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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Quero o Povo Comigo


Quero o Povo Comigo - Gente de Opinião

Bagé, RS, 31.12.2025

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 747, Rio de Janeiro, RJ


Sábado, 13.08.1966

 

Quero o Povo Comigo

 

O Marechal Costa e Silva, em Entrevista Exclusiva à Manchete

 

Costa e Silva: Sou candidato da Revolução. Continuarei os seus propósitos saneadores – contra a subversão e a corrupção –, o seu combate à inflação, a fim de que possamos prosseguir no desenvolvimento em termos realistas para assegurar um progresso constante.

 

Manchete: O Marechal Costa e Silva fala a Manchete no seu escritório eleitoral de Copacabana, onde comparece diariamente para atender aos seus inúmeros compromissos de candidato.

 

Costa e Silva: A minha condição de candidato à Presidência da República impõe a necessidade de manter contatos com todas as classes sociais. E os manterei também na qualidade de cidadão e de Soldado, ao qual coube a dura tarefa de conduzir o Exército Brasileiro durante o período de consolidação Revolucionária. Tenho buscado o entendimento em particular com estudantes e trabalhadores. A Revolução de 31 de março baniu falsos líderes estudantis e operários. As novas lideranças que estão sendo formadas encontrarão em mim um homem disposto a ouvir suas reivindicações. A renovação de valores e de mentalidade é essencial para o progresso do País.

 

Manchete: Os Atos Institucionais continuarão em seu Governo?

 

Costa e Silva: O fim dos Atos Institucionais está previsto para o dia 15 de março, quando se encerra o mandato do Presidente Castello Branco. Eles têm em vista situações excepcionalíssimas, pois havia necessidade de obstaculizar o processo subversivo em que o País fora mergulhado. São eles instrumentos transitórios. Tenho fundados motivos para esperar que, depois de 15 de março, não sejam mais necessários. Nesse dia, o País terá completado o seu ciclo de reintegração constitucional.

 

Manchete: Os Atos Institucionais tiveram seu endosso e apoio?

 

Costa e Silva: É claro. Na qualidade de membro do Comando Revolucionário, juntamente com o Brigadeiro Mello e o Almirante Rademaker, editamos o Ato Institucional n° 1 por imperiosa determinação dos acontecimentos e sob as mais nobres inspirações. Lembremo-nos sempre de uma verdade: não pode haver Governo digno desse nome que não ponha no primeiro plano das suas cogitações e de sua conduta a limpeza moral. Não basta evitar a corrupção passivamente. E preciso combatê-la, persegui-la e enxotá-la da vida pública. Isso farei em meu Governo com a máxima deter­minação. Infelizmente, ficou provado de maneira irrefutável que no Brasil os processos comuns de punir não punem. Quase sempre absolvem, quando não exaltam, recompensam ou galardoam.

 

Manchete: O candidato diz, em seguida, que:

 

Costa e Silva: Os detratores e os inimigos mais acirrados da Revolução de março são os saudosistas do estado de coisas que vigorava, anteriormente a ela, e os que aspiram a ser governados por aqueles que levaram o País à beira do caos e que lançaram, nas Forças Armadas, os germes da indisciplina e da subversão.

 

Manchete: Considera que o povo está ausente da eleição presidencial?

 

Costa e Silva: Não. Ele está presente através dos seus legítimos representantes e delegados no Congresso. Esses representantes têm poderes para reformar a Constituição, declarar guerra, votar as leis e o Orçamento. Entre esses poderes, inclui-se o de eleger o futuro Presidente da República. Alega-se que teremos um pleito indireto. Mas, no direto, o povo se limita a optar entre dois ou três candidatos escolhidos pelas direções partidárias. Num momento revolucionário e de exceção, o processo indireto é legítimo.

 

Manchete: O Marechal recebe todos os dias centenas de pessoas. As maiores queixas giram em torno da política econômica e financeira. Ele cuida de amortecer as irritações, reconhecendo que se tornou necessário e urgente impor sacrifícios não apenas aos empresários, mas também às classes populares e assalariadas. Será mantida a atual orientação econômico-financeira?

