Sexta-feira, 30 de junho de 2023 - 11h28

Vou falar de um bar. De um bar encravado numa ruazinha da Embratel. É um
bar pequeno, com mesas na calçada e uma atmosfera acolhedora. É um bar mutável.
Uma hora está repleto, outra pairam por lá algumas almas cotidianas, aliás mais
noturnas, porém o bar se tornou um refúgio para quem busca um bom papo, momentos de descontração, alguma poesia e boa
companhia, que, nas quintas ganha o encanto de uma boa comida feita pelo chef
Orlando Jr. ou da, hoje, quase portuguesa Sandra Santos, que, por sinal, é
mesmo chegada à comida e à música italiana, enfim são encantos deste bar, que
já teve árvores, buganvilles e tem as estrelas do Madeira, o que o tornou um
verdadeiro ícone da intelectualidade local.
Bem, o bar, para dizer a verdade, é bem intimista e, se, do lado de
fora, tem uma profusão de luzes, quando se entra a iluminação e a música suave de
fundo, criam uma atmosfera agradável e o espaço permite que os clientes se
acomodem à vontade. A decoração, meio kistsch, com uma mistura de quadros,
livros e garrafas, conta histórias de um passado recente despertando
curiosidade e conversas sobre personalidades que fizeram parte da vida de Porto
Velho. O dono do bar, o Marcus Danin, é uma figura querida e controversa. Como
se trata de um amigo querido, para mim, não tem defeitos, mas, as pessoas o
comparam, uma má comparação diga-se de passagem, ao velho Guimarães, de famoso
bar da Carlos Gomes ou ao Bigode, que era também muito querido, contudo muito
mais intolerante, todavia a filosofia é a mesma: meu bar, minhas regras. Seja
como for o dono é atencioso até certo ponto e o bar é um reflexo dele: de sua
paixão pela vida, pelas festas, pela arte e também por suas regras. Bem existem
clientes que não se adaptam. Fazer o quê? Sob certos aspectos penso até que ele
tem suas razões. O bar jamais foi pensado como um negócio. Começou, de fato,
como um local para se ouvir música, o chorinho do seu Lito Casara, passou por
noites de MPB, de poesias, por comemorações históricas de aniversário, teve os
seus notáveis carnavais, com o menor circuito carnavalesco do mundo, suas
noites de dia dos namorados, dias de cardápios diferenciados como os risos e o
prazer que fizeram parte de sua história e quase foi à pique na pandemia.
Sobreviveu aos trancos e barrancos e, hoje, há uma clientela, que continua
diversificada, desde os intelectuais de sempre, que discutem política até
descobrirem que não há acordo possível, passando por futebol, literatura, casos
de amor e até insinuações fantasiosas sobre participantes da confraria ou
figuras da região. Lendas como a de que Ravel esteve em Guajará-Mirim ou Che
Guevara vendeu sua metralhadora em Porto Velho. O bar não é único apenas pelo
nome. Também o é por ser um refúgio das preocupações diárias, por proporcionar,
com os amigos e as bebidas, um clima onde as conversas fluem livremente e se
pode fugir das cadeias do politicamente correto com um palavrão sonoro ou dizer
uma poesia ou cantar mal sem causar muito espanto. Por todas essas coisas, e
muitas outras que a convivência nos permite encontrar, é que o Buraco do
Candiru se tornou uma parte da nossa vida e da nossa cidade. É um boteco sim.
Mas, não um boteco como tantos outros. Há nele um aspecto sensorial que
ultrapassa a compreensão de quem não sabe que beber faz parte da arte de viver.
E se vive mais e melhor com o Buraco do Candiru. Por isto, quando faz sete
anos, iremos brindar sete vezes ao nosso boteco. Viva o Buraco do Candiru!
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