Sexta-feira, 9 de janeiro de 2026 - 16h42

Na discussão sobre se o Brasil avança na
nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3 e constrói mais
10.000 MW de novas usinas nucleares, como propõe o Plano Nacional de Energia
2050, a mediocridade dos argumentos pró nuclear anda
à solta.
Inúmeros argumentos falaciosos têm sido usados para
que o negócio nuclear prospere no país. Muitos deles mal-intencionados com o objetivo
claro de iludir, apavorar a população, mentir sobre as
vantagens e a necessidade desta fonte de energia na matriz elétrica.
Falam que é uma fonte “limpa”, como se houvesse na
natureza qualquer tipo de energia que não contamina, libera produtos tóxicos,
polui, agride o meio ambiente e as pessoas. Também afirmam que os custos da
energia são comparáveis aos das termelétricas a combustíveis fósseis, mas não
falam que são 4 vezes mais caras que as fontes renováveis (água, sol, vento e
biomassa). Omitem quanto ao perigo que ronda as usinas, do combustível
utilizado e o subproduto das reações nucleares, assim como a possibilidade de
serem liberados para a natureza causando verdadeiras catástrofes. E o mais
grave, a fragilidade entre o limite do uso pacífico e bélico da energia
nuclear.
A própria distinção entre uso pacífico e bélico da
energia nuclear é uma “tênue interface”. As usinas de produção de energia
elétrica, utilizam como combustível o urânio enriquecido (isótopo U235 físsil)
a 4-5%. Na natureza o urânio mais abundante encontrado é o U238, com somente
0,7% do isótopo físsil. Para produzir a bomba, a mesma tecnologia de
enriquecimento é utilizada para alcançar 90% do
material físsil. O mesmo material físsil (urânio enriquecido) é usado em ambos
casos, sendo a pureza e a concentração a principal diferença técnica.
O plutônio produzido artificialmente nas reações
nucleares que ocorre nos reatores das usinas, é um elemento químico que,
reprocessado, pode ser utilizado no fabrico de bombas atômicas. Há também
resíduos radioativos, conhecidos como lixo nuclear, empregados nas chamadas
“bombas sujas”. Tipo de bomba, não considerada uma arma atômica, que usa um
explosivo convencional, cujo objetivo é espalhar a contaminação em uma dada
área geográfica, assim como em quem estiver na região, tanto com radiação
direta quanto pela ingestão ou inalação de materiais radioativos.
Em resumo, a facilidade com que um programa civil
pode ser convertido ou servir de base para um programa militar torna essa
distinção uma questão de vigilância, confiança e diplomacia internacional
contínua, justificando a sua descrição como uma "tênue interface".
Apesar dos inúmeros problemas que a adoção desta
tecnologia traria ao país, parlamentares utilizam do espaço que as corporações
de mídia oferecem para difundirem suas opiniões, prevalecendo interesses
pessoais, muitas vezes econômicos, já que fazem parte de grupos lobistas que
pressionam o governo federal para que decida em prol das usinas nucleares.
Um dos personagens atuantes, com declarações
controversas e doidivanas, é o presidente da Frente Parlamentar Mista da
Tecnologia e Atividades Nucleares (FPN) do Congresso, deputado federal Júlio
Lopes (PP-RJ). Em pronunciamento, na véspera da reunião do Conselho Nacional de
Política Energética (CNPE) em 10/12/2024, onde se decidiria pela
conclusão, ou não, de Angra 3, o deputado evocou a população a rezar para
que fosse aprovada a retomada da usina. Apelou para a religiosidade do
povo brasileiro, para intervir nas decisões dos membros do CNPE sobre o uso de
uma tecnologia mais conhecida pela destruição, morte e desastres causados pela
radiação. Declaração completamente fora do contexto econômico, científico,
ambiental, ético e social, que a discussão exige.
Chegou à audácia de afirmar que “o país perderia
bilhões e um conhecimento estratégico, caso não fosse aprovada a continuidade
do empreendimento”. Frases ao léu, sem bases comprobatórias. O que o país
perderia, conforme declaração do deputado, seria um ganho, já que ficaria livre
do perigo iminente que ronda tal tecnologia e do aumento nas contas de luz.
Mais recentemente o nobre deputado, falando como
presidente da FPN, chegou a afirmar que não concluir as obras da usina de
Angra 3 “pode ser considerado um crime contra a economia e o sistema elétrico
do país”. E que o retardamento da retomada das obras custa bilhões de reais por
ano, “comprometendo e atrasando totalmente o avanço do setor nuclear
brasileiro”.
São afirmativas de um deputado federal, membro de
um partido político fisiológico, conhecido pelo “toma lá, dá cá”. O partido
progressista (PP,) que de progressista nada tem, pertence a um agrupamento
parlamentar, que se convencionou de chamar “Centrão”. Seus correligionários têm
votado sistematicamente em propostas contrárias aos interesses do país e do
povo brasileiro.
Só alguém dissociado dos reais interesses
nacionais, pode falar em crime, caso não seja
aprovada a continuidade de uma obra de mais de 40 anos, obsoleta,
contestada tecnicamente e com custos astronômicos. Crime foi o parlamentar
apoiar o desmantelamento da legislação ambiental do país. Crime foi apoiar o
corte de aproximadamente meio bilhão de reais do orçamento já sacrificado das
69 universidades federais para 2026, atingindo todas as ações orçamentárias
essenciais para o funcionamento destas instituições, sendo o principal alvo a
assistência estudantil. É amplamente reconhecido que as universidades
desempenham um papel fundamental na geração de conhecimento e na formação de
pesquisadores. Elas servem como polos de pesquisa e inovação, onde acadêmicos e
pesquisadores exploram novas ideias, realizam estudos aprofundados e
desenvolvem novas tecnologias.
O histórico do setor nuclear brasileiro é marcado
por eventos controversos, secretismo militar e o trágico acidente radiológico
com Césio-137 em Goiânia, considerado o maior do mundo fora de instalações
nucleares. Ainda predomina a falta de transparência e segurança em
radioproteção neste setor, que nasceu vinculado a interesses militares. E que
ao longo dos anos se tornou um grande sumidouro do dinheiro público com Angra
3, as frequentes correções das derrapagens das Angra 1 e Angra 2, além do
vetusto e enigmático submarino a propulsão nuclear.
Neste ano que inicia, basta coragem ao governo
federal em enfrentar os lobbies e, de maneira clara, deixar a mensagem ao povo
brasileiro e ao mundo que o Brasil não irá nuclearizar seu território!
“Em memória do prof. Célio Bermann, militante
socioambiental e ativista da Articulação Antinuclear Brasileira,
que faleceu no dia primeiro de janeiro pp: gratidão
e lembranças”
Sábado, 10 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
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