Sexta-feira, 26 de abril de 2024 - 11h58

Bagé, 26.04.2024
Bomba n° 20 – Rumo Sul (15.01.2016)
Mantive minha espartana rotina, acordei cedo, comi duas bananas ofertadas pelo Gilson e parti às 06h00 rumo à margem Oriental onde fiz a primeira parada às 09h35. O vento Norte soprava a uns 8 km/h, facilitando minha progressão rumo ao Sul. Parei, novamente, às 11h30, os ventos vindos agora de Oeste tinham diminuído de intensidade. Na Margem Oriental, ao Sul dos sinistros pinus ([1]), existem lindos banhados abrigando uma vegetação nativa diversificada, algumas delas em plena floração e ao fundo belas e alvas dunas que circundavam o Farol do Albardão. Comenta o Cel Pastl:
Acordamos às 06h30 e resolvemos esperar o Hiram. Tomamos café e, às 07h30, o Delmar Prithsc nos ligou, relatando que o Hiram voltara ao ponto anterior e lá dormira [“Bomba 20”]. Mandou que fôssemos para o final do pinus costeiro ao Sul, nas dunas. Zarpamos às 08h00, vento Norte fraco, todo o pano em cima. Às 11h00, apenas chegamos à ponta verde, fazendo uns 3 nós ([2]). Resolvemos motorar, pois o vento amainara demais.
O Mercury ([3]) nos levou à ponta Sul dos pinus às 13h37, e nada do Hiram por lá. Deduzimos que ele, chegando cedo ao local, resolvera prosseguir para o Sul, pela costa Leste. Seguimos nesse sentido, toda a tarde, de canícula. Apenas após o Farol do Albardão vimos um pequeno piquete de gado. Costa deserta. (PASTL)
Depois de costear a margem Oriental, atravessei a Lagoa para procurar abrigo na “Bomba 08” – margem Ocidental, local onde déramos início à nossa Circunavegação.
Aportei às 14h00, depois de remar 48 km durante 7 horas (8 km/h) com duas paradas de meia hora cada uma. Depois de aportar, fui procurar o Sr. Paulo Renato Fabra e Srª Rosane Fonseca (marcha de 2 km), precisava de fósforos e autorização para pernoitar em uma tapera abandonada junto à Bomba – disse-lhes que pretendia fazer uma pequena fogueira com lenha e esterco de gado em um dos aposentos da pequena casa, para aquecer o corpo na fria madrugada e espantar os mosquitos, e usaria juncos para fazer como colchão.
O Paulo e sua esposa Rosane insistiram para que eu pernoitasse na sua residência, e eu, comovido, aceitei. Fui até o caiaque (marcha de 2 km) tomar um bom banho e lavar minhas roupas, na volta, a meio caminho (marcha de 1 km), com as roupas já secas graças ao Sol abrasador, encontrei o Paulo que me apontou o veleiro “Corais”, deslocando-se para ao Sul um pouco ao Norte da Boca do levante Helena Rotta. Corri para o local de nosso primeiro acampamento (corrida de 1 km) e tentei sinalizar minha posição, do alto do levante, para os dois velejadores sacudindo a camiseta branca e usando o reflexo do leme de aço inoxidável do “Cabo Horn”.
Não tive sucesso na minha empreitada e acompanhei desolado seu deslocamento pela costa Oriental até aportarem mais adiante. Retornei à casa dos amigos e encontrei-os pescando o jantar, no levante Helena Rotta, (marcha de 2 km). Dona Rosane preparou um jantar variado com risoto de galinha, feijoada e, logicamente, o peixe recém-pescado. Comi muito bem, fiquei apenas no arroz e no feijão, não sobrou espaço físico para o peixe no meu estômago, que já estava preparado para passar o dia inteiro comendo castanhas. Narra o Cel PM Pastl:
Ao anoitecer, entrou um vento Sul, de rajada, e não tombou o barco porque o Criador não o quis. Acostamos e descemos até o anoitecer, ancorando às 21h00 em um pequeno bosque, ao Sul da mata sobre as dunas, visível do nosso ponto de origem na outra margem [levante Helena Rotta]. Montamos acampamento e conhecemos as formigas das dunas, cuja picada dói muito. Terríveis, entraram até no interior da caixa plástica de gelo. Fizemos massa com bacon, a tradicional salada de cebola e tomate e tomamos café. Voltei a ler “Caravanas”, e, às 23h00, me recolhi. (PASTL)
Bomba n° 08 – Rumo Sul e Norte (16.01.2016)
O Paulo me levou de carona na sua moto até a margem, e parti antes das 06h00. Aproei para as dunas onde meus parceiros tinham montado acampamento na noite anterior e, a meio percurso, por volta das oito horas, avistei o veleiro “Corais” zarpando.
