Sábado, 16 de agosto de 2025 - 08h02
Esta semana uma dessas da qual nem correndo
maratonas se conseguiria fugir foi “adultização”, entre as palavras que
dominaram a semana. Sim, teve outras, como corrupção, indignação, mas já
acabamos até acostumados com estas, tal frequência. Marteladas por dias, o
problema é que em geral logo algumas são esquecidas, postas de lado,
substituídas, e o que significam fica no vácuo, sem solução.
No caso, embora “adultização” já estivesse sendo há muito
sussurrada, denunciada, estudada, mostrada e até curtida e apoiada por um
desses absurdos das redes sociais, foi necessário que um influenciador, Felca,
com alguns milhões de seguidores, se colocasse em risco e denunciasse com
detalhes um outro influenciador, o tal Hytalo Santos, agora preso, com o seu
marido, ambos conhecidos por jogar dinheiro fora em sandices. O vídeo que Felca
publicou, praticamente com provas irrefutáveis, já alcança mais de 60 milhões
de visitas. E fez com que muitos traseiros, enfim, se mexessem em todos os
níveis, inclusive no Congresso Nacional, correndo agora para regularizar e
controlar a aparição e uso de imagens de crianças e adolescentes para atrair
cliques e monetização, a palavra dourada que vem criando e sustentando riquezas
e crimes. Os alertas aos pais, que parece só agora se darem conta dos perigos
aos quais eles próprios expõem seus filhos em imagens bonitinhas, se
multiplicaram. Fora a descoberta de quanta gente ganha muitos benefícios
achando que suas crianças são verdadeiros astros, que as sustentarão o resto de
suas vidas.
Tomara que ao menos esta palavra que agora tanto ouvimos e
as ações necessárias não sejam esquecidas e em vão. Que, aliás, a defesa dos
aproveitadores não venha com a cantilena muito em voga para justificar crimes
digitais de dizer que é liberdade de expressão, que tentam censurar seus
clientes. Já basta o que temos de aguentar na defesa de golpistas que agora
buscam apagar tudo que tanto falaram, publicaram, com rosto, voz e cara lavada
– e que obrigados ouvimos durante anos – como se nossas memórias pudessem ser
lavadas. Uma coisa é uma coisa. Censura é outra coisa, aliás bem terrível, pela
qual muitos de nós passamos e temos plena consciência do seu horror, mas também
e inclusive dos limites e responsabilidades da liberdade nesses tempos ditos
modernos.
Não, isso não é “problematização”, palavra monstrenga que
anda soltinha por aí. Inclusive me fez lembrar a importância fundamental de uma
obra de Monteiro Lobato na minha vida, desde a infância, quando a conheci:
Emília no País da Gramática, publicado pela primeira vez em 1934 e certamente
ainda atual. Meu apego principal ao livro que tanto me ensinou é ao Capítulo
21, onde os vícios de linguagem vão para a cadeia, presos em jaulas. Lembro que
a edição que li era ilustrada e eu achava legal ver aqueles monstrinhos atrás
das grades (*). O barbarismo, o solecismo, o cacófato, o hiato, o arcaísmo,
entre outros, como o neologismo e o provincianismo, esses dois últimos logo
libertados pela arteira boneca. “Se numa língua não houver Neologismos, essa
língua não aumenta”, defendeu Emília. Depois soltou “o pobre matuto” do
Provincianismo. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua.
“Vá passear, Seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora (Dona Sintaxe) condena
vai ser lei um dia. Foi você quem inventou o Você em vez de Tu e só isso quanto
não vale?” ... E assim o Provincianismo agarrou a trouxinha, o pito, o fumo e
as palhas e lá se foi fungando, esquecendo até de agradecer à sua salvadora.
O tempo passou e temos agora muitas outras palavras e atos
merecendo cadeia, e além da Gramática. Inclusive porque muitas são vícios, ah,
e inclusive de linguagem. Pleonasmos como “junto com” se espalham, formando
verdadeiras organizações criminosas, e na realidade bem além de letras unidas,
como PCC, CV, com nomes sugestivos de sua violência e origem, como “Bala na
Cara” (RS), “Bonde do Maluco” (BA),”Seita satânica” (SP), “Comboio do Cão”
(DF), entre as 64 facções infernizando o país identificadas em estudo recente.
Palavras, palavras, inclusive muitas que mudaram de língua
e andam precisando de uma Emília para trazê-las de volta, traduzidas, e que se
espalham sem dó - mainstream, woke, job, sale, muitas – e antes que comecem a
pagar tarifas aos americanos.
(*)...OBRAS COMPLETAS DE MONTEIRO LOBATO, EDITORA BRASILIENSE,
1966, ILUSTRAÇÕES DE ANDRÉ LE BLANC E J.U. CAMPOS
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de
comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom
para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na
Amazon). Vive em São Paulo. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
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