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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Sítio de Bagé - Parte IV - História, Fatos e Documentos


Sítio de Bagé - Parte IV - História, Fatos e Documentos - Gente de Opinião

Bagé, 30.03.2020

 

Hino da Proclamação da República

(Medeiros e Albuquerque)

 

Do Ipiranga é preciso que o brado

Seja um grito soberbo de fé!

O Brasil já surgiu libertado,

Sobre as púrpuras régias de pé.

Eia, pois, brasileiros avante!

Verdes louros colhamos louçãos!

Seja o nosso País triunfante,

Livre terra de livres irmãos!

 

 

A Federação n° 40

Porto Alegre, RS ‒ Sexta, 16.02.1894

 

 

História do Sítio de Bagé

Fatos e Documentos

 

 

 

Vejamos o que nesta cidade se passava.

 

No dia 30 de novembro, continuaram a chegar aqui fugitivos e dispersados, aliás em pequeno número, que confirmaram as notícias que precedentemente acabamos de dar e dissiparam até a última dúvida que pudesse porventura existir ainda sobre a veracidade da catástrofe.

 

O dia 1° de dezembro, foi assinalado por um fato que seria cômico se não fosse tristíssimo e que veio mais uma vez descobrir um rosto oculto há muito tempo pela máscara da hipocrisia.

 

O vigário desta paróquia, Cônego João Ignácio de Bittencourt, sacerdote a quem a população desta cidade cumulou sempre dos maiores favores dispensando-lhe uma consideração e um respeito talvez imerecidos, pagou a sua dívida de gratidão, escrevendo ao Coronel Carlos Telles a insidiosa e hipócrita carta seguinte, na qual transparecem os seus refalsados sentimentos de rancor político encarniçado, sob uma capa mentirosa de mansuetude, comiseração e amor à humanidade.

 

Eis a carta do Sr. Vigário: 

 

 

Vista Alegre, 1° de dezembro de 1893.

 

Prezadíssimo amigo Coronel Telles.

 

Acho-me aqui junto à cidade e, a par de todos os acontecimentos, tomei a deliberação de lhe escrever e dar-lhe todas as informações sinceras e verdadeiras, porque sou seu verdadeiro amigo.

 

General Izidoro, como deve saber, rendeu-se com todas as forças. General Tavares está forte e tem elementos para tomar Bagé à viva força; posso lhe garantir que ele tem mais de quatro mil homens e estes bem armados e bem dispostos.

 

À vista da resolução em que está toda esta gente vai ser um horror e o amigo como soldado honrado e brioso e que tem sido sempre o amparo deste povo, que o ama como a um bom pai, porque o seu procedimento aí é conhecido por todos, não se deixando levar por gente ruim, portando-se sempre com justiça e cavalheirismo, não pode deixar de ser o mesmo Coronel Telles na ocasião do eminente perigo.

 

Coronel, lembre-se que essa praça tomada a viva força, não se poderá evitar grandes e lamentáveis desgraças e essas incalculáveis. E sendo cala tomada por outro modo, se Poderá conter a tropa e nenhuma desgraça haverá. Afinal de contas o amigo, a meu ver, não terá responsabilidade alguma, e pelo contrário, será louvado o seu procedimento porque vai salvar essa população que o amigo sempre considerou.

 

E depois desiluda-se o amigo que Castilhos não tem feito mais de que arruinar o Estado com mentiras porque ele nunca teve popularidade, encaixado no governo com o auxílio do exército, pois ao contrário não teria um homem por si. Esta é que é verdade. Teve a habilidade de iludir a Floriano a ponto de causar a ruína de todo o Brasil.

 

Não se iluda, Coronel, eles não lhe dizem a verdade, creia que as forças federais estão fortes por toda a parte, convença-se que Castilhos é um verdadeiro déspota.

 

Esta carta não é parlamentar porque ninguém me pediu que a fizesse, é apenas filha do meu coração, e porque confio em sua amizade. Em nome de meus paroquianos, peço-lhe, com os olhos arrasados de lagrimas, que não deixe essa população sofrer. Coronel, o seu nome está gravado no coração dessa população, portanto não o retire.

 

Lembranças do major Borba que aqui está comigo, pois viemos para ver se podemos evitar desgraças.

 

Seu amigo “ex-corde”, Cônego Bittencourt. 

