Terça-feira, 19 de maio de 2026 - 17h05

No centro de debates recentes, a proposta de um curso voltado a “homens
enfraquecidos”, como “O Farol e a Forja", ministrado pelo ator global
Juliano Cazarré e apresentada como resposta a uma suposta crise masculina
contemporânea, revela, no fundo, operação discursiva já conhecida: converter
privilégio em sofrimento e dominação em vulnerabilidade.
Sob aparência terapêutica e linguagem de acolhimento, este tipo de
formulação desloca o foco da violência estrutural contra as mulheres para o
desconforto subjetivo dos homens diante da perda de centralidade. Não se trata
de negar o sofrimento psíquico masculino, mas de recusar que ele seja
interpretado fora das relações históricas que organizam gênero, autoridade e
controle.
Num País em que os índices de feminicídio seguem alarmantes, falar em
“homens fragilizados” como eixo principal de uma discussão soa menos como
diagnóstico social e mais como cortina de fumaça.
O feminicídio não é expressão de fraqueza, mas de domínio. É a
manifestação extrema de uma masculinidade que reage à recusa, ao limite, à
autonomia da mulher e à frustração com violência. O homem que agride ou mata
porque foi contrariado não está “sem força”; está tentando restaurar, por meio
de intimidação ou da eliminação da companheira, uma posição de comando que
considera natural.
Do ponto de vista psicológico, o problema central não é o
enfraquecimento do ente masculino, mas, sim, a dificuldade de muitos em lidar
com frustração, rejeição, igualdade de gênero e perda de controle. Quando a
identidade do homem é construída tendo como balizas posse, superioridade e
autoridade, qualquer deslocamento nestes lugares é encarado por ele como ameaça
narcísica.
Sem o enfrentamento explícito do machismo, da misoginia e de práticas
concretas de violência, o discurso da escuta masculina pode funcionar, tão
somente, como mecanismo de reorganização das hierarquias - à luz do seria ideal
ao homem, vale frisar - e não de transformação ética.
A mudança real exige mais do que sensibilização retórica; requer revisão
crítica de privilégios, abandono da ideia de que a mulher existe como extensão
da vontade masculina e o desenvolvimento de competências básicas, tais como
empatia, tolerância à desilusão, responsabilidade social e reconhecimento de
limites.
Tornar-se menos machista e sexista não é detalhe acessório do debate; é
seu núcleo. Qualquer formulação que substitua tal exigência por uma narrativa
de vitimização masculina produz desvio político e flagrante rebaixamento moral
do problema.
Também, por isso, defendemos que o enfrentamento da violência de gênero
não pode prescindir de resposta institucional firme. Medidas legislativas, como
o Projeto de Lei (PL) 896/2023, que tipifica a misoginia, e o PL 3.890/2020,
que institui o Estatuto da Vítima no Brasil, apontam para uma direção mais
consequente: reconhecer a gravidade estrutural da violência contra mulheres e
fortalecer mecanismos de proteção, de responsabilização e de reparação -
inclusive financeira, material.
O desafio contemporâneo não é amparar privilégios feridos de homens
pouco afeitos à igualdade e à independência, oferecendo-lhes linguagem
terapêutica. Isso seria romper com a longa tradição de se evitar encobrir a
dominação masculina sob narrativas de fragilidade. Quando a vantagem se
apresenta no papel de vítima, a desigualdade apenas muda de vocabulário para
continuar operando, matando.
*Dra. Celeste Leite dos Santos é promotora de Justiça em Último Grau do Colégio Recursal do Ministério Público (MP) de São Paulo; doutora em Direito Civil, pela Universidade de São Paulo (USP); mestre em Direito Penal, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo; presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima); idealizadora do Estatuto da Vítima, da Lei de Importunação Sexual, e da Lei Distrital de Acolhimento de Vítimas, Análise e Resolução de Conflitos (Avarc); e coordenadora científica da Revista Internacional de Vitimologia e Justiça Restaurativa.
*Dra. Luciana Inocêncio é psicóloga e psicanalista especialista em Transtornos
Graves das Psicoses, pelo Colégio de Psicoanalísis de Madrid (Espanha);
especialista em Psicologia Hospitalar e em Especialidades Médicas, pela
Universidade de São Paulo (USP); especialista em Psicologia Clínica e em Teoria
Psicanalítica, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo; e
autora dos livros “Narcisistas”, “Psicanálise Presente na Vida Cotidiana”, “As
Aventuras de Elvis”, “A Comida como Fuga Emocional” e “O Poder da Terapia na
Terceira Idade”
Sexta-feira, 5 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
Saúde estadual – a tragédia anunciada
A crise que se instalou no sistema de saúde de Rondônia é mais antiga do que o Código de Hamurabi. Lembro-me que, em outubro de 1994, matéria do ext

Alemanha perde para Portugal a corrida ao Conselho de Segurança da ONU
Parabéns a Portugal e a Paulo Rangel pelo sucesso da eleiçãoPortugal conseguiu um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU

Cai N’Água: Uma História de Amor Não Correspondido
O Cai N’Água continua sendo cantado pela boemia como se fosse um altar romântico da vida ribeirinha. Mas basta chegar perto para perceber que o enca

A cantilena demagógica da transposição
Não sei você, mas eu não suporto mais ouvir essa conversa mole de transposição de servidores do ex-Território de Rondônia para os quadros da União.
Sexta-feira, 5 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)