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Hiram Reis e Silva

Sítio de Bagé - Parte VII - História, Fatos e Documentos


 Resultado do cerco numa das ruas de Bagé - Gente de Opinião
Resultado do cerco numa das ruas de Bagé

Bagé, 06.04.2020

 

Más ai! Los que partieron

Su pan de proscripción i de amargura,

Los que a luchar vinieron

I a la patria, con él, su sangre dieron;

Un brazo mercenario

Armar supieron en la noche oscura.

Aquí, en la sombra, vino

Su víctima a buscar el asesino;

I el héroe murió triste i solitario!...
(Guillermo Matta)

 

 

A Federação n° 43

Porto Alegre, RS ‒ Terça-Feira, 20.02.1894

 

História do Sítio de Bagé

Fatos e Documentos

 

 

Durante esse dia 23, a artilharia fez vários tiros magníficos, obtendo bons resultados. Ao mesmo tempo a fuzilaria respondia valentemente ao fogo do inimigo. À noite o inimigo repetiu o assalto da véspera, mas com menor intensidade, porque a artilharia conhecedora das suas posições, lhes infundia respeito.

 

Pela madrugada de 24 o fogo dos assaltantes tornou-se extremamente vivo.

 

Os defensores da praça, tanto os que cuidavam os muros, como os que guarneciam as trincheira; aproveitavam a passagem dos atacantes, que corriam, curvados de uma para outras ruas para desfecharem sobre eles descargas quase sempre coroadas de êxito.

 

A artilharia fez fogo sobre as melhores posições do inimigo, que foram abandonadas.

 

Algumas casas ficaram danificadas; o mercado público, a casa do Major João Pompílio Bueno, a do Tenente Juvenal de Mattos Freire, e outras.

 

Às 8 1/2 da manhã, por ordem do Coronel Telles, saíram da praça 4 seções de infantaria, afim de desalojar o inimigo das posições que ocupava.

 

Estas seções eram as seguintes: uma do 31° comandada pelo Alferes Paes Leme; outra do destacamento do Batalhão de Engenheiros, comandada pelo 2° Tenente Jorge Wiedmann, e 2 seções do 2° Batalhão da Brigada Militar do Estado, uma comandada pelo Capitão Bernardino Vaz da Costa e a outra pelo Alferes Amadeu Massot, tendo como auxiliares os Alferes Juvêncio Lemos e Francisco Varella, que foram ambos gravemente feridos.

 

O ataque ao mercado foi irresistível, fugindo o inimigo em todas as direções, espavorido e sofrendo um grande prejuízo.

 

A seção do 31° ocupou as trincheiras que o inimigo havia levantado junto ao ângulo do mercado que faz frente à rua 7 de Setembro.

 

Quando a nossa infantaria regressou para a praça os inimigos voltaram novamente às mesmas posições.

 

Pessoas de todos os sexos, idades e condições, que, afrontando o fogo da fuzilaria inimiga conseguiam chegar à praça, afirmaram unânimes que na parte da cidade ocupada pelo “Exército Libertador”, o saque era extraordinário e geral, tanto às casas de comércio como as de família eram arrombadas a machado e a coice de armas e a onda devastadora alastrava-se pelo seu interior, tudo destruindo; roupas, fazendas, gêneros, joias, móveis, tudo, tudo convinha aos maragatos, que quase completamente nós, ao chegarem aqui, tiveram ensejo de enroupar-se, apresentando alguns o mais bizarro e repugnante aspecto.

 

Uns punham à cabeça chapéus de mulher, faziam de saias brancas ponchos atados ao pescoço, enfeitavam-se com grinaldas de noiva e faziam chiripá de retalhos de vestidos de seda.

 

Parecia que um delírio infernal, que uma influência demoníaca se havia apoderado de todos aqueles monstros, cada qual empenhado em mostrar mais cinismo, mais descaro e maior crueldade.

 

E tudo entre gritos, risadas, insultos, tiros e um ruído desenfreado, para aumentar o terror que os seus atos vandálicos inspiravam.

 

A casa do Tenente Juvenal de Mattos Freire, cujos tiros mortíferos causaram os maiores prejuízos ao bando de salteadores, foi alvo do ódio que votavam ao valente e leal oficial; depois de a haverem arrombado e arrebatado dela tudo o que lhes convinha e podiam levar, destruíram a machado os móveis, espelhos, quadros e tudo o mais que nela havia, sem deixarem intacto um só objeto.

 

Igual procedimento tiveram na tipografia do “Quinze de Novembro”, folha a que consagravam especial rancor pela hombridade com que estigmatizou sempre os seus atos, e cujo redator procuravam com o maior empenho, para o trucidarem implacavelmente.

