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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Retorno ao Roosevelt (2019) - 2ª Parte


Retorno ao Roosevelt (2019) - 2ª Parte - Gente de Opinião

Bagé, RS, 09.01.2020

 

Entrevista com João “Brabo

 

Em Cacoal, por volta das 17 horas do dia 21 de setembro, como já tínhamos combinado no nosso primeiro encontro com o Cacique João “Brabo”, nos deslocamos até sua residência para uma entrevista.

 

O Dr. Marc demonstrou preocupação com minha conduta durante a entrevista, disse a ele que não se preocupasse, nas minhas descidas já havia entrevistado Comandantes Militares de Área (Gen Heleno e Gen Villas Bôas), Comandantes de Brigada (Gen Paulo Sérgio e Poti), Comandantes da PM de todos os níveis, inúmeros Prefeitos, líderes comunitários nativos e não-índios... Não ia ser agora que eu ia me desviar de minha meticulosa rotina. Marcelo Cinta-Larga filho de João “Brabo” traduziu a entrevista concedida por seu pai:

 

Marcelo: Ele está dizendo que antigamente, antes de ter contato com homem branco, ele vivia no meio do mato, não sabia que existia homem branco, até pensava que homem branco era bicho, e não tinha ideia de que os homens brancos queriam amansar os índios até porque eles fugiam dos homens brancos.

Quando começaram a observar, mais de perto, os homens brancos, eles comentavam entre eles pra saber que bicho era aquele tão semelhante a eles, mas bem mais peludo. Tomaram conhecimento do ho­mem branco quando eles começaram a deixar fa­cão, panela e os índios foram então se aproximando para ver o que era aquilo e foram pegando estes materiais e assim foram estabelecendo os primeiros contatos com os homens brancos e foram sendo amansados aos poucos.

 

Em 1971, que eles amansaram mais ainda em decorrência do contato com a FUNAI, garimpeiros e seringueiros que cada vez mais se aproximavam deles, foi desta maneira que tiveram os primeiros contatos com o homem branco.

 

Nessa época que ele ficava isolado no meio do mato não tinham doenças contagiosas. Ficar no meio do mato isolado era melhor, eles tinham, na época, mais saúde, mais força. Ele disse que não acreditava no que seus pais diziam que ia acontecer quando os homens brancos entrassem na terra deles para amansar, querendo, na realidade, algo da terra de­les, foi assim então que ele teve os primeiros conta­tos com os homens brancos. (Marcelo)

 

Hiram: Eu queria que o Cacique João “Brabo” con­tasse algo de sua origem suas experiências de vida como criança. (Hiram)

 

Marcelo: Ele está dizendo que nasceu em Juína, no meio de um cemitério, muitos de seus parentes ti­nham sido mortos em guerras intertribais e que não sabia que aquele local seria, mais tarde, o Mato Grosso. Teve uma infância muito difícil, em que che­gou a ter de comer argila. Somente a mãe cuidava dele porque o pai se encontrava constantemente em guerra. O pai dele escolheu-o, ainda pequeno, como Cacique, e ele teve de iniciar seu treinamento muito cedo e com dez anos ele já estava bem adestrado.

 

O treinamento era muito rígido, o pai dele atirava flechas nele para que ele se desviasse delas. Ele e mais dois estavam sendo submetidos ao mesmo trei­namento e ele foi o único sobrevivente e, por isso mesmo, foi escolhido pelo pai para a liderança desde criança. Por isso ele é o líder até hoje, naquela época o sobrevivente era aclamado líder.

 

Ele diz que agora as coisas são mais fáceis, na época dele para ser líder, tinha de caçar jacaré, cobras venenosas, permanecer um dia inteiro dentro d’água numa cachoeira do Rio para amadurecer mais rápido. Naquela época de conflito os perdedores serviam de repasto aos vencedores e é por isso que ele é até hoje um líder que não foi escolhido apenas por ser um guerreiro, mas porque todos respeitavam o pai dele que o indicara como líder e aqui está ele até hoje para cuidar de seu povo. Ele disse que naquela época não tinha ideia que ao encontrar homem branco tudo isso aconteceria, ele não acreditava, naquela época, que o presságio vaticinado por seus pais era tão verdadeiro, senão ele teria preferido ficar no meio do mato. (Marcelo)

 

