Sábado, 2 de maio de 2026 - 08h05

Apesar do aumento da
conscientização sobre o autismo nos últimos anos, o problema vai além da
informação. A principal barreira está na estrutura disponível: escassez de
profissionais qualificados e dificuldade de acesso a serviços especializados,
diagnóstico precoce e às terapias adequadas.
Em Rondônia, esses problemas são evidentes. Famílias de baixa renda, mesmo
quando se antecipam diante de sinais de alerta para o autismo, enfrentam uma
longa jornada até a confirmação do diagnóstico. Em muitos casos, o laudo pode
levar até dois anos para ser fechado.
A rede pública de saúde conta com poucos neurologistas para atender à alta
demanda. O processo envolve múltiplas etapas: primeiro, a espera na fila de
regulação para conseguir a consulta inicial; depois, uma nova fila para o
retorno com o médico, já com os exames solicitados.
Os exames são outro obstáculo. Não há garantia de urgência, e procedimentos
como o BERA com sedação, frequentemente solicitados para descartar problemas
auditivos antes do fechamento do diagnóstico, podem demorar meses — ou até mais
— para serem realizados.
Diante dessa realidade, muitas famílias recorrem à Defensoria Pública ou ao
Ministério Público para judicializar o acesso aos exames, buscando decisões do
Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) que obriguem o Estado a garantir a
realização com urgência ou custear o procedimento na rede privada. A batalha
judicial também pode ser longa.
Sem laudo, sem acesso
A ausência do laudo gera um efeito em cadeia que compromete toda a vida da
pessoa autista.
Uma ex-funcionária da Associação de Amigos do Autista de Rondônia (AMA-RO)
relatou ao Imprensa Atípica que presenciou diversas famílias chegarem com
crianças de 5, 6 e até 7 anos ainda sem diagnóstico fechado. Ela afirmou que
ficava com “o coração cortado”, mas não podia fazer nada. “Sem o laudo, não é
possível ser atendido na AMA nem em outras entidades”, disse.
Mesmo com características autísticas evidentes, uma criança sem laudo também
não consegue ter acesso a terapias nos centros especializados da rede pública,
a medicamentos nas farmácias públicas, a professor auxiliar na escola, nem ao
benefício previdenciário que poderia ajudar no custeio do tratamento.
Na prática, o desenvolvimento dessas crianças também fica parado na fila de
espera do sistema público. Enquanto isso, o tempo passa — e, no autismo, o
tempo é um fator decisivo.
Impacto no desenvolvimento
A falta de uma política estruturada voltada ao diagnóstico precoce impacta
diretamente as famílias de baixa renda, que dependem exclusivamente do SUS.
Especialistas são unânimes ao afirmar: quanto mais cedo o diagnóstico, maiores
são as possibilidades de desenvolvimento.
Segundo a pediatra e sanitarista Dra. Zilda Arns (in memoriam), referência
histórica na promoção do desenvolvimento infantil no Brasil, “os primeiros anos
de vida são decisivos para o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo da criança”,
e atrasos nesse período podem gerar impactos duradouros.
No campo específico do autismo, o neuropediatra Dr. Clay Brites, uma das
principais referências atuais no Brasil, reforça essa preocupação ao afirmar
que intervenções precoces são fundamentais para potencializar o desenvolvimento
da criança com TEA, especialmente nas áreas de linguagem, comportamento e
interação social.
“Quanto mais cedo começarmos a intervenção, maiores são as chances de ganhos
significativos no desenvolvimento da criança”, destaca o especialista.
Diante desse cenário, o enfrentamento do problema exige mais do que campanhas
de conscientização, como o Abril Azul. É necessário investimento na formação de
profissionais, ampliação da rede pública e criação de políticas que garantam
acesso rápido, contínuo e de qualidade, para tirar da situação de abandono
milhares de crianças que seguem esperando por um diagnóstico que pode definir o
rumo de suas vidas.
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