Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Vinício Carrilho

A Guerra Civil não começa assim


Algumas pessoas exageraram – e muito – nas manifestações em São Paulo, como manifestantes do movimento social popular que só no nome brigava contra o abuso das passagens cobradas no transporte público (R$3,20). Quebraram, dilapidaram, picharam, destruíram – e isso é deplorável, e contra essas ações deve agir o rigor da lei.

Mas, certamente, não ocorreu (e nem poderia ocorrer) algo ou nada que justificasse à polícia balear inocentes, quase-cegar jornalistas, espancar centenas/milhares de manifestantes ou prender  estudantes porque levavam consigo vinagre, para usar em caso de lançamento de gás lacrimogêneo. Porém, o pior ainda seria visto nas ramificações do movimento pela moralidade pública que se viu em Brasília e depois no Rio de Janeiro. Em geral, pessoas que apenas protestavam contra a não-prestação de contas adequadas das verbas públicas utilizadas na construção dos estádios da FIFA. O pior, como disse, é que esses manifestantes pela moral pública voltaram a ser espancados, violentamente, pela polícia que parece agir com o mesmo ímpeto da polícia de repressão do regime militar.

A Guerra Civil não começa assim - Gente de Opinião

 Esta foto é de uma polícia legalista?

Trata-se de um uniforme de polícia normal ou do estilo que vai à guerra? Lembra certamente uma cena de batalha campal, não fosse pelo jovem – uma criança – socada pela guarda de exceção. Parece uma cena tirada da história em que o sans-culottes é castigado pelas tropas do Antigo Regime. Envelheça seu olhar, tire a cor da foto e os franceses revolucionários tomarão o lugar do jovem torcedor brasileiro. Aliás, frise-se que se trata de um torcedor sem poder aquisitivo para comprar ingressos dos jogos oficiais. O sans-culottes brasileiro protesta não contra o sistema de poder apoderado pelo capital, como fizeram os franceses de 1789, mas sim contra a bandalheira feita com o dinheiro público. O homem médio brasileiro condena as elites corruptas. Este jovem deveria estar gritando: “Pelo fim da ditadura! Pela punição da aristocracia da corrupção!”.

Para mim, não é assim que começa a guerra civil, porque já começou faz tempo.

 Vinício Carrilho Martinez

Professor Adjunto III da Universidade Federal de Rondônia - UFRO

Departamento de Ciências Jurídicas/DCJ

Pós-Doutor Educação e em Ciências Sociais

Doutor pela Universidade de São Paulo

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoTerça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

“Sociologia dos Afetos”

“Sociologia dos Afetos”

           Está correto falar de/em afetos? Claro que sim. Isso fica evidente quando tratamos de relações pessoais ou de relações sociais. Num exemp

Inteligência artificial na política

Inteligência artificial na política

No caso específico das fake news na seara política, o ônus da prova está invertido: na prática, o atingido pelo áudio (supostamente feito por IA) te

Consciência social e de classe

Consciência social e de classe

         O título trata, sem dúvida, da consciência de classe. E, no caso brasileiro, é uma consciência que deve olhar para baixo e para dentro, an

Pessoa com deficiência

Pessoa com deficiência

         Eu tenho deficiência física, na perna esquerda, e estou nesse imenso rol que chamam de PCD – pessoa com deficiência. É mais um apelido. E c

Gente de Opinião Terça-feira, 3 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)