Fiz uma única parada ao Sul da Lagoa, lá pelas 10h00, subi na duna mais alta e fiquei admirando, encantado, os bandos de Cisnes-de-pescoço-preto que oscilavam dolentes, como pêndulos encantados, ao sabor das ternas vagas, mordiscando as gigantescas algas (que se assemelham a sargaços) que infestam toda a extensão da alcalina Lagoa – uma cena primorosa projetada pelas mãos do Grande Arquiteto do Universo. Na margem oposta, os enormes geradores eólicos arrebataram-me de meus idílicos sonhos, trazendo-me de volta à realidade. Avistei, na margem Ocidental, os velejadores e aproei meu caiaque em sua direção. Aportei na “Bomba 08”, às 14h15, depois de navegar 52 km. Reporta o Cel PM Pastl:
Outro belo dia e nada do Hiram. Nenhuma mensagem de volta dos torpedos que enviara à noite. Zarpamos às 08h00, com brisa de SE, rumo Sul, calçados no motor, fazendo 7,2 km/h. Chegamos ao extremo Sul da Lagoa às 09h26, onde há um equipamento de hidrografia instalado [creio que verifica o nível da Lagoa]. Enorme planta de torres Eólicas no Sul, e uma “hacienda”. Avião agrícola trabalhando desde às 07h00, em toda a costa vimos quatro Ipanemas nestes dias. Gente diligente no trato da lavoura, essa de Santa Vitória do Palmar. Rumamos ao Norte, de volta à base, que é o oitavo levante. Chegando lá, às 13h09, nada do Hiram. Enviamos as tradicionais mensagens, e, às 14h00, avistamos o Hiram vindo, contornando a Ponta do juncal ao Sul. (PASTL)
Retorno a Porto Alegre (17.01.2016)
Missão cumprida, 216 km pela Lagoa Mangueira. Parceiros primorosos, gente amiga e paisagens singulares. As rígidas provas de resistência à que fui submetido no segundo dia de navegação (71 km – 13 horas de remo, 31 km com vento de proa), principalmente considerando que não me encontrava em boa forma física, comprovam, mais uma vez, a importância da preparação psicológica – quando o corpo fraqueja, a mente determinada assume o controle e sobrepuja qualquer desafio.
O teste de alcalinidade realizado com a água da Lagoa não foi conclusivo, o kit usado em piscinas marca um limite máximo para o PH de 8,2 – insuficiente para avaliar a alcalinidade da Mangueira que tem, em grande parte de sua extensão (metade Sul), um PH superior a 9,0.
O vento nestes quatro dias fez um giro de 360°, partimos com vento de SSE e concluímos com ele, como se o temível “Carpinteiro da Costa”, que já provocou tantos naufrágios na costa gaúcha, quisesse nos dar algum recado. Pretendemos futuramente retornar à região, via terrestre, para concluir nossas pesquisas no Taim, em Santa Vitória do Palmar, nos Concheiros da Praia do Hermenegildo e no Farol do Albardão. Conclui o Cel PM Pastl:
Bela navegada, apenas quente e o “susto” do rebojo no primeiro dia fizemos 9,0 a 10,8 km/h apenas com a genoa ([4]). Norbeto é companheiro de fé, bem como o Hiram, pois o calor estava danado. O local, um paraíso e rico, pois sua água é um tesouro. Muitas algas, certamente peixes, ninguém pescava [defeso], mas ao longo da costa Oeste vimos três embarcações e 9 botes parados na costa. Pena que não mais há manutenção e controle de nível entre a mangueira e a Mirim, como nos relatou o pai do Rafael [que nos tirou o Chevrolet Meriva acavalado na areia]. Bela reserva estratégica de água. Lindo local, bons amigos na Costa. (PASTL)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)E-mail: [email protected].
[1] Pinus: o reflorestamento criminoso com pinus provoca um sensível rebaixamento do lençol freático da Lagoa e inibe o desenvolvimento e crescimento de outros elementos da flora.
[2] 3 nós: 5,4 km/h.
[3] Mercury: motor de popa.
[4] Genoa: vela de proa que ultrapassa a linha do mastro, também conhecida como bujão ou bujarrona

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