Sexta-feira, 10 de abril de 2020 - 09h59

Bagé, 03.04.2020
A Federação n° 42
Porto Alegre, RS ‒
Segunda, 19.02.1894
História do Sítio de
Bagé
Fatos e Documentos
Mas antes disso, no dia 3, os Srs.
Cacildo Carrion, Antonio Nunes R. Magalhães, Henrique Fonyat e Antonio Vale,
encarregados dos consulados da República Oriental, Portugal, Itália e Espanha,
dirigiram ao Coronel Telles um pedido de concessão para que se retirassem da
cidade, ameaçada do sítio, as famílias dos seus súditos, sendo-lhes recusado o
que pediam e do que lavrou-se a presente ata:
Aos 3 dias do mês de dezembro de 1893, às duas horas
da tarde, na chancelaria do Cônsul da República Oriental do Uruguai, à rua 3 de
fevereiro n° 36, na cidade de Bagé, Estado do Rio Grande do Sul, reunidos os
abaixo-assinados:
Tenente-coronel Cassildo Carrion, Cônsul da República
do Estado Oriental do Uruguai;
Antônio Nunes Ribeiro Magalhães, Vice-cônsul de
Portugal;
Henrique Fonyat, Régio Agente Consular da Itália;
Antonio Vale, encarregado do vice-consulado da Espanha.
Em virtude de encontrar-se a cidade de Bagé, sitiada
por Forças Revolucionárias e prestes a ser atacada à viva força, segundo é voz pública,
os abaixo assinados, representando seus respectivos súditos, deliberaram
dirigir-se ao cidadão Coronel Carlos Maria da Silva Telles, comandante da
guarnição, pedindo-lhe o seu consentimento para que, antes do ataque, se
retirassem da cidade as famílias de seus súditos, que assim quisessem proceder,
o que efetivamente realizaram apresentando-se pessoalmente ao referido cidadão Coronel
Carlos Maria da Silva Telles, e manifestando-lhe o motivo que os levava à sua
presença.
Ouvidas pelo cidadão Coronel Carlos Maria da Silva
Telles as razões expostas pelo Tenente-coronel Cassildo Carrion, Cônsul Oriental,
foi pelo mesmo cidadão Coronel Carlos Maria da Silva Telles respondido: que não
dava licença que família alguma se retirasse da cidade, com exceção das dos
abaixo assinados que poderiam retirar-se quando julgassem conveniente, o que
agradeceram.
Em vista da contestação do cidadão Coronel Carlos
Maria da Silva Telles, os abaixo-assinados retiraram-se e protestando, em nome
de seus referidos governos, pelos danos o prejuízos que possam sofrer seus súditos,
tanto em suas vidas como em seus interesses, no caso de ataque à cidade e
bombardeio, resolveram também comunicar aos seus respectivos superiores todo o ocorrido,
lavrando-se em seguida a presente ata, que fica assinada, timbrada e arquivada
na chancelaria do Consulado Oriental do Uruguai e da qual foram extraídas quatro
cópias, enviando-se uma ao cidadão Coronel Carlos Maria da Silva Telles, comandante
da guarnição, acompanhada de ofício assinado pelo Tenente-coronel Cassildo
Carrion, cônsul da República do Estado Oriental do Uruguai, como decano do
corpo consular desta cidade, e uma a cada uma das chancelarias dos signatários.
Chancelaria da República Oriental do Uruguai, na
cidade de Bagé, 3 de dezembro de 1893. [Assinado] Cassildo Carrion, Cônsul Oriental;
Antonio Nunes Ribeiro Magalhães, vice-cônsul de Portugal; Henrique Fonyat, régio
agente consular de Itália; Antonio Vale, encarregado do vice-consulado de Espanha.
Está conforme o original ao qual me reporto.
[Assinado] Cassildo Carrion, Cônsul Oriental.
Confere. Octavio Carlos Pinto, Capitão.
Este protesto foi enviado com o seguinte
ofício explicativo ao Ministro e Secretário das Relações Exteriores:
Comando da Guarnição e Fronteira
de Bagé, 4 de dezembro de. 1893.
Ao cidadão Ministro e Secretário
das Relações Exteriores.
