Sábado, 30 de setembro de 2023 - 08h51

Por onde você começa quando tem de solucionar
algo? Não, não precisa ser necessariamente um problema. Qualquer coisa.
Digamos, sei lá, até para comer uma coxinha, tem de pensar: vai morder primeiro
a ponta? Parece mesmo que tudo na vida começa por alguma decisão – não é por
menos que vivemos tão cansados.
Vou por ali, por aqui, pelo meio, como chegar onde é
necessário. O tal primeiro passo. O exemplo da coxinha, daquele formato que
obriga a decidir por onde começar é só um deles, simplista, mas claro que a
gente está falando de coisas mais sérias. Tudo parece que abre estradas à
frente, à direita, à esquerda, ou mesmo ao recuo, voltando atrás.
Textos, como este, por exemplo, tem quem os comece pelo
título. Há os que primeiro escrevem tudo. Ruy Castro me disse uma vez que
sempre escolhe o título por último. Eu costumo pensá-lo antes, principalmente
quando formulo uma pergunta. Mas também posso mudar tudo, rever, sem problemas.
De qualquer forma, assim é a essência da liberdade, o poder mudar, inclusive no
meio do caminho. Um dia começar a coxinha pela ponta, outro pela parte
gordinha. Não resistir e quebrar a casquinha do sorvete por baixo, mesmo
sabendo que vai se melar e lambuzar inteiro.
Os começos são sempre horas de necessitar decisões. Sejam
eles começos de semana, de mês, como o que já chega agora, mais um desse ano
que parece estar correndo sob nossos pés como uma esteira em velocidade, ou de
ano que já se anuncia, o 24. Tenho ouvido falar de Carnaval, adiantando-se até
ao Noel. A movimentação eleitoral chacoalha cidades e poderes, começa até a
tomar providências, movimentando os atrasados, enchendo as ruas de obras
acumuladas, tudo para que a gente perceba o quanto querem permanecer, e como
são eficientes; aceleram só ali perto da hora da chegada.
Em todo momento de alguma forma estamos ou começando ou
pensando em começar algo, que também significa decidir. Desde o lado da cama
que dorme, se vai agora ou depois, se aceita ou nega, se lê ou apaga, se revida
ou não. Se busca alguma verdade que intui ou se deixa por isso mesmo. Tudo traz
consequências e que só serão mesmo conhecidas depois – como seria bom se tudo
pudesse ser planejado de verdade, como insistentemente nos fazem crer, que tudo
é linear, que se formos assim, assado, assim será.
Temos visto constantemente o quanto não é bem assim, e
invariavelmente nos pegamos perplexos por ter feito tudo direitinho, mordido
primeiro tudo o que precisava, e sermos colhidos de surpresa. Observamos,
então, o quanto a interdependência é cruel.
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação,
editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres.
E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon).
marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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