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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Projeto Jari – 1ª Parte


Projeto Jari – 1ª Parte - Gente de Opinião

Bagé, 28.11.2019

 

Daniel Keith Ludwig

 

Ludwig adquiriu, em 1967, a Empresa de Comér­cio e Navegação Jari Ltda., possuidora de extensas propriedades na Amazônia. Instalando um complexo agroindustrial que produzia celulose e arroz, dedicava-se à criação de gado além de explorar recursos minerais como a bauxita e o caulim. Foi desmatada uma área de mais de 200 mil hectares de floresta, para o cultivo de espécies exóticas (gmelina – Gmelina arborea) – com a finalidade de produzir celulose. O milionário, invadiu territórios indígenas e ribeirinhos que viviam às margens dos Rios Paru e Cajari gerando sérios conflitos com os moradores locais. A partir da década de 1980, teve início a derrocada financeira do Projeto Jari que foi transferido para um grupo de empresários brasileiros, liderado pelo Banco do Brasil e pelo Grupo Caemi Mineração.

 

Grupo Jari

 

Em 1999, o Projeto foi adquirido pelo Grupo ORSA pelo valor simbólico de 1 dólar. A negociação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durou dois anos. O projeto passou a ter o nome de Grupo Jari, e os empresários firmaram compromisso em sanar os passivos sociais e ambientais. A Revista Manchete publicou uma série de reportagens sobre o Projeto Jari que fazemos questão de repercutir pelo seu grande valor histórico:

 

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Revista Manchete, n° 1.362

Rio de Janeiro, RJ – Sábado, 27.05.1978

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A Fábrica Flutuante de Daniel Ludwig

[Nilson Pereira Lima e David Louis Olson]

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gmelina é uma árvore originária da Ásia, mas as sementes plantadas nas propriedades de Ludwig foram trazidas diretamente da Nigéria. O tipo de pinho cultivado no Jari é do Caribe. A empresa está construindo uma série de unidades habitacionais ‒ “silvivilas” ‒ dotadas da infraestrutura necessária à vida comunitária. Nestas “silvivilas” já estão alojadas cerca de 750 famílias. A empresa programa plantar 200 mil hectares e construir 10 dessas comunidades. O plano prevê também a preservação de uma faixa muito extensa de floresta nativa para evitar o desequilíbrio ecológico. O projeto global foi elaborado em 1967 quando o Grupo Ludwig assumiu o controle acionário da Empresa de Comércio e Navegação Jari Ltda. A aquisição foi realizada pela Entrerios Comércio e Administração Ltda., “holding” brasileira do grupo.

 

A ocupação do vale do rio Jari teve início no município de Almeirim, no Pará, com a missão dos frades capuchinhos de Santo Antônio. A empresa de Ludwig vai transformar radicalmente os métodos de exploração da Amazônia, criando empregos diretos para mais de quatro mil pessoas. No município de Monte Dourado ‒ polo central das atividades da Jari ‒ os moradores dispõem de uma infraestrutura sócio sanitária bastante satisfatória, e recebem até assistência hospitalar gratuita.

 

A absorção de uma mão-de-obra relativamente abundante representou excelente contribuição para o Primeiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento da Amazônia.

 

Os empregados da Jari consideram que a empresa abriu caminho aos pioneiros. Nos portos construídos pela firma aportam navios de até 55 mil toneladas. Os quatro aeroportos da empresa recebem uma média mensal de 2.500 passageiros.

 

A Jari também está montando uma infraestrutura de exploração da pecuária em suas terras, onde já existem cinco mil búfalos e cerca de sete mil cabeças de gado. Para 1990 prevê-se um rebanho de 25 mil cabeças.

 

Os técnicos estão procurando “racionalizar” a floresta, que ainda contém cerca de 500 tipos de árvores economicamente não aproveitáveis. Mas toda a madeira considerada boa é explorada pelas duas serrarias da empresa que trabalham 24 horas ininterruptamente por dia.

