Porto Velho (RO) terça-feira, 31 de março de 2020
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Tomara que não haja retrocesso tecnológico quando a pandemia passar


Tomara que não haja retrocesso tecnológico quando a pandemia passar - Gente de Opinião

De uma hora para outra, o cotidiano das mais diversas instituições conheceu a virtualização. Tabus foram derrubados. Votações no Congresso se realizaram de forma telepresencial, plantões automatizados para verificação de sintomas foram disponibilizados na internet, entrou em vigor a sustentação oral por meio eletrônico no Supremo Tribunal Federal. E até para o ensino da medicina reconheceram, finalmente, que há disciplinas que podem, sim, utilizar-se da tecnologia do ensino a distância para boa parte de seus conteúdos.

Semanas atrás, não muitas, talvez ninguém imaginasse que a inovação tecnológica galoparia tão velozmente por sobre resistências culturais, inércias gerenciais e a ignorância mesmo daqueles que, em que pese vivermos a era da informação, buscam argumentos da mais diversa natureza para justificar seu alheamento aos giros da terra em torno de seu próprio eixo e suas voltas em torno do sol. A inclusão digital tomou forma de fagocitose. E mesmo os mais resistentes aos avanços da tecnologia da informação se viram engolidos por ela.

No que se refere a facilitar a vida do cidadão, o setor do comércio que mais resistia à implantação de serviços de entrega em domicílio de compras efetuadas pela internet, o dos supermercados, de repente viu que pode reduzir seus gastos com manutenção de estoques em exposição e adotar um serviço de atendimento de pedidos que faça o produto ir direto dos depósitos para o sistema de entrega, sem água gelada, sem cafezinho, sem comedores compulsivos furtando uvas, nem crianças idiotas rompendo embalagens de iogurte.

A pergunta que fica é se tal processo é reversível. Não creio que o seja, visto que vem definitivamente demonstrar que há gastos descabidos que só são ainda realizados pelas instituições por falta de uma demonstração, clara e irrefutável como a que se está tendo agora, de que o dinheiro público pode ser poupado com o uso da tecnologia. Basta um breve lançar de olhos sobre a economia que o Congresso Nacional está tendo sem parlamentares pra cima e pra baixo de avião toda semana.

E não se pode deixar de enxergar como fator de democratização do acesso à Justiça advogados poderem fazer uma sustentação oral no Supremo Tribunal Federal sem terem que se deslocar a Brasília. Faz sentido abrir mão de todos esses benefícios só porque a pandemia terá passado? É claro que não. Mas, como vivemos num país em que fazer sentido não é um requisito indispensável à tomada de decisão de gestores, tanto os públicos como os privados, corremos, sim, o risco de que o fim da pandemia – e queira Deus isso não demore – signifique também o fim desse galope evolutivo.

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