Hiram: A mídia se refere a um grande extermínio dos Cinta-Larga, conhecido como Paralelo 11, gosta­ria que o Cacique fizesse um relato deste aconteci­mento. (Hiram)

 

Massacre do Paralelo 11° (1963)

 

Esses índios são parasitas, são vergonhosos. É hora de acabar com eles, é hora de eliminar essas pragas. Vamos liquidar esses vagabundos. (Antonio Mascarenhas Junqueira)

 

Farei uma breve interrupção na nossa entrevista para, engarupados na memória, voltarmos os olhos para o passado e relembrarmos este terrível massacre promovido pelo empresário Antonio Mascarenhas Junqueira chefe da empresa de extração de borracha Arruda, Junqueira & Cia Ltdª, nos idos de 1963, em que foram mortos, com requintes de crueldade, trinta Cinta-Larga. Este Massacre aconteceu nas cabeceiras do Rio Aripuanã (MT) onde a empresa de Antonio Mascarenhas planejava explorar a seringa e por isso resolveu remover a força os Cinta-Larga da área.

 

Uma aeronave lançou dinamite sobre a aldeia destruindo-a e logo depois, homens armados com me­tralhadoras atacaram a aldeia com ordem de eliminar os sobreviventes. Um dos assassinos tirou um bebê da mãe que o amamentava, deu um tiro na cabeça da criança e penduraram a mãe de cabeça para baixo e a cortaram ao meio. Neste ataque, 30 (há uma discre­pância numérica nos relatórios) Cinta-Larga foram trucidados e somente dois ou três teriam sobrevivido. No julgamento de um dos acusados, o juiz afirmou:

 

Nunca ouvimos um caso em que havia tanta violên­cia, tanta ignomínia, egoísmo e selvageria e tão pou­ca apreciação da vida humana.

 

Detalhes do massacre foram incluídos no “Rela­tório Figueiredo” de 1967, que resultou na extinção do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e a criação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI).

 

Jornal do Brasil, n° 22 – Rio, RJ

Domingo e Segunda-feira, 05 e 06.05.1968

Todos os Meios Foram Lícitos
Para Liquidar os Índios

² Departamento de Pesquisa ²

 

Nunca vi tanta corrupção na minha vida!

 

Esta exclamação do Ministro do Interior, General Afonso de Albuquerque Lima, retrata a indignação da opinião pública do Brasil e de vários países do mundo quando foram revelados os últimos vinte anos de massacre, assassinatos, escravidão, lenocínio e rou­bo sofridos pelas nações índias em nosso País.

 

Do roubo ao estupro, da grilagem ao assassinato, do suborno às torturas medievais, passando pelo lenocínio ([1]), pelos desregramentos e taras sexu­ais, por todos os crimes contra a administração pública, tudo se cometeu contra a lei e contra a moral.

 

Afirmou o Presidente da Comissão de Inquérito, Procurador Jader de Figueiredo Correia.

 

A Devassa

 

Para chegar a essas conclusões, os membros da Comissão de Inquérito do Ministério do Interior viajaram 58 dias, por 15 Estados e 3 Territórios, per­correndo 15 mil quilômetros, interrogaram dezenas de testemunhas e apreenderam centenas de documentos. Durante as investigações, a Comissão afastou 200 servidores do extinto Serviço de Proteção aos Índios e indiciou 134 outros, entre os quais dois ex-Minis­tros de Estado, dois Generais, um Tenente-Coronel e dois Majores. Destes acusados, 17 já sofreram pri­sões administrativas e 38 foram dispensados a bem do serviço público. Anteriormente, em 1964, uma Comissão Parlamentar de Inquérito instalada na Câmara Federal apurara, superficialmente, denúncias de Padres Salesianos so­bre matanças de índios nos anos de 1962 e 1963, nas jurisdições das 1ª, 5ª e 6ª Inspetorias [a pri­meira no Amazonas e as duas últimas em Mato Grosso]. Os resultados dessa CPI foram enviados ao Chefe da Casa Civil da Presidência da República em 1967, e dali encaminhados ao Ministério do Interior, onde foram transformados no Inquérito Administra­tivo n° 154-67.

