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A alma do exército


Gen Marco Aurélio - Gente de Opinião
Gen Marco Aurélio

“Na rude escola do caráter, a ordem militar pode recuperar a sua fé e o seu orgulho. Assim reafirmada, ela esperará sem angústia que trabalhe em seu favor a alternância do destino, que passem os dias amargos e que o espirito do tempo lhe volte a ser favorável, como o vento endireita a árvore após tê- la encurvado” 

Gen Charles de Gaulle in O Fio da Espada

As Instituições têm alma. É o que as faz perdurar e fortalecer. A alma de um exército é o seu ethos institucional, ou seja: sua essência cultural, valores, crenças e padrões de comportamento, onde assentam seu caráter e identidade coletiva, fundamentais para a credibilidade e a reputação da “gente das armas” (les gent d’armes), perante a sociedade. Neste contexto, é o moral da tropao estado de espírito ou ânimo dos militares, em suas frações ou unidades, em uma determinada situação – que define o estado da alma de uma Força Armada.

 

Os militares universalmente admitem como verdade a afirmação de Napoleão de que na guerra "o moral está para o físico como três para um". Condicionantes morais e físicos são inseparáveis e indivisíveis, mas a expressão tem valor permanente, porque exprime a ideia da predominância do moral do soldado na conduta de combate, girando no seu entorno os acontecimentos das batalhas e as decisões dos comandantes. Um moral elevado é capaz de garantir a coesão e o desprendimento necessários ao sucesso em situações críticas, superando inclusive os fatores físicos em quase todas as circunstâncias militares.

 

A experiência já mostrou o moral como um estado “dinâmico”, passível até de influência por qualidades individuais (como resiliência ou otimismo), mas sempre propenso a sofrer fraturas expostas quando falham as lideranças. Na guerra, a deterioração do moral costuma ocorrer também por falta de confiança na competência operacional dos chefes, ou ainda, quando os militares se veem submetidos a condições logísticas precárias. Na paz, o moral depende muito da atenção dos comandantes aos aspectos vegetativos da instituição (perspectivas de carreira, salários, promoções, atendimento à família militar), e à manutenção do poder de combate da Força, em face das possíveis ameaças ao cumprimento da sua missão constitucional. Mas em qualquer situação, e principalmente nas crises políticas vividas pelo país, quando muitas das decisões dos comandantes são inclusive alheias à profissão militar, é da liderança militar – à princípio – a responsabilidade pela coesão e o moral de um exército.

Hoje no Brasil, é preciso reconhecer que estamos vivendo a mais aguda crise constitucional de nossa história. A capacidade do nosso sistema constitucional de canalizar institucionalmente os conflitos praticamente se esgotou, o que nos trouxe a uma situação insegurança jurídica inédita, e a um temerário descrédito das instituições. Os nossos atores políticos, entrincheirados em seus interesses quase nunca republicanos, perderam a capacidade de decisão – e mesmo o poder – para restabelecer o equilíbrio e a funcionalidade da nossa Constituição, e não há mais possibilidade de se enfrentar essa crise com decisões consideradas válidas da perspectiva constitucional.

O problema maior é que não temos a quem apelar para corrigir os rumos dessa crise.

Acontece que os próprios guardiães da Constituição – por dever de ofício, os Ministros do STF – tornaram-se violadores contumazes do prescrito em nossa carta magna, abusando ostensivamente de suas autoridades, com inúmeras decisões consideradas ilícitas, imorais ou injustas, no entendimento de todo jurista sério.

Assim, a crise extrapolou o político, chegou na farda e agora já ameaça a segurança nacional.  Em um julgamento totalmente questionável, realizado por juízes suspeitos de fato e de direito, em cabal afronta ao devido processo legal, oficiais da ativa e da reserva, inclusive quatro Generais, foram sentenciados a mais de 20 anos de prisão, condenados – dentre outras acusações absurdas – por “organização criminosa armada” sem que houvesse sequer uma arma presente nos chamados “atos golpistas”.

Quando líderes militares de ilibada reputação são clamorosamente injustiçados, todos os valores militares são questionados pelos soldados, e o moral da tropa é ferido de morte.

Ademais, fruto de um revanchismo pouco inteligente, ou como artimanha ideológica retrógrada para deslegitimar qualquer apoio a uma reação militar de direito contra o autoritarismo que se instalou no país, o Governo teima em instigar uma campanha de descrédito do Exército e de seus Comandantes. Coordenada e persistente, essa orquestração tem mostrado nas mídias e redes sociais, diariamente, os chefes militares submetidos a decisões políticas contrárias à natureza do Exército, além de providências administrativas de Governo depreciadoras da profissão militar, inclusive com iniciativas parlamentares voltadas para desqualificar a Força quanto ao cumprimento de suas missões constitucionais.

Aparentemente, tais atitudes do Governo têm sido apresentadas à população como “aperfeiçoamento da democracia”. Entretanto, é nefasto para o moral da tropa – para a alma do Exército – o descuido das autoridades responsáveis pela eficiência operacional da tropa quanto à manutenção dos chamados distintivos militares (hierarquia, disciplina, lealdade, espírito de corpo, coesão, camaradagem, honra...), aqueles não encontrados em nenhuma outra profissão.

Recentemente, o Papa Leão XIV descreveu a situação global como “uma terceira guerra mundial aos pedaços”, evidenciando um consenso geopolítico atual de que os múltiplos conflitos bélicos em curso estão interligados, resultam de lógicas imperialistas, e são imprevistos no mais das vezes. Os ataques à Ucrania, e à Venezuela comprovam quão tênue é a linha que separa um país hoje de uma agressão armada.

Enquanto isso no Brasil, o Sr José Dirceu – antigo guerrilheiro, fundador do PT, condenado por corrupção, mas beneficiado por sucessivos perdões “cumpanheros” – tem ameaçado o país de “revolução” e até “guerra civil”, assegurando que o PT irá “tomar o poder”, caso Lula não consiga se reeleger em 2026.

Não se iludam, senhores atuais donos do poder. O cumprimento de missões constitucionais de defesa da Pátria, garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem, hoje inclusive ameaçadas por integrantes do partido do Governo, dependem muito da credibilidade e confiança da tropa nas instituições e, mais ainda, da alma do Exército. 

Gen Marco Aurélio Vieira

Foi Comandante da Brigada de Operações Especiais e da Brigada de Infantaria Paraquedista

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