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Crônica

A Nova Ordem Petrolífera: Como a queda de Maduro e o colapso do Irã redefinem a hegemonia dos EUA


A Nova Ordem Petrolífera: Como a queda de Maduro e o colapso do Irã redefinem a hegemonia dos EUA - Gente de Opinião

Em uma reviravolta que remodela o tabuleiro geopolítico global, os Estados Unidos emergem de um primeiro trimestre de 2026 não apenas como potência militar, mas como o grande arquiteto de uma nova ordem energética. A captura de Nicolás Maduro em Caracas, em janeiro, seguida pela ofensiva militar que vitimou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no final de fevereiro, consolidaram um movimento duplo que especialistas já comparam ao impacto da queda do Muro de Berlim . Mais do que uma sucessão de vitórias táticas, Washington conseguiu o que décadas de sanções não haviam proporcionado: o controle efetivo sobre duas das maiores reservas de petróleo do planeta e a neutralização das principais rotas de estrangulamento energético.

O Legado Venezuelano: O Petróleo como Butim de Guerra

A operação relâmpago que resultou na captura de Maduro, no dia 3 de janeiro, foi apenas o primeiro ato de uma estratégia mais ampla . Para os EUA, o legado imediato da tomada territorial (ainda que indireta) da Venezuela é a garantia de segurança energética diante de um cenário de conflito global. O país detém as maiores reservas de petróleo do mundo, e, com a nova administração interina de Delcy Rodríguez, Washington garantiu o que Donald Trump chamou de "controle total" sobre a comercialização do crude.

Na prática, o acordo bilateral firmado entre a Casa Branca e a nova presidente venezuelana funciona como um "seguro" geopolítico. Os EUA passaram a gerir diretamente um montante de 30 a 50 milhões de barris de petróleo, cujas receitas são controladas pelo Tesouro americano para "beneficiar os povos" . O primeiro repasse de 300 milhões de dólares, realizado em janeiro, já abastece os cofres venezuelanos, mas sob rígida supervisão ianque.

Analistas apontam que a tomada de influência sobre a PDVSA (a estatal venezuelana) não é apenas econômica, mas estratégica. Em um cenário de guerra no Oriente Médio, a Venezuela funciona como uma retaguarda: caso o Estreito de Ormuz fosse fechado, os EUA poderiam contar com o óleo pesado venezuelano para abastecer suas refinarias do Golfo, evitando um colapso nos preços internos . Trata-se de um movimento preventivo que transforma Caracas em um "ativo" americano, e não mais em uma base de influência iraniana na América do Sul.

A Queda do Irã e o Controle das Rotas

Se a Venezuela foi a peça defensiva, o Irã representa o xeque-mate ofensivo. A ofensiva coordenada entre EUA e Israel, que eliminou Khamenei e degradou significativamente a infraestrutura de mísseis e a marinha iraniana, alterou drasticamente o equilíbrio de poder no Golfo Pérsico. Sem capacidade de reação bélica organizada, o Irã viu seu principal trunfo — a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz — perder parte de seu efeito dissuasório.

Com Teerã neutralizada, as principais rotas de escoamento do petróleo do Oriente Médio, por onde passa cerca de um quinto do petróleo global, ficam mais seguras sob a ótica ocidental. A queda do regime aiatolá não apenas removeu um rival declarado de Israel e dos EUA, mas também abriu caminho para uma reconfiguração dos acordos de fornecimento na região. O modelo aplicado na Venezuela — o chamado "Chevron model", onde empresas americanas operam com participação majoritária do estado local, mas controle de gestão e comercialização estrangeiro — é visto como o possível norte para um futuro Irã pós-revolução.

Os Novos Rumos Geopolíticos

O cenário que se desenha é o de uma hegemonia energética bipolar: de um lado, os EUA e seus novos satélites petrolíferos (Venezuela e um potencial Irã reconstruído); do outro, Rússia e China, que perdem importantes aliados e compradores privilegiados. Para Pequim, que era o maior comprador do petróleo iraniano e venezuelano, o movimento americano representa um duro golpe logístico, forçando uma dependência ainda maior das rotas controladas por Washington ou de oleodutos russos.

Além disso, a doutrina internacional parece estar migrando definitivamente do "direito internacional" para o "paradigma da força", como alertou o diplomata iraniano Kazem Jalali . O uso da captura de líderes (como Maduro) e da desarticulação cirúrgica de estados (como no Irã) como ferramenta de política externa cria um novo precedente: a soberania nacional tornou-se um conceito negociável diante da segurança energética das superpotências.

A curto prazo, o legado para os EUA é a capacidade de ditar os preços do petróleo e garantir o abastecimento de seus aliados sem a interferência de eixos de resistência. A médio prazo, no entanto, a administração Trump enfrenta o desafio de "gerir" esses regimes sem ocupar territórios, evitando que a instabilidade crônica venezuelana ou o ódio arraigado da população iraniana se transformem em novos focos de conflito assimétrico . Por ora, a balança do poder pende para o Ocidente, e o petróleo, mais uma vez, é a moeda dessa nova ordem.

Referências

 

AGÊNCIA TASS. US disregards national sovereignty of Iran, Venezuela Iranian diplomat. Moscou, 26 jan. 2026. Disponível em: https://tass.com/world/2077005.Acesso em: 12 mar. 2026.

 

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NEWSWEEK. What Does Victory in Iran Look Like for Trump? Four Endgames. 10 mar. 2026. Disponível em: https://www.newsweek.com/what-does-victory-in-iran-look-like-for-trump-four-endgames-11653266.Acesso em: 12 mar. 2026.

 

THE NEW YORK TIMES. Trump’s Actions in Iran and Venezuela Show Limits of U.S. Sanctions. 11 mar. 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/2026/03/11/us/politics/trump-sanctions-iran-venezuela.html.Acesso em: 12 mar. 2026.

 

RESPONSIBLE STATECRAFT. How Maduro overthrow was key node in US-Israeli war on Iran. 3 mar. 2026. Disponível em: https://responsiblestatecraft.org/israel-venezuela-maduro/.Acesso em: 12 mar. 2026.

 

NEWSMAX. Ted Cruz: Regime Collapse in Iran, Venezuela, Cuba 'Possible' in 6 Months. 19 fev. 2026. Disponível em: https://rss.newsmax.com/politics/ted-cruz-iran-venezuela/2026/02/19/id/1246726/.Acesso em: 12 mar. 2026.

 

HAWAII TRIBUNE-HERALD. Venezuela to ‘turn over’ up to 50 million barrels of crude to the US, Trump says. 7 jan. 2026. Disponível em: https://www.hawaiitribune-herald.com/2026/01/07/nation-world-news/venezuela-to-turn-over-up-to-50-million-barrels-of-crude-to-the-us-trump-says/.Acesso em: 12 mar. 2026.

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THE NEW ARAB. We know Trump’s endgame. But what is Tehran’s survival strategy?. 3 mar. 2026. Disponível em: https://www.newarab.com/opinion/we-know-trumps-endgame-what-tehrans-survival-strategy.Acesso em: 12 mar. 2026. 

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