Segunda-feira, 30 de março de 2026 - 17h17

Outro dia, remexendo caixas,
dessas arrumações que começam com ordem e terminam em memória, encontrei um texto
antigo, esquecido entre tantos outros que a gente promete reler e sempre
esquece. Ao abri-lo, veio aquele cheiro leve de papel envelhecido, e junto com
ele uma sensação curiosa: a de que algumas ideias esperam, em silêncio, o
momento certo de nos encontrar de novo. Foi assim que reencontrei Machado de
Assis. O “Bruxo”
Entre páginas amareladas,
cheguei ao conto O Segredo do Bonzo, ambientado no Japão de 1552,
no Reino de Bungo. E o que encontrei ali não foi apenas literatura, mas um
espelho incômodo do nosso tempo. A história se passa numa esquina da cidade de
Fuchéu onde um homem chamado Patimau, com um discurso envolvente, convence uma
multidão de que os grilos não nascem da terra, mas do ar e das folhas de
coqueiro, sob a influência da lua nova.
Ele não tinha nada para provar sua tese. não havia lógica na sua fala!
Mas a população, entorpecida por sua fala não se deu o trabalho sequer de
observar o que estava diante dos olhos de todos. Havia apenas um discurso
seguro e uma plateia disposta a acreditar.
O desfecho não surpreende. O
homem é celebrado, erguido nos braços, tratado como alguém acima dos demais. E
a verdade, simples e silenciosa, permanecia ignorada ali mesmo, no chão, ao
alcance de todos. Mas há um detalhe ainda mais perturbador no relato. Mesmo
aqueles considerados letrados, que sabiam perfeitamente que os grilos não
nasciam daquela forma, não se opuseram. Por constrangimento, por conveniência
ou por simples receio de contrariar a multidão, escolheram o silêncio. Alguns
foram além: confirmaram o absurdo, reforçando a farsa diante dos demais.
O Patimau do Japão não está
longe. Se trocarmos a esquina de Fuchéu por uma tela iluminada de nossos
celulares e a lua nova por um algoritmo, o cenário se torna desconfortavelmente
familiar. Vivemos o tempo dos grilos modernos. Espalhamos versões frágeis da
realidade, defendemos ideias que não resistem a uma verificação mínima e, com
frequência, abrimos mão de perguntar se algo é verdadeiro ou apenas
conveniente.
Existe no comportamento humano
uma inclinação persistente para o conforto da crença compartilhada. A mentira
coletiva acolhe. A verdade individual exige esforço. É nesse terreno que o
pensamento de manada prospera. Não apenas entre os desinformados, mas também
entre aqueles que sabem. O problema não é só acreditar no erro, mas tolerá-lo
em silêncio. Muitas vezes, quem percebe a inconsistência prefere não se expor,
não contrariar, não se desgastar. E assim, pouco a pouco, a mentira ganha
corpo, não apenas pela voz de quem a cria, mas pela omissão de quem poderia
contestá-la.
Nas telas, essa dinâmica
ganhou intensidade. A realidade é constantemente atravessada por discursos
moldados, fatos recortados e narrativas construídas para convencer antes de
esclarecer. A população é exposta a tantas versões conflitantes que, em
determinado momento, já não sabe mais distinguir o que é fato e o que é
construção. Seguir o fluxo oferece conforto. Questionar cobra um preço.
E é justamente aí que figuras
como Patimau encontram espaço. Em meio ao ruído, não importa tanto o que é
dito, mas como é dito e quantos estão dispostos a compartilhar. Discursos
ganham força não pela sua consistência, mas pela sua capacidade de circular
pelas mãos sem críticas. E, nesse movimento, muitos políticos navegam com
habilidade, conscientes de que uma narrativa bem sustentada pode se impor. Não é mais falta de informação. É excesso sem
filtro.
Talvez por isso o senso
crítico tenha se tornado raro. Não apenas nas páginas esquecidas dos livros,
mas nas conversas cotidianas e, principalmente, no ambiente digital. Estamos
ocupados demais consumindo aquilo que confirma nossas certezas, como se a
realidade pudesse ser ajustada ao gosto de cada um. Mas não pode!
A história jogada na caixa
acaba dizendo mais sobre nós do que sobre o Japão distante. O problema nunca
foi a existência de Patimau. Eles sempre surgem, em diferentes épocas, com
diferentes discursos. O que realmente importa é a disposição da plateia. Descer
o charlatão do pedestal exige algo mais difícil do que parece. Exige dúvida.
Exige desconforto. Exige, sobretudo, coragem para não seguir o coro.
Quando fechei o conto e o devolvi à caixa, ficou uma impressão persistente. A de que seguimos fascinados por discursos que apontam para o alto, enquanto esquecemos do gesto mais simples. Olhar para o chão. Porque é ali que a verdade continua. Discreta, indiferente ao aplauso, alheia ao espetáculo. E, ao contrário da mentira, não precisa ser repetida para existir.
Rubens
Nascimento é jornalista, bacharel em Direito, Metre Maçon- GOB e Ativista do
Desenvolvimento Responsável
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