 

Mais Poderes para Apurar

 

Esse primeiro inquérito administrativo constatou “a geral corrupção e a anarquia total imperantes no Serviço de Proteção aos Índios em toda a sua Área, como, também, através dos tempos”. Em conse­quência deste relatório, o Presidente da República enviou mensagem ao Congresso Nacional criando a Fundação Nacional do Índio, que absorveria o Serviço de Proteção aos Índios, o Parque Nacional do Xingu e o Conselho Nacional de Proteção ao Índio. Aprovado pelo Congresso em menos de dois meses, foi sancionado em dezembro último pelo Presidente da República ([2]).

 

Mas enquanto o projeto que criava a Fundação tramitava no Congresso, a 3 de novembro do ano passado, o Ministério do Interior expedia a Portaria 239.67, instaurando uma segunda Comissão de In­quérito, com amplos poderes e sem limite de juris­dição, para “produzir prova testemunhal e documen­tal” dos fatos relatados pela primeira Comissão e de outras denúncias que surgissem.

 

Os Fatos e as Provas

 

Coube a essa Comissão, presidida pelo Procurador Jader de Figueiredo Correia, o levantamento mais completo, com “prova testemunhal e documental”, sobre os massacres de índios e as irregularidades no extinto Serviço de Proteção aos Índios [SPI]. As causas principais do quase extermínio das populações indígenas do Brasil, segundo a Comissão, são a apropriação de suas ricas terras [minérios, madeira, plantações e gado] e uma política errada de integração na sociedade civilizada.

 

Entre os crimes cometidos contra os Indígenas, o massacre dos Cinta-Larga, em 1963, no Paralelo 11° de Mato Grosso, foi um dos mais selvagens de que teve notícia o País.

 

Como foi

 

A chacina dos Cinta-Larga, conforme depoimentos gravados e assinados em Cuiabá, na 6ª Inspetoria do ex-SPI, pelo Inspetor Ramis Bucair, foi ordenada por Antônio Mascarenhas Junqueira, cujo sócio é Sebastião Palma Arruda, irmão do ex-Prefeito de Cuiabá e ex-Presidente do Banco da Amazônia. A firma dos dois, uma dos mais ricas do Estado, chama-se Arruda e Junqueira. A história dessa matança só veio a público porque o pistoleiro Ataíde Pereira dos Santos, um dos homens, do grupo de matadores, não recebeu os NCr$ 50,00 prometidos pela empresa. Ataíde confessou que apenas matou o chefe dos Cinta-Larga, com um tiro de mosquetão no peito, e que os outros foram metralhados e retalha­dos a facão por Francisco Luís, vulgo Chico Luís, o chefe do bando, e pelos outros membros da expe­dição. Ataíde afirmou que viu Chico Luís matar uma criança com um tiro de 45 na testa e depois pendu­rar pelos pés a mãe da criança a uma árvore e a retalhar a facão, quase de um só golpe, o seu corpo. Em seguida, atearam fogo a todas as malocas e jogaram os corpos dos índios mortos no Rio Aripuanã. Nenhum índio teve tempo de usar suas armas [arco e flecha] e só dois ou três conseguiram escapar, embrenhando-se no mato.

 

Formas de Extermínio

 

Além dos massacres, por pistoleiros, profissionais contratados, os fazendeiros, seringalistas e funcioná­rios do extinto SPI usavam as seguintes formas para dizimar as tribos índias: privação dos meios de sub­sistência, expulsão dos índios de suas terras e intro­dução sistemática e em escala sempre crescente de vícios e doenças.

 

Foi assim com os Maxacalis, que vivem em três al­deamentos ao Nordeste de Minas Gerais ‒ Pradinhos, Micael e Água Boa, regiões ricas em gado, terra e minérios. Para acabar com os 300 índios remanes­centes que ali se encontravam, os fazendeiros e mineradores, em conluio com os agentes do ex-SPI, distribuíram aguardente fartamente e contrataram pistoleiros. A bebida fazia com que lutassem entre si, aqueles que não tivessem sido atingidos pelas balas dos bandoleiros ou pelas epidemias.

 

Os índios chegaram a tal ponto de embriaguez que trocavam, satisfeitos, um saco de feijão por uma garrafa de cachaça. Em outubro do ano passado, graças ao Capitão Manuel dos Santas Pinheiro, do Policiamento Rural da Polícia Militar de Minas Gerais, os Maxacalis voltaram a uma vida normal.

