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Crônica

Sapatos novos


 Luiz Albuquerque - Gente de Opinião
Luiz Albuquerque

Saí de casa levando o par de sapatos para reformar. Por muito tempo deixei aqueles sapatos no armário como uma relíquia, um troféu. Minha mulher chegou a pô-los no lixo e eu, por coincidência ou sorte, os encontrei. Salvei-os, e me rejubilei por isto como quem se rejubila por recuperar um tesouro.

É difícil a outro entender o porquê de tantos cuidados com estes velhos sapatos. Mesmo para minha mulher eu nunca contei. Talvez por vergonha, sei lá! Apenas pedi, aliás, determinei: aquele par de sapatos deveria ficar comigo enquanto eu vivesse. Com o passar do tempo simplesmente o deixei ficar ali, no armário, junto com tantos outros sapatos, quase todos pouco usados, uns até novos. Velho, só aquele par. Limpo, engraxado, mas desgastado, com o solado comido e o calço rebaixado pelo uso. Mas eles vão estar sempre comigo. Hoje vou contar o motivo. Depois de contar, espero que minha esposa passe a vê-los como eu os vejo: uma coisa que mudou totalmente a minha vida, sem o qual possivelmente hoje eu não teria nada do que possuo.

Foi assim: Uns vinte e poucos anos atrás eu não tinha nada. Aliás, tinha a minha vida, mas achava que não valia nada. Vivia na rua, era guardador de carros, flanelinha, essas coisas. Dormia na rua. Fingia guardar os carros dos outros. Assim, mal o cara encostava o carro eu já perguntava se podia tomar conta. Uns diziam que sim, outros que não. Eu ficava olhando de longe, quase sempre com uma garrafa de “pinga” ao lado.

Muitas vezes o que eu ganhava não dava nem pra comprar comida e cachaça, então eu escolhia comprar a pinga. A comida eu sempre acabava conseguindo com alguém que me pagasse ou cedesse um pouco. Recebia umas moedinhas que, no fim, mal davam para comprar nada. Mas era minha vida. Não pensava em nada. Futuro, família, nada!

Até o dia quando encontrei um par de sapatos esquecidos por alguém num banco de praça. Abri a caixa, eles estavam lá! Novos. Brilhantes. Cheirosos. Olhei em volta e não vi ninguém. Saí dali, corri para meu lugar de costume. Ia colocá-los nos pés, mas... tive dó! Eles eram tão limpos, tão novos, e os meus pés, sujos.

Fui até a torneira onde bebia água. Lavei bem os pés e calcei-os. Certinhos! Não sobrava, não faltava, não apertava, nada! Macios, gostosos, diferentes.

Não! Eu não podia usá-los com os trapos que vestia.

Procurei um lugar seguro onde guardá-los e resolvi: Ia conseguir roupas melhores para combinar com os sapatos.

Passei a trabalhar mais e a não gastar com besteira, nem mesmo bebidas. Sem beber, sobrava mais tempo para trabalhar, já que antes enchia a cara e dormia na maior parte do tempo. Trabalhei, ganhei uma calça, comprei camisa e meias. E aí, num domingo, finalmente vestido e limpo, calcei os sapatos.

Ah, os sapatos!

Era como voar! Era como se todos olhassem para mim admirando meus sapatos! Um sonho!

No outro dia fui guardar carros vestindo roupas novas. Aos poucos, com os dias passando, a renda melhorou. Passaram-se meses. Fui comprando outras roupas. Um dia aluguei um quarto. Era o primeiro local “MEU”. Comprei uma gravata e passei a usá-la no trabalho. Passei a ser requisitado por muitos motoristas, ganhava gorjetas maiores que os outros guardadores. Juntei dinheiro.

Certo dia o dono de um estacionamento me convidou para trabalhar com ele. Fui! Passados anos, eu já era gerente daquele estacionamento, depois de outro, chegando a gerenciar seis estacionamentos.

Com a morte do proprietário, sua viúva, vendo que não conseguiria tocar o negócio, me propôs sociedade. Aceitei. Depois, comprei a parte dela. Aos poucos aumentei o empreendimento, abri negócios em outros ramos.

Hoje estou aqui, levando os velhos sapatos. Vou reformá-los. Vão ficar como novos. Eles são a minha vida!

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