Quinta-feira, 18 de março de 2021 - 14h53

Não há dúvidas: a verdade é absoluta e imutável. Contudo, a percepção
dos fatos, a forma como os descrevemos e as nossas expectativas com relação a
eles mudam de pessoa para pessoa. Isso faz com que cada um manifeste seu
entendimento do mundo a partir de um determinado ponto de vista que, quase
sempre, privilegia apenas um ângulo em detrimento de outros.
A pandemia de covid-19 é a verdade que se impõe ao País, neste momento.
Os tristes indicadores epidemiológicos, que revelam uma escalada assustadora de
vítimas e óbitos, se impõem no noticiário e nos debates que vão das residências
mais humildes aos salões do Congresso Nacional.
Da mesma forma, o impacto negativo causado pelo novo coronavírus na vida
social e econômica tem sido sentido de Norte a Sul. Não se pode negligenciar
que as restrições impostas em algumas áreas têm tido efeito devastador sobre
emprego e renda. Para muitos, a doença virou sinônimo de prejuízo, falência e
miséria.
Diante de um mesmo fenômeno, há duas visões que se digladiam em busca de
protagonismo. De um lado, há o grupo que se apega aos relatórios das
autoridades sanitárias e prenuncia o avanço do caos diante da impossibilidade
do sistema de saúde em atender aos contaminados.
Em contraposição, existem aqueles que clamam contra as medidas que
reforçam o distanciamento social à custa do fechamento total do comércio e da
indústria e de limites no ir e vir. Na sua visão, à medida que se prolongam,
essas práticas adotadas por alguns governos levarão muitos à morte, não em
decorrência do coronavírus, mas de fome e inanição.
Afinal, em qual dos dois lados mora a razão neste debate? Considerando
os respectivos ângulos, diria que ambos estão corretos. Mais ainda: os dois apresentam
argumentos pertinentes e oportunos. Porém, lamento informar que nem um e nem
outro pode ser declarado vencedor, pois nenhum consegue expressar a completa
dimensão do que é a pandemia, a realidade que deve ser combatida.
Se Rondônia quer superar essa crise, sua população, seus gestores e suas
lideranças devem entender que, mais do que defender seus pontos de vista, ou
interesses, é preciso considerar a amplitude dos fatos. Impossível ignorar que
a pandemia é, simultaneamente, uma crise sanitária que atinge a saúde, tira
vidas, destrói empresas e tem lançado milhões na miséria. Por isso mesmo,
qualquer solução tem que contemplar esses e vários outros aspectos.
Se os gestores devem providenciar leitos, vacinas, médicos e apoio às
medidas preventivas, também não podem se esquecer de que a saúde econômica das
empresas e trabalhadores depende de subsídios, incentivos e um plano de socorro
que seja exequível e transparente, com foco, sobretudo, nos micro e pequenos
empresários e na economia informal.
Por sua vez, lideranças de um grupo e do outro devem se colocar nos
“sapatos alheios” antes de arroubos incompatíveis com uma democracia. A
empatia, o diálogo e o consenso devem prosperar em nossa sociedade,
respeitando, sobretudo, o que as leis e regras determinam. Nesse tempo
pandêmico, tudo o que não precisamos é de desordem e desobediência civil, como
estimulam ânimos exaltados.
Machado de Assis, nosso ilustre escritor, ficaria surpreso diante da
atualidade descrita em “Quincas Borba”, um de seus romances mais conhecidos. No
livro, o filósofo que d[a título à obra, criador do chamado
humanitismo, resume sua corrente de pensamento numa frase: “Ao vencido, ódio ou
compaixão; ao vencedor, as batatas". Ou seja, a conquista de uma posição
deve implicar na ruína de outros.
Na luta contra a pandemia, não é esse o espírito que deve nos guiar. Ao
contrário, o momento pede, sobretudo, vacina, despojamento e abertura para
encontrar as soluções que Rondônia precisa para vencer a verdade da covid-19.
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