Quarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Crônica

O berço do Madeira à espera das chuvas frias de novembro


Simon Santos - Gente de Opinião
Simon Santos

Apocalíptico! Beradeiros e beradeiras, o cenário é apocalíptico. Há dias uma densa e fantasmagórica cortina de fumaça encobre o Berço do Madeira, como se fosse um imenso lençol cinza a nos envelopar. 

O Berço do Madeira está empelicado e arde literalmente em chamas. Paira sobre cada um de nós um certo espanto mudo e uma leve sensação de que alguma profecia bíblica está a caminho. Será o prenúncio do fogo eterno?

Percebem beradeiros e beradeiras que seu quarto também está impregnado do cheiro caliginoso de fumaça? Que seus olhos lacrimejam, a boca parece estar sempre seca, a garganta arde e seu corpo levemente febril? 

Beradeiros e beradeiras! “Renascer das cinzas”, é uma máxima grega. Nós do Berço do Madeira, teremos que aprender a renascer da fumaça, esse é o nosso maior e urgente desafio.

 Os que sobreviverem, terão que desenvolver uma capacidade respiratória mais apurada e olhos resistentes à ardência. A cor da pele será uniforme, acinzentada, e todos exalarão o mesmo odor cuja essência primordial ressoará à  fumaça.

Ora beradeiros e beradeiras não se apoquentem! Querem um consolo? Vai piorar, o Berço do Madeira virará uma savana cinza e sombria, habitada por seres muito diferentes de nós.

Vejam! Depois da pandemia da Covid-19, a natureza nos entrincheira novamente, o aquecimento global intensificado pela ação humana, muda a rotina no Berço do Madeira, do aluno que deixou de frequentar a escola, do idoso que teve que redobrar os cuidados com a saúde, do comerciante e da dona de casa que têm de manter portas e janelas totalmente fechadas mesmo sob uma temperatura de deserto. 

As terras férteis de águas cristalinas existirão apenas na letra do Hino do Berço do Madeira. Seremos apenas uma fornalha ardendo a céu aberto até que cheguem as chuvas frias de novembro.

Beradeiros e beradeiras atentem! Esse é talvez o primeiro capítulo de uma apocalíptica guerra que se repetirá ano, após ano, até que queime o último ipê no Berço do Madeira e a vegetação rasteira que insistir em brotar no leito seco e esturricado do Rio Madeira. 

Simon O. dos Santos - Cronista

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Nova corte na aldeia

Nova corte na aldeia

Quando era rapazote ia com meus pais, veranear a pequena povoação do Vale da Vilariça.Depois da janta, familiares e amigos, abancavam-se na escaleir

A morte começa, quando nascemos

A morte começa, quando nascemos

        Tudo passa açodado: passam as horas, passam os dias, passam os anos, e sem percebemos, chega a caduquice, a decadência, a velhice…; e tudo p

Mudam-se os tempos; mudam-se os conceitos

Mudam-se os tempos; mudam-se os conceitos

No mês de dezembro, mês húmido e sombrio, aproveitei os raros dias de céu lavado e, de amena temperatura, para almoçar num centro comercial.Após suc

Se ainda não tem, compre um

Se ainda não tem, compre um

Acabo de sair de capela onde repousa senhora, que o povo canonizou. Venho entristecido e meditabundo: lá encontrei: muita cera; pagelas; terços; med

Gente de Opinião Quarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)