Remetendo-vos incluso o
protesto que me foi dirigido pelo corpo consular aqui residente, cumpre-me
informar-vos dos motivos que me levaram a não permitir a retirada dos súditos
estrangeiros e suas famílias desta cidade, que se acha sitiada por numerosas
forças revolucionárias compostas em grande parte de bandidos e estrangeiros mercenários
que não respeitam a honra das famílias, a propriedade e a vida de ninguém, o
que ficou ainda bem patente nos últimos combates travados no Rio Negro, onde
procederam a grande degolação em centenas de prisioneiros já rendidos, seguido
de desbragado saque, sendo que aos mesmos rendidos o fizeram apesar de terem
estes entregado as armas com a promessa e confiantes na palavra de honra dos chefes
revolucionários, que garantiam suas vidas e até mesmo a liberdade com a
condição de não se envolverem mais em revolução em prol do governo.
Estando como estão não só aqueles
estrangeiros, suas famílias, como toda a população respeitados, com todas as
garantias nesta cidade, e ainda mais sob a proteção de forte e moralizada
guarnição militar sob o meu comando, entendi que me ocorria o dever de não permitir
que se expusessem essas famílias a desonra e ao saque dos bandidos revolucionários,
que continuam sitiando a cidade, declarando e manifestando grande ganância ao
desenfreado saque e sanha de toda a ordem.
Saúde e fraternidade.
Carlos Maria da Silva
Telles, coronel.
No dia 9 de dezembro chegou da Charqueada
um próprio trazendo a seguinte carta ao Coronel Telles, escrita pelo médico
Carlos Laudares, Major cirurgião do Exército Libertador, em papel timbrado com
o símbolo da Cruz Vermelha e com os seguintes dizeres:
Corpo de Saúde
[o símbolo e por baixo]
Comissão de socorros aos feridos na guerra do Rio
Grande:
Exm° Sr. Coronel Carlos da Silva Telles, comandante da
guarnição.
Existindo entre os feridos em tratamento na ambulância
30 quase completamente nus, peço a V. Sª se digne consentir, que dessa praça me
sejam remetidos pelo Sr. Magalhães 30 mudas de roupa, conforme o pedido que
junto e que peço o obséquio de mandar entregar.
A ambulância tem atualmente 81 feridos, dos quais 25
pertencentes às Forças Revolucionárias e 56 das Forças Governistas e todos
seguem bem. Sou de V. Sª criado e obrigado.
Carlos Laudares, cirurgião chefe da cruz vermelha.
O Coronel Telles respondeu pela forma
seguinte:
Ilm° Sr. Dr. Carlos Laudares.
Bagé de 10 dezembro de 1893.
Recebi sua carta e sinto bastante não poder consentir
na saída das roupas que mandou pedir ao Sr. Magalhães. Quem não pode com o
tempo não inventa moda. Se não tem vestuários e o mais de que carecem os
feridos, mande-os para cá que nada lhes faltará. Não sei nem quero saber o que
quer dizer cruz vermelha e com certeza os feridos pertencentes às forças do
governo, dela não precisam.
A minha condescendência e generosidade não vão ao
ponto de mandar roupa para o inimigo. Os feridos a que acima me refiro estavam
perfeitamente vestidos e se não foram saqueados devem assim ainda estar.
Sou como sempre criado e obrigado
Carlos Telles.
No dia 9 de dezembro, o Coronel Carlos
Telles mandou imprimir e distribuir por toda a parte o seguinte aviso:
Comando da Guarnição e Fronteira de Bagé.
Por este Comando se declara que é permitido a todas as
famílias moradoras nesta cidade, quer brasileiras, quer estrangeiras,
retirarem-se para onde lhes aprouver, devendo antes de o fazer comparecer ao Quartel
do Comando da Guarnição, a fim de serem acompanhadas por oficiais de serviço
até fora dos piquetes.
Bagé, 9 de dezembro de 1893.
Carlos Telles, Coronel.
Nesse mesmo dia, seriam 4 horas e
1/4 da noite rompeu de todos os pontos da cidade onde se haviam entrincheirado
os maragatos um tiroteio vivíssimo contra a praça, cujos defensores correram imediatamente
a postos, soltando vivas e desafios com indescritível entusiasmo.
Todos unanimes, persuadiam-se que
era chegado o tão almejado momento da luta decisiva e preparavam-se para infligir
aos bandidos a mais severa e eficaz das lições.
Nessa noite iniciaram o seu sistema
de depredações, saqueando completamente as casas dos Srs. Francisco Torres
& Ciª, negociantes estrangeiros, situada no extremo da cidade em frente ao
velho quartel do 5° Regimento.
As portas foram arrombadas a machado
e o prejuízo elevou-se a mais de 40 contos.