 

Arsênico e Formicida

 

Para matar os integrantes da tribo dos Beiço-de-Pau, de Mato Grosso, contou o chefe da 6ª Inspetoria, Ramis Bucair que os seringalistas formaram uma ex­pedição e subiram o Rio Arinos, levando presentes, miçangas e colares, e grande quantidade de comida para os índios. Na viagem, os gêneros se estragaram e apenas o saco de açúcar ficou intacto. A este açúcar, os seringalistas adicionaram arsênico e formicida, distribuindo-os aos índios. Na manhã seguinte, muitos índios estavam mortos e os seringalistas espalharam a notícia de que grassava uma grande epidemia no local. Este crime ocorreu perto da Barra dos Rios Tomé de França e Miguel de Castro com o Rio Arinos.

 

Os Beiço-de-Pau, cujas terras são cobiçadas tanto por fazendeiros como por seringalistas, não tem saída; ao Norte, está a Empresa Colonizadora Gaúcha, que explora os seringais; ao Sul, encontra-te a frente de expansão da civilização, que se irradia de Cuiabá; a Leste, estão os colonizadores das fa­zendas paulistas; e a Oeste, o Rio do Sangue, Onde vivem os índios Canoeiros.

 

Integração e Pobreza

 

O Inspetor Ramis Bucair diz que os seringalistas ficarão pobres no dia em que os índios forem pacificados e se integrarem na civilização.

 

Às vezes, um capataz manda matar alguns seringueiros e culpa os índios: onde o punhal se cravou, fincam uma flecha.

 

Para o Inspetor Bucair, a modalidade mais nova no extermínio das nações índias é o lançamento de bananas de dinamite por aviões, que “evita as caras e cansativas expedições de matança”. Este processo foi usado contra os Cinta-Larga, a mando, segundo o Procurador Jader de Figueiredo Correia, de uma das maiores firmas comerciais de Mato Groso, que se beneficiou do crime especulando com as terras to­madas aos índios. O piloto do avião seria Toschio Lombardi Xatô, empregado do Antônio Mascarenhas Junqueira, segundo denúncia do ex-Chefe da 5ª Inspetoria do ex-SPI, Hélio Jorge Bucker, que disse ainda que nem o Exército teria condições de impedir essa matança, tal o poder dos grupos mandantes no Estado. O Procurador Jader de Figueiredo Correia diz em seu relatório que o piloto chamasse Donato. O denunciante, Hélio Jorge Bucker, esteve preso, por ordem do Presidente da Comissão de Inquérito por desvio de dinheiro.

 

As Torturas

 

O Procurador Jader de Figueiredo Correia revelou que é impossível estimar o número exato de crimes, mas acredita que, dos 90 mil índios existentes há 20 anos, milhares foram assassinados. Disse o Presidente da Comissão de Inquérito que na 7ª Inspetoria, no Paraná, para torturar os índios, enfiavam estacas de massapé no terreno, formando um ângulo agudo, e trituravam o osso do prisioneiro.

 

O trabalho escravo tomou-se rotina, inclusive com a participação de mulheres de funcionários. Uma delas obrigou um Cinta-Larga, em Mato Grosso, a passar a noite numa cisterna entupida de excrementos, acocorado no espaço de um metro quadrado. Em Nonoai, Rio Grande do Sul, dias antes da chegada da Comissão, o chefe do posto construiu no local uma cadeia para os índios. A prisão, para os agentes mentes cruéis, representa um estágio superior. Numa enfermaria construída especialmente para a vistoria da Comissão, surpreendemos uma índia enferma dormindo com um cão doente, um porco e oito leitões, todos abrigados num espaço exíguo.

 

A Comissão de Inquérito possui confissões completas de incitamento a prostituição, sevícias, trabalho escravo, usurpação de trabalho índio, desvio de recursos, fraudes na venda de gado, madeira, minério etc.

 

O genocídio vem sendo praticado impunemente. Os espancamentos, independentes de idade e sexo, são praticados como rotina e só despertam atenção quando, aplicados em exagero, provocam a morte. Outra forma de castigo empregada usualmente pelos agentes do ex-SPI é o de obrigar o índio a castigar seus próprios parentes e amigos. Os filhos castigam as mães, irmãos as irmãs e assim por diante ‒ afirmou o Procurador.

 

O trabalho escravo de um a dois anos, segundo o Presidente da Comissão de Inquérito, era imposto como pena por falta tola cometida pelo índio. E era normal a troca de objetos banais por jovens índias que depois seriam encaminhadas à prostituição.