 

Este, porém, achava-se, conforme prometera, na praça em segurança, empunhando armas e defendendo dignamente a causa da honra e da liberdade da Pátria, e os bandidos despeitados vingaram-se, nas coisas, do ódio que tinham à pessoa.

 

A casa da família de Antenor Soares foi completamente destruída, inutilizados os móveis a bala e a machado; a roupa toda roubada, a louça quebrada, a biblioteca, de mais de 2.000 volumes, rasgada em parte atirada a um poço, a tipografia empastelada ([1]), a máquina de impressão quebrada a machado. Foi um prejuízo total, do qual nada pôde salvar-se.

 

Infinidade de outras casas, cujo número não é possível precisar, tiveram a mesma sorte; só se ouviam gemidos e lamentações, rostos consternados, faces cavadas pelo sofrimento, e no meio dos montões de destroços, pessoas da classe baixa do povo, cacheando febrilmente os despojos que os maragatos haviam desprezado.

 

O saque livre, prometido como recompensa aos mercenários pelos chefes da intitulada “revolução”, era a palavra de ordem e estava sendo cumprida com todo o possível desenvolvimento. Os bandidos saciavam os seus desejos, tomavam um fartão de roubo, e os chefes, maiores bandidos ainda, exultavam de gozo, tripudiavam de alegria por terem podido dar cumprimento à sua palavra “honrada”!

 

A orgia desenfreada do “Exército Libertador” era tristemente acompanhada pelo choro dolorido de uma criança que as balas assassinas feriram, dos prantos derramados pelas viúvas das vítimas degoladas traiçoeiramente, por um concerto de imprecações, soluços e lamentos, que há de atrair sobre suas cabeças toda a cólera celeste.

 

Os que ainda possam acreditar nos intuitos patrióticos, nas intenções nobilíssimas, no desejo de liberdade e de ordem tão pomposamente apregoados pelos pretensos revolucionários, examinem os fatos, analisem e admirem o espetáculo que eles prepararam, e imaginem o que seria da população rio-grandense, se a vitória coroasse os esforços dessa gente.

 

Como nos dariam, os bandidos, um governo honesto, moralizado, livre e cheio de patriotismo!

 

Depois de haverem talado ([2]) completamente os nossos campos, e prosseguindo em linha reta sua obra de destruição, vêm, para o triunfo completo de seus desejos, atacar as cidades e saqueá-las!

 

É deste modo que o Rio Grande há de ficar livre da tirania do “castilhismo”, e a República afastada do “despotismo” do Marechal Floriano!

 

Teríamos uma Pátria livre, governada por ladrões, incendiários e assassinos! Miseráveis bandidos!

 

A heroica resistência desses dias custou-nos, é verdade, ondas de sangue precioso, que veio vivificar as raízes da árvore da liberdade.

 

Morreram os seguintes oficiais, praças e paisanos:

 

4 oficias mortos e 10 feridos, sendo dos mortos 2 Capitães do Corpo Provisório de D. Pedrito: Orestes Confúcio de Bittencourt e Juvêncio Corrêa dos Santos, e os Alferes Bento Antonio de Souza, do 5° Regimento, e Vicente de Azevedo, do 31° Batalhão.

 

Os feridos são: 4 do 2° Batalhão da Reserva da Brigada Militar, Capitão Bernardino Carlos da Costa, Alferes Juvêncio Maximiliano Lemos, Francisco Varella e Antonio Raphael dos Santos, 1 Major, Raymundo Martins de Lemos e 1 Capitão, Gaudêncio Antunes Maciel, dos civis de D. Pedrito; o 1° Tenente Alfredo Pires, do 4° Regimento de Artilharia e o Coronel Carlos Telles Comandante da Guarnição, tendo sido contuso o Major Massot do 2° Batalhão.

 

Tivemos 37 praças mortas e 91 feridas.

 

O inimigo perdeu 400 homens.

 

Desertaram os seguintes oficiais e algumas praças, estas acossadas pela fome:

 

Tenentes Moreira Sobrinho, do 4°; Capitão Zeferino Moraes, do 5°; Tenente Camargo, do Corpo de Transporte; Alferes Bessa, do Corpo de Transporte; Tenente farmacêutico Corrêa de Brito; Major Cassão, comandante de civis; Major Heráclito e um oficial do corpo Cassão. [Continua] A FEDERAÇÃO N° 43.

 

 

 

 

Bibliografia:

 

A FEDERAÇÃO N° 43. História do Sítio de Bagé ‒ Brasil ‒ Porto Alegre, RS ‒ A Federação n° 43, 20.02.1894.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

·    Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·    Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·    Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·    Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·    Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·    Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·    Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·    Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·    Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·    Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·    Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·    Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·    Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·    E-mail: [email protected].



[1]   Empastelada: amontoados desordenadamente seus caracteres tipográfi­cos.

[2]   Talado: destruído.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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