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Vinício Carrilho

Ela pensa? - a inteligência desumana


Ela pensa? - a inteligência desumana - Gente de Opinião

Tanto fizemos e desfizemos que, afinal de contas, e ainda estamos no início do século XXI, conseguimos produzir uma inteligência desumana, absolutamente desumana; pois, leva docilmente à morte. Temos à nossa inteira disposição uma tecnologia que enreda a morte com rotos sinais de vida (e não estamos falando da energia nuclear).

          No século passado, o boneco mortífero era só uma ficção, hoje há robôs criados para esse fim. Tanto fizemos que demos “vida” à engenhoca destinada ao nosso fim – a tecnologia não é mais um meio, mero suporte ou extensão das habilidades humanas; já faz algum tempo que o martelo não é um constructo que apenas substitui a mão humana. Definitivamente, efetivamente, o martelo se voltou contra nós[1].

Docilmente, nos entregamos à tecnologia que, programada para tal, nos elimina como resíduos descartáveis[2]. Portanto, nossa entrega dócil não poderia gerar uma ironia maior do que essa: nossa programação social, societal, nos impôs a mesma obsolescência do capital: quando mais se prevê o fim do que se dá atenção aos meios e ao processo como um todo. As mercadorias têm data de validade – e os humanos também.

Passamos da fase sinalizada como “servidão voluntária”, do chamado Capitalismo de dados – lastreado nas redes sociais que monetizam o engajamento. Passamos dessa fase porque temos a imposição de um capital capaz de sintetizar (projetar) a vida para longe de nossa existência – agudizando, por certo, a pior crise ontológica possível: se já não somos programados para viver, então, não haverá dúvidas de que podemos sucumbir ao capital, e morrer tranquilamente, docilmente[3].

A obsolescência do capital nos apanhou em cheio na condição humana que se projetava inconteste, antigamente irrefutável. Agora, somos programados para viver enquanto somos capazes de consumir e o fim é planejado porque somente uma elite de nós tem o “direito de consumir”. Para o restante, impõem-se o “dever de se autoconsumir” – assim, não é difícil visualizar que a regra se fez exceção e que a exceção se fez regra: no capitalismo de autoconsumo e planejado desde já para ser obsoleto, a regra prevalecente é a do descarte, da exclusão e da eliminação[4].

          A outra perna dessa ironia avassaladora está no fato de que a Inteligência Artificial (IA) ainda é um produto humano, o algoritmo ainda sintetiza o substrato humano, recolhendo tudo que produzimos e postamos na Internet: a IA, ainda, tem apenas esse efeito sintetizador – ela não produz nada, ainda.

Somos nós, com nosso engenho e trabalho que criamos e postamos, gentilmente (a exemplo desse artigo) e a IA tem a função de fazer uma síntese, um resumo, do nosso próprio trabalho e esforço intelectual – e olha só como é “inteligente”: sintetiza o que fizemos e devolve para nós, mas como se fosse produção dela. Aqui está um dos engenhos desse “encantamento”: há uma apropriação cultural, científica, artística que chega a um limite – a nossa própria incapacidade de identificação com a nossa produção cognitiva, intelectual.

Em todo caso, em que pese essa brutal apropriação da nossa capacidade, a inteligência produtiva ainda é nossa, mas, crescentemente, estamos delegando (para fora de nós) essa capacidade – o exemplo aqui vai por conta da máquina que já planeja outras máquinas.

Pois bem, antigamente, isso era chamado de fetiche da mercadoria[5], efeito em as pessoas "sentem" – na ausência de formação crítica – que "a mercadoria tem vida própria".

As pessoas "pensam" que o produto foi andando até à gôndola do mercado. Jamais ou quase nunca veem a força de trabalho de quem pôs ali, abasteceu. 

A classe trabalhadora fica invisível, ninguém quer saber de fato quem produziu aquela mercadoria, aquele produto, e, também por isso, a luta de classes desaparece do horizonte cognitivo das pessoas em geral: ninguém vê, porque não quer ver,  sob o efeito ludibriante, quem produziu, trabalhou.

Esse efeito se completa com a "alienação" (tirar de si a consciência). A alienação tem inúmeros fatores, do fatos que a provoca e os seus resultados, todavia, um deles – e que se liga à IA – decorre da maquinaria: o motor à combustão simulando, parecendo ter "vida própria", com movimentos contínuos, provocou (provoca) um "efeito encantador", um espanto: "meu Deus, como pode fazer isso? Parece um humano! – ele tem vida própria!![6]".

Isso diziam os trabalhadores da Segunda Revolução industrial e, guardadas as proporções (hoje sob efeitos muito mais aguçados), dizem as pessoas em relação à tecnologia (em geral) e mais ainda quando "mergulham" na Inteligência Artificial. 

Tivemos etapas “evolutivas” nesse processo de encantamento (e embotamento[7]), como a produção em escala, o fordismo, a linha de produção, o Taylorismo, a automatização, o Toyotismo, a robotização – seja ela maquínica, seja ela promovida por Bots (no espectro digital).