 

Números da Matança

 

As tribos mais afetas nos últimos vinte anos foram as seguintes: Mundurucu: eram 19.000 há 20 anos e hoje são 1.200: Nhambiquara: eram 10.000 e agora são 1.000, a maioria doente: Carajá: de 4.000 passaram a ser 600: Xócren: eram 800 e hoje são 200: Gaiacu ou Cinta-Larga: de 10.000 são apenas 400 que morrem na Serra de Bodoquena, longe de suas verdadeiras terras.

 

O Comandante da Colônia Militar de Tabatinga, Amazonas, Major José Luís Leal dos Santos, declarou em março deste ano que os índios Ticuna eram torturados no vilarejo de Belém, na foz do Rio Tacamã, acrescentando que ele próprio esteve no local e comprovou a veracidade do fato.

 

‒ O que mais me revoltou ‒ disse o Major Leal dos Santos ‒ foram os depoimentos das jovens índias, violadas pelo filho do proprietário do vilarejo. O ritual de eleição da virgem era precedido de uma festa em que a cachaça era distribuída em quantidade, a tal ponto que os índios caíam no chão. O filho de Jordão Aires de Almeida, Leandro Sousa Aires de Almeida, de 23 anos, escolhia, então, sua presa, geralmente a índia mais nova de todas.

 

O pai não tem culpa. É um homem de 60 anos, que :se criou entre os Ticuna e realmente organizou o aldeamento de Belém. É certo que explorava os índios, mas em compensação ensinava-lhes muita coisa e supria a comunidade de gêneros alimentícios em troca de produtos regionais- O rapaz. Leandro, implantou o terror na Aldeia. Anos atrás ele fora expulso do Exército por ter violado quatro meninas da fronteira. Pai e filho estão, agora, presos no quartel de Tabatinga para serem processados pela Delegacia de Repressão ao Tráfico de Pessoas.

 

Aldeia Escrava

 

Uma segunda investigação à Aldeia de Belém, em face de denúncia do índio Veríssimo, revelou que os Aires de Almeida mantinham as 600 índios sob regi­me de escravidão. Esta investigação, determinada pela Polícia Federal, foi comandada pelo Capitão José da Cunha Barros Filho, Comandante da 7ª Compa­nhia de Fronteiras, com sede em Tabatinga.

 

Em seu relatório final, a Delegada Neves da Costa, da Re­pressão ao Tráfico de Pessoas, informa ao então Diretor-Geral do Departamento Federal de Segurança Pública, Coronel Florimar Campelo, que, em depoimento, o fazendeiro Jordão Aires de Almeida confessou que as índios eram seus trabalhadores e que, para mantê-los num regime disciplinar austero, formara uma polícia própria, composta pelos caboclos Zé Cazuza, Iricino Laguri, Manuel Porfírio, Francisco das Chagas, Torquato Mendes, Nagib Dick e Raimundo Salustiano.

 

Disse mais, que os índios, quando descomprimam as ordens, eram aprisionados pela sua polícia e acorrentados em um poste de aroeira, existente na varanda de sua casa.

 

O índio Veríssimo, que denunciou as atrocidades, foi um deles. Passou sete dias sem comer e sem beber, com as mãos e os pés acorrentados, satisfazendo em pé suas necessidades fisiológicas. Seu corpo ficou todo picado por mosquitos carapanã. Depois da denúncia ao Comandante da 7ª Cia de Fronteiras, Veríssimo retornou ao vilarejo e foi espancado com chicote de couro de peixe-boi, entregando as costas para que não atingissem sua filha de poucos anos que trazia nos braços. Ameaçado de morte, fugiu de Belém.

 

Apenas 10 índios depuseram, confirmando as denúncias de Veríssimo. A maioria dos Ticuna mostrou-se com medo de represálias.

 

A índia Lita Jacamim, de 13 anos, disse ter sido violentada por um parente de Jordão Aires de Almeida, o que lhe provocou um aborto. Ela acredita que o violador cumpra a promessa de casar-se com ela. Outra índia Alaíde Dick tem uma filha pequena, Jandira, do mesmo parente de Jordão.

 

Para manter os índios na fazenda, sob trabalho escravo, além da polícia particular, os Aires de Almeida instituíram o sistema de fornecimento: pagavam a índios como Veríssimo NCr$ 0,50 e lhes vendiam um pedaço de sabão por NCr$ 3,00, o que os deixava sempre como devedores. Os que fugiam eram presos como ladrões, por não terem pago suas dívidas. Jordão e seu filho Leandro estão sendo processados apenas pelos crimes de agressão e sequestro.

