquê? Não é só por causa do lixo, que é uma vergonha, diga-se, nem da poluição do ar, que torna as zonas ambientais uma anedota fiada. É porque, em noites de loucura, as bombas são usadas como armas contra agentes e bombeiros. Mais de três milhões de pessoas assinaram abaixo-assinados contra o barulho infernal. Três milhões, não são três gatos-pingados num fórum de donos de caninos.

O sofrimento dos animais não é um detalhe! É uma emergência silenciosa que acontece todas as vezes que uma pessoa decide que o seu momento de prazer vale mais do que a sanidade de um ser vivo.

Não queremos proibir, mas queremos que a tradição se vista de novo

Ninguém aqui quer ser o "chato da festa que acabou com os foguetes". Não se trata de apagar o património cultural. Trata-se de vesti-lo com a roupa do nosso tempo. Temos exemplos de como se pega num baile medieval e se faz um festival de luzes. A tradição não morre por deixar de magoar. Morre quando se recusa a desenvolver.

As empresas que produzem foguetes sabem fazer silêncio. Têm a tecnologia e o know-how para isso. O que lhes falta é a motivação. Se a procura mudar, a oferta muda e se deixarmos de comprar barulho e passarmos a comprar beleza, o mercado adapta-se num instante.

E se não se adaptar? Bem, aí a proibição virá naturalmente. Porque a lei, mais cedo ou mais tarde, acompanha o bom senso. E o bom senso, hoje, diz: ninguém precisa de acordar 90% do bairro para celebrar.

Conclusão

Nós, humanos, temos o superpoder de reinventar o que amamos. Já transformámos o fogo numa lareira, o chumbo em letra de imprensa, e as músicas do Tony Carreira em melodias ringtones. Também podemos transformar um estouro num encanto.

Na próxima festa, escolha a luz sem o som. Olhe para o céu e para o seu cão a dormir sossegado ao seu lado. A festa será igualmente bonita e todos dormirão melhor.

E os maus espíritos? Esses, sem barulho para se esconderem, acabam por se evaporar na primeira constelação de laser.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11002

O GLOBALISMO ESTÁ A INVERTER O CRESCIMENTO

 

 

Globalismo é o poder que, dissolvendo o orgânico, desconstrói a pessoa e as sociedades na exacta medida da sua inversão.

 

Há uma patologia oculta no coração do globalismo contemporâneo: a inversão da direção natural do crescimento humano. Toda a civilização que floresceu organicamente construiu-se de baixo para cima, da aldeia à pólis, da família à nação, do indivíduo à humanidade. O que hoje nos é proposto não é crescimento, é engenharia, desconstrução e desnaturação...

Os governantes são transformados em meros administradores, aplicadores de agendas e directrizes e os parlamentos reduzidos a instrumentos do “sim, senhor”!...

O corpo social orgânico não nasce de cima; germina nas raízes. Quando se inverte esta ordem, não se obtém uma comunidade, obtém-se uma clientela.

A aliança estranha que governa este projeto é a do capitalismo liberalista com o dirigismo socialista: dois absolutismos que partilham, no fundo, o mesmo desprezo pelo particular, pelo local, pelo irredutível da pessoa humana. Um vende; o outro formata. Juntos, produzem o consumidor ideal: dependente, vigiado, e convencido de que escolhe livremente.

O instrumento invisível desta nova governação é o algoritmo... A questão demográfica expõe a contradição mais crua do sistema. A queda da natalidade, fenómeno profundamente ligado à precariedade existencial, ao adiamento do sentido, à mercantilização das relações, é respondida com importação humana. Como se uma pessoa descontextualizada, arrancada à sua terra por necessidade e não por vocação, pudesse substituir a continuidade cultural de um povo...

A resposta que as populações têm dado e que a nomenclatura europeia classifica precipitadamente de "extremismo", é, na sua essência, um grito de reconhecimento. O extremismo não nasce do nada; nasce sempre como resposta a outro extremismo, o de uma governação que deixou de reconhecer o seu povo como sujeito e o trata como objeto de gestão. Os partidos que hoje assustam as elites são o espelho incómodo do que essas elites criaram...

A alternativa ao globalismo que desumaniza não é o fechamento que empobrece, é a construção de uma ordem verdadeiramente subsidiária, onde o universal se edifica a partir do particular, e não contra ele. Onde se constroem fábricas nos países de origem em vez de explorar a pobreza alheia. Onde a democracia não é formato, mas sim substância viva.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11006

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