Quinta-feira, 9 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Crônica

Delação premiada ou dedurismo?


Delação premiada ou dedurismo? - Gente de Opinião

A logística de palavras, usada pelo escritor regular, com o intuito de se fazer entender ao término do texto, às vezes, é traída pela dinamicidade da língua, mudando a semântica, complicando o entendimento, obrigando a observância do circunstancial, no contexto: até bem pouco tempo o substantivo dedurismo (derivado de dedo-duro), só era usado no sentido pejorativo, para denominar pessoas sem ética, sem caráter, hoje é sinônimo de delação, não uma delação qualquer, mas premiada!

Delação premiada passou a ser o sonho de quem, durante anos e anos de sua vida, locupletou-se, como homem público ou privado, usando meios escusos para auferir recursos públicos, ainda assim tolerado e aplaudido, desde que os dedurados sejam da sua iguala e representem os poderes da república.

Amanhã, muitas crianças, que se envergonhavam dos pais ladrões porque políticos corruptos, dirão orgulhosamente à professora e aos colegas: − meu pai é um delator premiado!!!

A primeira delação premiada, festejada pela história judaica/cristã, não teve um final feliz, Judas ganhou 30 moedas, mas não suportou o peso da consciência, se fosse hoje, talvez a história fosse diferente: Judas se mudaria para alguma ilha grega, a fim de desfrutar as benesses das suas moedas de ouro.

“Dedo duro” era a alcunha mais temida na vida de um cidadão. Lembram de Wilson Simonal, marcado pela classe artística por ter supostamente dedurado colegas de profissão ao DOPS, na vigência do Governo Militar?

Lembram de José Genoíno, acusado por muita gente do PC de ter dedurado seus colegas, durante a guerrilha do Araguaia? Até hoje ele carrega essa pecha, como um fardo insuportável.

No submundo do crime, o prêmio de uma delação era uma bala na cabeça, e isso vigorou até bem pouco tempo, segundo meu “ponto” ficcional, colocado no ouvido da imaginação, ainda vigora até hoje. Alcagueta é um termo policial comum à marginalidade.

O mundo dá voltas, o vulgar “dedo duro” virou delator, ou melhor, autor de delação, que por ser algo considerado bom para a sociedade, é premiada. O tal Daniel Vorcaro, conhecido internacionalmente como meliante, corrupto da pior espécie, estava preso numa penitenciária comum, mas tão logo se autodenominou um delator premiado, foi transferido para um apartamento especial, nas dependências da PF, local este já ocupado por um ex-presidente da república. – “Tratem bem o delator, do contrário, muitos comparsas dos três poderes poderão vir à tona”.

De fato, “dedo duro” é chulo, delator é chique, principalmente agora que o termo passou a frequentar a banca dos melhores advogados do país e está na pauta do MP, do STF, do Congresso e do Executivo Federal: o instituto da delação premiada, a partir de agora, é um ato jurídico perfeito, declarou pomposamente certa presidente do STF.

Acredito que a partir deste momento muitos políticos investigados, soltos depois de cumprirem pequenas penas, ou empresários de grande porte, que sequer foram presos, mandarão colocar em suas salas de recepção, um quadro moldurado, nos moldes de um diploma: Fulano de tal, “delator premiado”, com a assinatura dos representantes da PGR e do STF.

Outros dirão em comícios populistas, votem em mim, eu sou um delator premiado, eu devolvi parte do que furtei e ainda mandei pra cadeia muitos dos meus colegas, se estou solto e pleiteando uma nova oportunidade é porque fui premiado pelo MP e pelo STF. Prometo que vou continuar exigindo propinas, mas devolverei parte delas para bem do Brasil, o que significa dizer que estarei sempre lutando por mais e mais obras públicas.

E viva o Brasil, o país da impunidade! E ainda há quem se surpreenda com o péssimo ensino público, com os parcos recursos para a saúde, com as distâncias socais e com o aumento da violência nas cidades brasileiras.

Gostaria de ter nascido, onde não se estranharia a seguinte conclusão: político ou empresário corrupto, tão logo fosse preso e condenado, seria automaticamente fuzilado em praça pública e delator corrupto, mas que contribuísse para mais fuzilamentos, seria premiado com uma morte menos violenta: injeção letal! 

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 9 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Os grilos de Patimau

Os grilos de Patimau

Outro dia, remexendo caixas, dessas arrumações que começam com ordem e terminam em memória, encontrei um texto antigo, esquecido entre tantos outros

Uma história de amor - O menino e o cão

Uma história de amor - O menino e o cão

Eu tinha doze a treze anos. Não mais; - quando minha mãe, declarou, em derradeiro dia de julho, com largo e bom sorriso, bailando nos finos lábios e

Em defesa da nossa cultura

Em defesa da nossa cultura

Passei a véspera de Natal em companhia de minha mulher, na residência de casal amigo, que gentilmente nos convidaram.A consoada foi simples: o tradic

A Nova Ordem Petrolífera: Como a queda de Maduro e o colapso do Irã redefinem a hegemonia dos EUA

A Nova Ordem Petrolífera: Como a queda de Maduro e o colapso do Irã redefinem a hegemonia dos EUA

Em uma reviravolta que remodela o tabuleiro geopolítico global, os Estados Unidos emergem de um primeiro trimestre de 2026 não apenas como potência

Gente de Opinião Quinta-feira, 9 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)