 

Costa e Silva: O combate perseverante e tenaz à inflação terá de prosseguir. Os resultados até agora obtidos e os que serão conseguidos dentro de mais algum tempo autorizam a esperança de que poderemos dentro de razoável prazo retomar o desenvolvimento econômico em bases de estabilidade. A conjuntura econômica, antes de março de 64, refletia os mais altos índices inflacionários em todo o mundo. A situação era o resultado de erros acumulados, de astúcia política, de manobras escusas, que exigiram um tratamento adequado a fim de evitar a degringolada e o caos. Hoje, estou em condições de garantir que minha plataforma de Governo terá como base e meta principal o homem, o homem como indivíduo, o homem como elemento social, e não como abstração ou simples figura de retórica.

 

Manchete: O Marechal considera a sua candidatura um fenômeno político. O simples fato de o candidato sair do Exército não quer dizer que a candidatura seja militarista. Afirma, no entanto, que as Forças Armadas unidas e coesas complementam a ação política para a plena consecução dos objetivos e ideais Revolucionários. E embora o pleito seja indireto, entende que é de seu dever realizar essas viagens aos Estados, nas mais diferentes regiões do País, a fim de entrar em contato direto com o povo e suas reivindicações.

 

Costa e Silva: Faço questão de que o povo se integre no processo de escolha do seu supremo mandatário, através de debates que contem com a minha presença, agora como candidato e posteriormente na condição de Presidente.

 

Manchete: Perguntado se considera certa a sua eleição, respondeu:

 

Costa e Silva: Sendo candidato do Partido majoritário como é a ARENA, não tenho a menor dúvida de que serei o vitorioso a 3 de outubro.

 

Manchete: Que acha das acusações segundo as quais a Revolução de 1964 implantou uma ditadura no Brasil?

 

Costa e Silva: Discordo frontalmente. A Revolução poderia ter instaurado essa ditadura. Poderia ter dissolvido o Congresso, as Assembleias Legislativas, o Judiciário. Possuía poderes inerentes à própria Força Revolucionária. Mas preferiu autolimitar-se. Preferiu também, por exemplo, respeitar a liberdade de imprensa, quando poderia muito bem ter impedido a circulação de alguns jornais ou ter imposto a censura. No entanto, ao contrário disto, aí estão os artigos, as entrevistas, as conferências, os discursos de ataques à Revolução. Esses ataques seriam possíveis se estivéssemos numa ditadura? Que aconteceria se a Revolução tivesse sido feita pelo outro lado, como foi tantas vezes anunciado? Teríamos simples Atos Institucionais e cassações ou teríamos paredões e fuzilamentos? É preciso que os críticos entendam que, afinal, há uma Revolução em marcha no Brasil e que uma Revolução, como o próprio sentido da palavra indica, é um fato que extravasa a formalidade política.

 

Manchete: Explica ainda que a Revolução de março foi eminentemente saneadora, pois sem ela o Brasil teria desaparecido como Nação soberana. Homens que jamais haviam cobiçado o Poder viram-se de uma hora para outra diante de um Poder que lhes era imposto como condição imperiosa para evitar a ditadura comunista. Reconhece que os sacrifícios tem sido grandes?

 

Costa e Silva: Não se realiza uma obra de profundidade sem sacrifícios. Houve sacrifícios individuais e eles continuarão a existir, enquanto não for restabelecido no País um “status” político e econômico de completa normalidade. Os remédios foram desagra­dáveis, mas temos suficiente maturidade para enfrentá-los com coragem e determinação.

 

Manchete: No exato momento em que concedia sua entrevista, o Marechal recebia a visita de um grupo de 20 membros da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria, que lhe foram levar os reclamos de sua classe contra o aumento do custo de vida, cujo fim o Governo prometera para o começo deste ano. Respondeu-lhe que fora realmente um erro de cálculo iniciar a contagem da recuperação em 1964, que foi o ano em que se começou a arrumar a casa. Mas tinha ele todas as razões para acreditar que até o final de 66 a cota de sacrifícios estará sensivelmente diminuída.