O fato é que viemos atribuindo características da condição humana à IA, e, assim, os efeitos (metafísicos) do passado longínquo do capital invertido (maquinaria) ganham proporções épicas, como o direito à vida e à morte. 

Esse efeito espetacular da tecnologia atual e da IA, em particular, elevaram a um nível devastador, sem precedentes na história do capitalismo, essa "transferência de humanidade para as máquinas". 

É como se víssemos um "encantamento" de forma total (o indivíduo está literalmente entregue), capaz de associar (ressignificar) as pessoas a partir do fetichismo e da brutal alienação.

Hoje transferimos trabalhos simples à IA, todos nós, porém, alguns já transferiram os atos mais complexos: encantados pela "inteligência" de outrem, de outra coisa, simplesmente deixaram de viver. 

Em resumo: uma das principais diferenças entre a técnica (essência da hominização) e a tecnologia está na capacidade incontrolável (hegemônica) do maquinismo atual provocar "as piores crises ontológicas" (não saber se você existe) da história da humanidade. 

A dúvida hamletiana, "ser ou não ser", já não faz sentido[8]

A resposta foi dada pelo capital hegemônico que produz e alimenta a IA, no cotidiano de cada um/a de nós. 

É o mesmo que dizer: o modus operandi (altamente tecnológico) do capitalismo atual já decretou que a vida humana não é mais necessária. 

Afinal, para o algoritmo, somos fúteis, inúteis, relegados à primariedade dos mais ineptos produtores de dados brutos – os dados brutos que são tão embrutecidos quanto nós nos tornamos.

E a ironia catatônica se encerra com a lembrança de que, nessa fase do capital dissolutivo, os rendimentos, os dividendos, também podem ser “sintéticos[9]”. Este é o desfecho para a ironia de vida e morte: o capital sintético (do futuro) assinala, outra vez, que a vida humana é desprezível.

É desse modo que a vida é sintetizada pelo capital especulativo, sintetizador de lucros futuros que dependem da morte (e não estamos tratando da indústria bélica – na verdade, o capitalismo é bélico e, portanto, sua tecnologia e indústria não podem seguir um mote diferente).

          Todas as respostas fornecidas pela IA são simplificadas, depuradas de autoria, de humanidade, e o que ela nunca nos diz é simples: trata-se de uma impositiva condição especulativa do capital especulativo e improdutivo. Em outras palavras, trata-se de ganhar no futuro o que desfez no presente. Afinal, a vida é sintética, o passado é presente, enquanto o futuro é uma porta fechada.



[1] SHELLEY, Mary. Frankenstein – uma história de Mary Shelley contada por Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

[2]           Mãe quer justiça após morte de jovem que namorava IA - 27/10/2025 - Cotidiano - Folha https://share.google/s34X4SOc3GTLOWevx. Acesso em 28/10/2025.

[3] BAUMAN, Zygmunt. Vigilância Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

[4] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital; Educação após Auschwiz, e depois de Gaza; Educação em Direitos Humanos; Educação Constitucional. 499 p. 2025. Tese (Título de Professor Titular) - Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2025.

[5] MARX, Karl. Manuscritos económico-filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989.

[6] GOGOL, Nicolau. O Capote. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.

[7] Esse é o espanto de Kafka ao se ver metamorfoseado em barata, em algo desprezível aos olhos da vida social produtiva e sempre ávida à manipulação, estagnação e despersonalização dos produtores: “Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? [...] Ele não está bem, acredite em mim, senhor gerente. Senão como Gregor perderia um trem? Esse moço não tem outra coisa na cabeça a não ser a firma [...] Senhor gerente, não vá embora sem me dizer uma palavra capaz de mostrar que o senhor me dá pelo menos uma pequena parcela de razão” (KAFKA, Franz. A metamorfose. 18ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 16-26). Vemos aí o pensamento maquínico que já rondava a Alemanha às vésperas da ascensão do Partido Nacional-Socialista, na Alemanha. A fixação na produtividade da cultura superior.

[8] SHAKESPEARE, W. Hamlet, príncipe da Dinamarca. Tradução de Ana Amélia de Queiroz Carneiro Mendonça. In: BLOOM, H. Hamlet: poema ilimitado. Tradução de José Roberto O'Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, p.140-319.

[9] “Dividendo sintético é uma estratégia financeira que gera renda através da venda de opções de compra (call options), conhecida como venda coberta, em vez de receber lucros diretamente das empresas. O investidor ganha o prêmio pago pelo comprador da opção, criando um fluxo de renda semelhante a dividendos, mas de forma artificial. Essa técnica é utilizada para obter ganhos adicionais, especialmente quando o mercado está estável ou em baixa, mas exige conhecimento sobre opções e tem o risco de que a ação seja vendida por um preço menor que o valor de mercado caso o comprador da opção a exerça”. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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