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Crônica

Os grilos de Patimau


Os grilos de Patimau - Gente de Opinião

Outro dia, remexendo caixas, dessas arrumações que começam com ordem e terminam em memória, encontrei um texto antigo, esquecido entre tantos outros que a gente promete reler e sempre esquece. Ao abri-lo, veio aquele cheiro leve de papel envelhecido, e junto com ele uma sensação curiosa: a de que algumas ideias esperam, em silêncio, o momento certo de nos encontrar de novo. Foi assim que reencontrei Machado de Assis. O “Bruxo”

Entre páginas amareladas, cheguei ao conto O Segredo do Bonzo, ambientado no Japão de 1552, no Reino de Bungo. E o que encontrei ali não foi apenas literatura, mas um espelho incômodo do nosso tempo. A história se passa numa esquina da cidade de Fuchéu onde um homem chamado Patimau, com um discurso envolvente, convence uma multidão de que os grilos não nascem da terra, mas do ar e das folhas de coqueiro, sob a influência da lua nova.  Ele não tinha nada para provar sua tese. não havia lógica na sua fala! Mas a população, entorpecida por sua fala não se deu o trabalho sequer de observar o que estava diante dos olhos de todos. Havia apenas um discurso seguro e uma plateia disposta a acreditar.

O desfecho não surpreende. O homem é celebrado, erguido nos braços, tratado como alguém acima dos demais. E a verdade, simples e silenciosa, permanecia ignorada ali mesmo, no chão, ao alcance de todos. Mas há um detalhe ainda mais perturbador no relato. Mesmo aqueles considerados letrados, que sabiam perfeitamente que os grilos não nasciam daquela forma, não se opuseram. Por constrangimento, por conveniência ou por simples receio de contrariar a multidão, escolheram o silêncio. Alguns foram além: confirmaram o absurdo, reforçando a farsa diante dos demais.

O Patimau do Japão não está longe. Se trocarmos a esquina de Fuchéu por uma tela iluminada de nossos celulares e a lua nova por um algoritmo, o cenário se torna desconfortavelmente familiar. Vivemos o tempo dos grilos modernos. Espalhamos versões frágeis da realidade, defendemos ideias que não resistem a uma verificação mínima e, com frequência, abrimos mão de perguntar se algo é verdadeiro ou apenas conveniente.

Existe no comportamento humano uma inclinação persistente para o conforto da crença compartilhada. A mentira coletiva acolhe. A verdade individual exige esforço. É nesse terreno que o pensamento de manada prospera. Não apenas entre os desinformados, mas também entre aqueles que sabem. O problema não é só acreditar no erro, mas tolerá-lo em silêncio. Muitas vezes, quem percebe a inconsistência prefere não se expor, não contrariar, não se desgastar. E assim, pouco a pouco, a mentira ganha corpo, não apenas pela voz de quem a cria, mas pela omissão de quem poderia contestá-la.

Nas telas, essa dinâmica ganhou intensidade. A realidade é constantemente atravessada por discursos moldados, fatos recortados e narrativas construídas para convencer antes de esclarecer. A população é exposta a tantas versões conflitantes que, em determinado momento, já não sabe mais distinguir o que é fato e o que é construção. Seguir o fluxo oferece conforto. Questionar cobra um preço.

E é justamente aí que figuras como Patimau encontram espaço. Em meio ao ruído, não importa tanto o que é dito, mas como é dito e quantos estão dispostos a compartilhar. Discursos ganham força não pela sua consistência, mas pela sua capacidade de circular pelas mãos sem críticas. E, nesse movimento, muitos políticos navegam com habilidade, conscientes de que uma narrativa bem sustentada pode se impor.  Não é mais falta de informação. É excesso sem filtro.

Talvez por isso o senso crítico tenha se tornado raro. Não apenas nas páginas esquecidas dos livros, mas nas conversas cotidianas e, principalmente, no ambiente digital. Estamos ocupados demais consumindo aquilo que confirma nossas certezas, como se a realidade pudesse ser ajustada ao gosto de cada um. Mas não pode!

A história jogada na caixa acaba dizendo mais sobre nós do que sobre o Japão distante. O problema nunca foi a existência de Patimau. Eles sempre surgem, em diferentes épocas, com diferentes discursos. O que realmente importa é a disposição da plateia. Descer o charlatão do pedestal exige algo mais difícil do que parece. Exige dúvida. Exige desconforto. Exige, sobretudo, coragem para não seguir o coro.

Quando fechei o conto e o devolvi à caixa, ficou uma impressão persistente. A de que seguimos fascinados por discursos que apontam para o alto, enquanto esquecemos do gesto mais simples. Olhar para o chão. Porque é ali que a verdade continua. Discreta, indiferente ao aplauso, alheia ao espetáculo. E, ao contrário da mentira, não precisa ser repetida para existir.


Rubens Nascimento é jornalista, bacharel em Direito, Metre Maçon- GOB e Ativista do Desenvolvimento Responsável

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