 

O Sr. Coronel Telles respondeu a essa missiva pela seguinte enérgica e digna forma: 

 

Caro amigo Cônego Bittencourt.

 

Saúde e mil felicidades. Recebi sua espontânea carta e agradeço-lhe as intenções que manifesta a meu respeito e a este povo que sempre muito lhe mereceu. Nunca promovi infelicidade a ninguém absolutamente, quanto mais a uma população que eu estimo de coração. A desgraça que eu vejo iminente e que não posso evitar é trazida por outros; portanto a minha consciência está e estará tranquila.

 

Já tive conhecimento do desastre do General Izidoro, que não foi bastante precavido na frente do inimigo. Eu, porém, tenho elementos para resistir e vencer.

 

O amigo bem me conhece e sabe que o meu único dever, como homem, como brasileiro e como soldado do Exército é resistir, resistir e sempre resistir. O Brazil inteiro, o Exército que me tem em seu seio sem mancha até hoje e a minha família, têm os olhos fitos em mim e eu tenho de salvar a honra do Exército.

 

Se morrer na luta, será isso uma felicidade para mim porque, como sabe, eu sou um sentenciado a poucos dias de vida: o meu aneurisma assim mo diz.

 

Aqui fico ao seu dispor, por ser seu amigo velho obrigadíssimo.

 

Carlos Telles.

 

Bagé, 1° de dezembro de 1893. 

 

Nesse mesmo dia o Sr. Coronel Carlos Telles, comovido pela sorte dos soldados feridos do 28° Batalhão e forças civis, enviou à Charqueada uma Comissão composta dos Drs. Pedro Luiz Osório e Veríssimo Dias de Castro e farmacêutico Amado Loureiro de Souza, afim de conseguirem dos chefes do Exército, Federal a vinda para esta cidade dos feridos para receberem aqui o conveniente tratamento.

 

Os dois últimos membros da Comissão regressaram no dia subsequente, 2 de dezembro, trazendo a seguinte carta do Dr. Pedro Osório ao Coronel Telles: 

 

Sr. Coronel Carlos Telles.

 

Vi a coluna federal que se aproxima dessa praça, sob minha honra garanto-lhe que ela compõe-se de 5 mil e tantos homens muito bem armados; além de cem mil a cento e cinquenta mil cartuchos que o Marechal Izidoro entregou aos federais, só a coluna de Cabeda tem outros tantos cartuchos.

 

O meu dever como homem humanitário, como brasileiro e como amigo particular da família Telles é dizer-lhe que toda a resistência é inútil, que o sacrifício de mais vidas me parece um ato inglório e que, diante do impossível o brio do homem fica intacto, mesmo quando depõe as armas.

 

Não é um conselho que dou ao amigo; exponho meu parecer, julgando cumprir um dever sagrado.

 

Dr. Pedro Osório. 

 

O coronel Telles escreveu a seguinte lacônica resposta e ia enviá-la quando se apresentou o mesmo Dr. Osório na Guarnição pedindo-lhe mil desculpas por haver escrito tão inconveniente carta e alegando o estado de agitação em que ficara o seu espírito ao presenciar os horrores que se haviam passado no Rio Negro: 

 

Sr. Dr. Pedro Osório.

Recebi sua carta. Como sabe eu tenho gente para quinze mil homens, e portanto os seus cinco mil são poucos. Arranje mais e volte.

 

Carlos Telles, Coronel. 

 

O Coronel Telles, depois de o contemplar longamente em silêncio, respondeu-lhe que não somente lhe desculpava aquela leviandade, como qualquer outra que porventura viesse a cometer, simplesmente pelo fato de pertencer à família Osório.

 

Na mesma ocasião propôs o Dr. Pedro Osório ao Coronel Telles, e em nome do General Tavares, uma conferência, marcando-se hora e lugar para a mesma. Como, porém, o General Tavares não comparecesse, por não ter sido avisado com tempo, o Coronel Telles dela desistiu, não só por entender que os inimigos não eram dignos de uma tal prova de confiança, como também porque coisa alguma tinha a propor-lhes, [Continua] [A FEDERAÇÃO N° 40]

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

A FEDERAÇÃO N° 40. História do Sítio de Bagé ‒ Brasil ‒ Porto Alegre, RS ‒ A Federação n° 40, 16.02.1894.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

·    Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·    Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·    Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·    Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·    Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·    Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·    Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·    Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·    Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·    Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·    Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·    Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·    Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: [email protected]

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