 

Devastação no Sul

 

No Rio Grande do Sul, no Município de Cacique Doble, a 78 quilômetros da Cidade de Lagoa Vermelha, 300 mil pinheiros foram devastados nos últimos vinte anos. A terra é habitada por remanescentes dos Guarani e Kaicangue. São ao todo 23 Guarani e 207 Kaicangue. Hoje, na reserva florestal, aos 300 mil pinheiros não há madeira sequer para construir casas para os índios que sobraram. Bento Manuel Antônio, atual chefe dos Kaicangue recorda, que muitos índios morreram e outros fugiram para evitar maus tratos nas celas construídas especialmente para aprisiona-los.

 

Segundo os índios informaram à Comissão de Inquérito, quem mandava na Aldeia era uma mulher, Juraci Batista, que ficou célebre pela frase que repetia todo momento:

 

Remédio para doença de índio é cemitério.

 

Uma mestiça Kaicangue disse aos membros da Comissão que a única aspiração dos índios era que fosse encontrado e degolada Juraci Batista. Juraci Batista é a mesma mulher que, acompanhada de uma jovem índia, Toxerodo, vem realizando intensa campanha pela televisão carioca em favor dos índios, “contra os massacradores de nossos irmãos de sangue”. A jovens índia que apresenta ao público, contou que sua mãe foi enforcada pelo funcionário do ex-SPI, Fábio de Abreu.

 

Principal Acusado

 

O principal acusado pela Comissão de Inquérito é o Major aviador Luís Vinhas Neves, diretor por quase dois anos do extinto SPI. O Procurador Jader de Figueiredo Correia acusou-o de cometer 42 delitos, sendo os mais importantes o assassinato e a sevícia de índios, a venda ilegal de terras e o desvio de um milhão de cruzeiros novos. Foi preso por 23 dias e depois libertado, por força de habeas-corpos.

 

O cunhado do Major Vinhas Neves, Paulo Salino dos Santos, fez declarações à Comissão de Inquérito, afirmando que o ex-diretor do extinto SPI comprou imóveis em quantidade espantosa sem explicar de onde provinham os recursos.

 

O relatório da Comissão tem 5.115 páginas, em 21 volumes que pesam 43 quilos. Não é completo porque os inquéritos anteriores desapareceram no misterioso incêndio ocorrido no ano Passado no Bloco 8 da Esplanada das Ministérios, em Brasília, local onde se encontravam os arquivos do ex-SPI. O Procurador Jader de Figueiredo Correia, apesar disso, acredita que dos 700 servidores do antigo Serviço de Proteção aos Índios pouco mais de 10 se salvarão da limpeza.

 

No Caminho dos Semivivos

 

O JORNAL DO BRASIL, em junho de 1965, numa sé­rie de 6 reportagens ‒ “No Caminho dos Semivivos” ‒ alertava as autoridades sobre o assunto, apontan­do o extermínio da população indígena pelos fazen­deiros, latifundiários e comerciantes, que, sem escrúpulos, buscavam a posse das terras dos índios que lhes era garantida por lei especial.

 

Outros jornais, e até mesmo organismos oficiais, denunciavam as irregularidades existentes no Serviço de Proteção aos Índios, criado pelo Marechal Rondon em 1910 e que, antes de morrer, já não acreditava na política adotada pelo SPI.

 

Os presentes levados pelos pioneiros só serviam para iludir o índio que, enquanto recebia açúcar, sal, facas, colares, fumo e bebidas, tinham suas terras invadidas por ganan­ciosos. (JB, N° 22)

 

 

Fonte:

 

JB, N° 22. Todos os Meios Foram Lícitos Para Liquidar os Índios ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Jornal do Brasil, n° 22, 05 e 06.05.1968.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·      Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·      Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·      Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·      Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·      Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·      Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·      Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·      Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·      Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·      Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·      Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·      Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·      Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·      E-mail: hiramrsilva@gmail.com.



[1]     Lenocínio: ação de explorar, estimular ou favorecer o comércio carnal ilícito, ou induzir ou constranger alguém à sua prática.

[2]     Presidente Artur da Costa e Silva.

Retorno ao Roosevelt (2019) - 2ª Parte - Gente de Opinião
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