 

Costa e Silva: É preciso compreensão para entender que o pior já passou e coisas muito piores já foram evitadas, pelo Governo da Revolução. Mas precisa também ficar bem claro que reconheço os sofrimentos do povo, os sacrifícios do nosso povo, a penúria da sua vida de cada dia, e quero assegurar que o meu Governo não será, jamais, indiferente ao que há de penoso e sombrio dentro de cada lar. Tudo será feito para diminuir a sua aflição. Mas quero também contar com a sua confiança, a sua compreensão e a sua capacidade de abnegação para que possamos levar a cabo a imensa tarefa de tornar o Brasil melhor, mais rico e mais culto.

 

Manchete: No curso de sua entrevista, disse ainda o Marechal Costa e Silva.

 

Costa e Silva: Eleito pela ARENA, tudo farei para que ela continue a ser o grande Partido majoritário do Brasil e o sustentáculo de meu Governo, dentro das normas que orientam e presidem o sistema político-partidário. Haverá um clima para a pacificação nacional no dia em que a oposição aceitar a realidade revolucionária e integrar-se na ordem democrática que está sendo implantada no País. Não posso impedir ou proibir que uma parcela da oposição vote em mim e aceitarei esses votos sem qualquer compromisso que prejudique os meus deveres com a Revolução. O Presidente Castello Branco, encaminhando a solução do problema sucessório em vários Estados, tem tido a patriótica intenção de poupar o seu sucessor de um natural desgaste nesses entendimentos. Não posso ainda estar pensando em nomes, porque sou apenas candidato. Depois de eleito, começarei naturalmente a tratar do problema com grande atenção. Os integrantes do Governo serão escolhidos, em todo País, dentro de um critério, onde terão ênfase a capacidade de ação, as qualidades morais e os conhecimentos técnicos. Ninguém espere ver qualquer sentido militarista no meu Governo, que terá a tutelá-lo a égide da lei. Meu comportamento diante da oposição será pautado por sua conduta. Se ela for construtiva e patriótica, merecerá todo o meu respeito.

 

Manchete: Qual a sua opinião sobre os acontecimentos do Recife?

 

Costa e Silva: Sobre os últimos acontecimentos do Recife já me manifestei em várias entrevistas. O terrorismo real (e não o tão falado e indefinido terrorismo cultural) jamais alterará a rota a seguir pela Revolução. Somos homens de luta, e lutaremos até às últimas energias, para conquistar os objetivos colimados pela Revolução. Não tememos os inimigos do regime e da Pátria; estamos dispostos, a quaisquer sacrifícios, inclusive o da ppria vida. Os comunistas jamais prevalecerão neste País, enquanto houver homens verdadeiramente imbuídos de espírito revolucionário.

 

Manchete: Durante a entrevista acrescentou que tal atentado:

 

Costa e Silva: Covarde como todo o gesto anônimo, visando indiscriminadamente a terceiros, não se coaduna com a formação do homem brasileiro, e repugna aos espíritos, mesmo àqueles mais endurecidos pela luta da vida. Mas se coaduna e afina pelo diapasão comunista, revigorado pela recente “Conferência Tricontinental de Havana”, que enquadra a América Latina, nos objetivos revolucionários globais do extremismo internacional, incluindo nessa expressão o “comunismo da linha chinesa radical”.

 

Manchete: Lembrou que das resoluções dessa Conferência constam:

 

  O direito dos povos a obter sua libertação política, econômica e social, utilizando todos os recursos, inclusive o das armas;

  O apelo para o máximo de solidariedade com os povos latino-americanos que sofrem perseguição brutal sob tiranias militares, como no Brasil, Equador, etc.;

  A necessidade de apoio à causa do Vietnã, conclamamos os povos dos três continentes a “responder com a violência revolucionária”, a agressão dita imperialista.

 

Manchete: Disse, finalmente:

 

Costa e Silva: Penso que isto basta para caracterizar a violência já posta em prática, em obediência às ordens do imperialismo comunista, que busca o domínio do mundo. (REVISTA MANCHETE N° 747, 13.08.1966)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

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