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Silvio Persivo

A ilusão oficial: desemprego em queda numa economia que não vai tão bem quanto parece


A ilusão oficial: desemprego em queda numa economia que não vai tão bem quanto parece - Gente de Opinião

A taxa oficial de desemprego no Brasil atingiu em 2025 o menor nível da série histórica do IBGE. Mas por trás dos números celebrados pelo governo, cresce um mercado de trabalho marcado por subemprego, informalidade e vagas de baixa remuneração.

À primeira vista, os indicadores divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) parecem motivo de comemoração. Segundo a Pnad Contínua, a taxa de desemprego caiu para 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor patamar desde o início da série, em 2012. O país alcançou um recorde de 103 milhões de pessoas ocupadas e apenas 5,5 milhões em busca de trabalho. Os números foram rapidamente apresentados como prova de um mercado aquecido e de um cenário de “pleno emprego”. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que a realidade é muito menos otimista.

Embora seja verdade que a massa salarial média tenha crescido, este indicador precisa ser interpretado com cautela. A população brasileira continua aumentando, e a média muitas vezes mascara o fato de que grande parte dos novos postos de trabalho oferece salários baixos e pouca estabilidade. Em outras palavras: há mais gente trabalhando, mas não necessariamente em empregos de qualidade.  Ao longo de 2025, a taxa média anual de desemprego recuou de 6,6% para 5,6%, e o número de pessoas oficialmente desocupadas caiu de 7,2 milhões para 6,2 milhões. À primeira vista, um avanço expressivo. Porém, o próprio conceito de “ocupado” utilizado pelo IBGE ajuda a inflar este resultado.

Hoje, o Brasil apresenta uma das maiores taxas de subemprego entre as principais economias do mundo. Cerca de 16% dos trabalhadores estão subocupados – percentual muito superior ao dos Estados Unidos (8%) e do México (9%). São milhões de pessoas que trabalham poucas horas, ganham menos do que o necessário para sobreviver ou vivem de atividades informais e intermitentes. Outro fator decisivo é o impacto dos programas sociais. Para as estatísticas oficiais, beneficiários do Bolsa Família que não procuram emprego ou não se cadastram em plataformas de vagas simplesmente deixam de ser considerados desempregados. Se este contingente fosse incluído na conta, ao lado dos subocupados, a taxa real de desemprego poderia chegar a 15,6% - o triplo do índice divulgado.

Há ainda uma contradição central nos dados recentes. Entre 2024 e outubro de 2025, a força de trabalho brasileira encolheu 2%, passando de 110,7 milhões para 108,5 milhões de pessoas. O número de ocupados também caiu, de 103,3 milhões para 102,6 milhões. Mesmo assim, o total de desempregados recuou 20%, de 7,4 milhões para 5,9 milhões. A pergunta inevitável é: como o desemprego pode cair se também há menos pessoas trabalhando? A resposta está justamente na combinação de desânimo, informalidade e dependência de programas de transferência de renda. Muitos brasileiros, sobretudo os menos qualificados, simplesmente deixam de procurar emprego formal diante dos salários baixos oferecidos e acabam optando por bicos ou pela assistência governamental. Com isto, saem das estatísticas do desemprego sem que tenham, de fato, conquistado um trabalho digno.

O resultado é um mercado que parece forte apenas no papel. Estima-se que cerca de 40 milhões de brasileiros estejam hoje em ocupações precárias e informais, sem proteção trabalhista e com renda instável. Os dados do emprego formal reforçam essa leitura. Em 2025, foram criados cerca de 1,28 milhão de postos com carteira assinada – o pior desempenho desde 2020, ano da pandemia. Em relação a 2024, a queda na geração de vagas formais variou entre 24% e 30%, dependendo do critério adotado. Ou seja: o emprego que cresce é majoritariamente de baixa qualidade, enquanto o trabalho formal perde fôlego.

Diante desse quadro, economistas alertam para o risco de se comemorar cedo demais. O Brasil vive uma espécie de “pleno emprego estatístico”, sustentado por critérios metodológicos e pela expansão de programas sociais, mas não por uma real melhoria estrutural do mercado de trabalho. A taxa de desemprego caiu, é verdade. Mas para milhões de brasileiros, o emprego que surgiu não garante renda suficiente, estabilidade ou perspectiva de futuro. E este é um indicador que nenhuma estatística oficial consegue esconder.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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