Quarta-feira, 24 de abril de 2024 - 07h20

Bagé,
24.04.2024
Bomba
n° 20 – Taim – Bomba n° 20 (14.01.2016)
Antes de partir,
combinamos de nos encontrar para o almoço em um Pontal, próximo à Reserva do
Taim, no alinhamento do extremo Norte do bosque de pinus (32°49’35,4” S /
52°33’24,6” O), e parti enfrentando vento de proa (NE) durante todo o trajeto.
Descreve o Coronel Pastl:
Dia 14, acordamos às 05h45, com “patrulhas
de capivaras” no entorno do acampamento. Tomamos café, combinamos de nos
encontrar no Espigão Leste do Taim, na tangente da silvicultura [talhões da
costa] de pinus e zarpamos. (PASTL)
Acompanhei a costa
Ocidental, nos primeiros quinze quilômetros e, depois de avistar o ponto de
encontro, aproei rumo NE, enfrentando ondas de proa, evitando a entrada d’água
de Boreste, mantendo uma velocidade média de navegação de 4,8 km/h.
Aportei às 12h30,
depois de navegar 31 km em 06h30 sem parar, a um quilômetro ao Norte
(32°48’52,8” S /52°33’40,5” O) do local combinado para o almoço, numa tentativa
desesperada de encontrar meus parceiros. Desembarquei, comi algumas Castanhas
do Brasil (Castanha do Pará – Bertholletia excelsa), bebi meu “Frukito”, engoli três cápsulas de
guaraná e fiquei observando a maravilhosa avifauna da Reserva do Taim.
O Taim faz parte das
rotas migratórias de aves oriundas dos dois Hemisférios, concentrando, graças a
isso, uma das maiores diversidades de aves aquáticas do País. O grande
diferencial para mim, porém, foi constatar a grande quantidade de
Cisnes-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus) – o único e verdadeiro cisne
sul-americano. Nas minhas andanças pelos Mares de Dentro, até então, eu
encontrara apenas cinco espécimes e aqui na Mangueira encontrei bandos de
dezenas de indivíduos voando ou nadando. Alguns deles, assustados com minha
aproximação, grasnavam ruidosamente e levantavam voo com dificuldade, pedalando
n’água como o fazem os biguás.
Aguardei, preocupado
até as 13h06, e, como não avistasse o “Corais”,
concluí que meus parceiros estavam detidos por algum problema técnico. Resolvi,
então, retornar à “Bomba 20”. Relata
o Coronel Pastl:
Vento Norte [contra] fraco, e bordo e
bordo, chegamos seis vezes à costa Leste e voltávamos a Oeste, e após a última
ponta verde [salsos salientando-se em prainhas de juncal] no Leste, entramos na
última enseada e resolvemos investigá-la em busca do Hiram. Motoramos ([1]) e encalhamos em
sargaços – mar de sargaços. Vimos no meio do juncal na margem o caíque “Dori”
de algum pescador e uma indistinta placa na mata, branca [ilegível]. Outra na
ponta Norte do talhão. Às 19h19, chegamos no ponto acordado e nada, apenas
capivaras, muitas [já é o banhado do Taim]. Adentramos [pouco] ao banhado, até
às 19h45, e nada do Hiram. Acampamos no local tratado, na prainha com salsos.
Montamos barraca, fizemos fogo, jantamos arroz com bacon e tomamos café.
Enviei mensagens ao Hiram e à família.
Avistava-se o tráfego na BR-471, a aproximadamente uns 8 Km a Oeste,
nitidamente. Voltei a ler “Caravanas”, de James Albert Michener. Às 21h15, uma
capivara enorme veio nos visitar, farejando tudo. Chegou duas vezes até a uns
10 metros distante da gente. Sinal de que por aqui não se caçam. Dormimos ao
som da bicharada – assobios de capinchos, gritos de graxaim, etc – mas também
de veículos, pois se escutavam os mais barulhentos da rodovia. (PASTL)
Costeei a Margem
Oriental, por uns oito quilômetros, deduzindo que os velejadores, caso
estivessem a caminho, poderiam estar buscando a proteção dos ventos
proporcionada pelo mar de pinus ([2]) e fazendo uso do motor de
popa.
Cheguei à Salguinha
por volta das 14h30. Na vinda, tinha passado ao largo dela e agora tinha me
embrenhado neste verdadeiro labirinto com um único acesso a NE. Perdi quase
duas horas tentando achar, sem sucesso, uma saída pelo quadrante Oeste e Sul
até decidir retornar exatamente por onde entrara. Eu perdera um tempo precioso
e precisava picar a voga para chegar ao meu destino antes do anoitecer.
Os músculos
começavam a enrijecer, a coluna, que já sofrera três cirurgias, doía muito e
tive de aplicar um analgésico, que sempre carrego comigo para tais emergências.
Embora navegasse pelo meio da Lagoa, observando cuidadosamente, durante todo o
percurso, ambas as margens, não consegui avistar o “Corais”.
Aportei no Canal da
“Bomba 20” exatamente às 20h00, meia
hora antes do pôr-do-sol, depois de enfrentar uma remada matutina de 06h30, uma
navegação vespertina de 06h24, com uma única parada de 36 minutos – totalizando
12h54 de remo, perfazendo uma jornada de 13h30, sob um Sol abrasador e
concluindo um estafante percurso de 71 km.
Verifiquei, ao
entrar no canal da “Bomba 20”, que
minha equipe de apoio lá não estava. Uma vez que toda a minha tralha de
acampamento ‒ roupas secas e celular estavam a bordo do “Corais” fui pedir socorro ao Sr. Gilson César dos Santos da Silva
que havíamos conhecido no dia anterior. A esposa do Gilson preparou uma
saborosa e bem-vinda refeição quente, e o Gilson conseguiu-me roupas secas que
vesti após tomar um revigorante banho na Lagoa.
Como o Gilson não
conseguisse contato via celular com a equipe de apoio, repassou ao Sr. Delmar,
seu vizinho, notícias do meu paradeiro e quais eram minhas pretensões para o
dia seguinte. Depois de um longo e agradável bate-papo, de posse de um bom pelego
e cobertor, me acomodei no carro do novo amigo para pernoitar, pois era um
local seguro e protegido dos enxames de mosquitos que assolam a região. [...]
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura
do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola
Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)E-mail: [email protected].
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