Domingo, 1 de fevereiro de 2026 - 08h04

A
taxa oficial de desemprego no Brasil atingiu em 2025 o menor nível da série
histórica do IBGE. Mas por trás dos números celebrados pelo governo, cresce um
mercado de trabalho marcado por subemprego, informalidade e vagas de baixa
remuneração.
À
primeira vista, os indicadores divulgados pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) parecem motivo de comemoração. Segundo a Pnad
Contínua, a taxa de desemprego caiu para 5,1% no trimestre encerrado em
dezembro de 2025, o menor patamar desde o início da série, em 2012. O país
alcançou um recorde de 103 milhões de pessoas ocupadas e apenas 5,5 milhões em
busca de trabalho. Os números foram rapidamente apresentados como prova de um
mercado aquecido e de um cenário de “pleno emprego”. No entanto, uma análise
mais cuidadosa revela que a realidade é muito menos otimista.
Embora
seja verdade que a massa salarial média tenha crescido, este indicador precisa
ser interpretado com cautela. A população brasileira continua aumentando, e a
média muitas vezes mascara o fato de que grande parte dos novos postos de
trabalho oferece salários baixos e pouca estabilidade. Em outras palavras: há
mais gente trabalhando, mas não necessariamente em empregos de qualidade. Ao longo de 2025, a taxa média anual de
desemprego recuou de 6,6% para 5,6%, e o número de pessoas oficialmente
desocupadas caiu de 7,2 milhões para 6,2 milhões. À primeira vista, um avanço
expressivo. Porém, o próprio conceito de “ocupado” utilizado pelo IBGE ajuda a
inflar este resultado.
Hoje, o
Brasil apresenta uma das maiores taxas de subemprego entre as principais
economias do mundo. Cerca de 16% dos trabalhadores estão subocupados –
percentual muito superior ao dos Estados Unidos (8%) e do México (9%). São
milhões de pessoas que trabalham poucas horas, ganham menos do que o necessário
para sobreviver ou vivem de atividades informais e intermitentes. Outro fator
decisivo é o impacto dos programas sociais. Para as estatísticas oficiais,
beneficiários do Bolsa Família que não procuram emprego ou não se cadastram em
plataformas de vagas simplesmente deixam de ser considerados desempregados. Se
este contingente fosse incluído na conta, ao lado dos subocupados, a taxa real
de desemprego poderia chegar a 15,6% - o triplo do índice divulgado.
Há ainda
uma contradição central nos dados recentes. Entre 2024 e outubro de 2025, a
força de trabalho brasileira encolheu 2%, passando de 110,7 milhões para 108,5
milhões de pessoas. O número de ocupados também caiu, de 103,3 milhões para
102,6 milhões. Mesmo assim, o total de desempregados recuou 20%, de 7,4 milhões
para 5,9 milhões. A pergunta inevitável é: como o desemprego pode cair se
também há menos pessoas trabalhando? A resposta está justamente na combinação
de desânimo, informalidade e dependência de programas de transferência de
renda. Muitos brasileiros, sobretudo os menos qualificados, simplesmente deixam
de procurar emprego formal diante dos salários baixos oferecidos e acabam
optando por bicos ou pela assistência governamental. Com isto, saem das
estatísticas do desemprego sem que tenham, de fato, conquistado um trabalho
digno.
O
resultado é um mercado que parece forte apenas no papel. Estima-se que cerca de
40 milhões de brasileiros estejam hoje em ocupações precárias e informais, sem
proteção trabalhista e com renda instável. Os dados do emprego formal reforçam
essa leitura. Em 2025, foram criados cerca de 1,28 milhão de postos com
carteira assinada – o pior desempenho desde 2020, ano da pandemia. Em relação a
2024, a queda na geração de vagas formais variou entre 24% e 30%, dependendo do
critério adotado. Ou seja: o emprego que cresce é majoritariamente de baixa
qualidade, enquanto o trabalho formal perde fôlego.
Diante
desse quadro, economistas alertam para o risco de se comemorar cedo demais. O
Brasil vive uma espécie de “pleno emprego estatístico”, sustentado por
critérios metodológicos e pela expansão de programas sociais, mas não por uma
real melhoria estrutural do mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu, é
verdade. Mas para milhões de brasileiros, o emprego que surgiu não garante
renda suficiente, estabilidade ou perspectiva de futuro. E este é um indicador
que nenhuma estatística oficial consegue esconder.
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