Mas o inimigo conhecendo as vantagens
de nossa posição e a firmeza de nossa atitude preferiu conservar-se prudentemente
à distância, e limitou-se a tirotear-nos de longe todas as noites.
Quando o fogo era demasiado vivo,
alguns disparos de artilharia para os pontos mais impertinentes lhes moderavam
o entusiasmo e desalojavam de suas posições.
Assim passaram os dias, em troca
de balas de lado a lado, apesar de serem parcos em tiros os nossos soldados,
por ordem do Coronel Telles, até que no dia 15 pela manhã, havendo na praça
falta de gado e costumando os inimigos trazer rezes, como que para chamariz
para as faldas do cerro, resolveu o Coronel Telles arrebatar-lhes a isca que
nos mostravam. Duas Companhias do 2° Batalhão da Brigada Militar, sob o comando
do calmo e destemido Major Alfonso Massot, estenderam linha além do cemitério,
ao mesmo tempo que um piquete de cavalaria carregava impetuosamente,
apoderando-se de oito gordos bois, que os maragatos tiveram que abandonar, bem
contra a sua vontade.
Foi para a praça um dia de festas,
pois, há muito que não se comia carne fresca.
Nesse mesmo dia, à tarde, animados
pelo sucesso que haviam obtido de manhã, foram 40 praças do 31°, comandadas
pelos Alferes Paes Leme e Álvaro Lima, indo também nele, como curioso, o bravo Capitão
Corrêa, 6 homens de cavalaria sob o comando do Capitão Rodolpho dos Santos e
todos dirigidos habilmente pelo Tenente Marcos Telles, dirigiram-se para a chácara
do Dr. Vinhas, onde se achava entrincheirado e fazendo contínuo fogo um piquete
de 40 e tantos inimigos.
Não puderem resistir à violência e
inesperado do ataque, deixando 3 homens mortos e fugindo todos os outros na mais
desenfreada disparada, seminus e sem poderem transportar coisa alguma.
Nessa expedição foram tomadas 15
lanças, 40 e tantos pares de arreios, armas de fogo, munição, roupas, laços e
toda a cavalhada do piquete.
Durante muitos dias não se
atreveram a voltar e ocupar aquela posição.
Passados cinco dias, para que tomassem
fôlego, organizou-se outra expedição que foi operar na Boa Vista. 29 homens de cavalaria,
armados unicamente de lança e sob o comando do valente Major Cândido Bueno,
fizeram uma brilhante carga sobre um piquete de 11 maragatos, dos quais 6
ficaram mortos, escapando-se os 5 restantes.
Dos nossos ficaram levemente
feridos o Major Bueno, o comandante da guarda aduaneira João Vieira do Amaral
Charão e o Soldado de nome Leopoldo.
Finalmente, na noite de 22 de dezembro
foi que os inimigos da Pátria e da República iniciaram seriamente o ataque há
muito tempo premeditado sobre a bela e futurosa cidade de Bagé.
Depois de encarniçado combate sustentado
com toda a galhardia pelo piquete que se achava no mercado público comandado
pelo Capitão Frederico Jardim, os inimigos apoderaram-se daquele edifício, onde
prorromperam em gritos e insultos contra vários membros do Partido Republicano.
O piquete retirou-se para a praça
em boa ordem, tendo perdido 14 homens, uns feridos e outros prisioneiros, que
no dia seguinte foram degolados e dois queimados vivos, entre os quais o Sargento
Tibúrcio da Rosa, tendo sido também numerosas as perdas do inimigo.
Às 11 horas e um quarto rompeu vivíssimo
fogo para o interior da praça, onde, no cumprimento de seu dever, se havia
entrincheirado a sua heroica guarnição, nobremente disposta a vencer ou sucumbir,
defendendo o governo legítimo contra o qual investem perversamente os sanguinários
empreiteiros do 3° Reinado, aliados aos falsos apóstolos da ideia republicana. [Continua]
(A FEDERAÇÃO N° 42)
Bibliografia:
A FEDERAÇÃO
N° 42. História do Sítio de Bagé ‒
Brasil ‒ Porto Alegre, RS ‒ A Federação n° 42, 19.02.1894.
Solicito Publicação
(*) Hiram
Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas,
Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
·
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989)
·
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
·
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura
do Exército (DECEx);
·
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS);
·
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS)
·
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
·
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
·
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
·
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO)
·
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
·
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS)
·
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra (ADESG).
·
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
·
E-mail: [email protected].

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