 

O solo não fértil fornece matéria-prima para a indústria de construção que consome uma média muito alta de pedra britada. O ritmo de construção das estradas nas terras da companhia ‒ um milhão e trezentos mil hectares ‒ está programado para uma média de 860 km por ano. Atualmente já existem 300 km de estradas principais, e 4.000 de estradas vicinais. A média de rendimento do pinho chega a 28 m3 por hectare, fornecendo matéria-prima para a fabricação de móveis e celulose. A “Gmelina arborea” atinge até dez metros de altura no prazo de 2 anos, representando assim uma verdadeira fortuna para a empresa.

 

O regime de ocupação racional da Amazônia tem proporcionado à Jari algumas surpresas agradáveis como, por exemplo, a descoberta da maior reserva de caulim do mundo. O caulim é utilizado na fabricação de papel, na indústria farmacêutica e na produção de cerâmica. O Brasil, que era importador do produto, deverá passar brevemente à condição de exportador.

 

A reserva de caulim ‒ conhecido pelo nome científico de “Amazon 88” ‒ está calculada em 50 bilhões de toneladas.

 

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s técnicos brasileiros e americanos que trabalham em Monte Dourado estão procurando solucionar o problema da ocupação das várzeas inundadas da Amazônia. O projeto de produção de arroz irrigado ‒ que recebeu plena aprovação da Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia [Sudam] prevê a cultura de 35 mil hectares.

 

As terras já atualmente cultivadas eram, até três anos atrás, simples pantanais abandonados. Nas culturas de arroz do Jari ocorre um fenômeno praticamente inédito no mundo, que é a dupla safra anual. O supervisor das culturas, o agrônomo holandês Arend Reedijk, explica que a empresa dispõe de equipamentos ultramodernos, utilizando seis aviões Ipanema adquiridos à Embraer, vinte e seis colheitadeiras automotrizes, seis tratores de 320 cavalos e outros vinte e quatro de 215.

 

Há mais de dois mil empregados na plantação. No ano passado, a empresa exportou 13 mil toneladas de arroz para a Itália e a produção de 1978 está calculada em 30 mil toneladas que deverão dar ao Brasil um total aproximado de 120 milhões de dólares de divisas.

 

A irrigação é garantida por um conjunto de bombas com capacidade para movimentar até um milhão de litros por minuto. Segundo os cálculos de Reedijk, a produção de arroz em 1981 deverá chegar a 350 mil toneladas. A experiência do transporte de uma fábrica moderna em plataformas flutuantes exigiu a criação de uma tecnologia inteiramente nova por parte de técnicos japoneses e canadenses altamente especializados.

 

A construção da usina, nos estaleiros da Ishikawajima Harima, em Kure, no Japão, durou 2 anos e custou ao Grupo Ludwig o total de 250 milhões de dólares. O transporte das unidades por via marítima custou 3 milhões de dólares.

 

A linha integrada de produção de pasta kraft branqueada tem capacidade para fabricar 750 ton métricas por dia, e comporta equipamentos de todos os grandes países produtores do mundo.

 

A implantação do projeto de Ludwig exigiu estudos extremamente minuciosos, pois representava um verdadeiro desafio para a técnica moderna. Como implantar uma fábrica de celulose a 400 km de distância da foz do Amazonas, numa região que não dispõe de qualquer estrutura de apoio nem de outros tipos de recursos modernos? Montar a usina trazendo as peças de fora seria, além de muito problemático, oneroso demais.

 

A única solução era transportar via marítima e fluvial uma fábrica já inteiramente montada. Ludwig teve a colaboração de um engenheiro naval de renome inter­nacional, Elmer L. Hans, que nos últimos 40 anos tem participado de todos os grandes empreendimentos marítimos dos mais diferentes países.

 

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onsiderado como “o pai da construção dos navios modernos”, Hann, que exerce há 28 anos a função de supervisor de estaleiros no Japão, começou sua vida profissional logo depois da 2° GM, estudando um novo método de construção naval para os japoneses, que haviam perdido toda a sua frota. Daniel Ludwig arrendou estaleiros japoneses pelo prazo de dez anos e Elmer Hans introduziu técnicas ultramodernas para a construção dos superpetroleiros ‒ setor em que Ludwig foi pioneiro.

 

Para o transporte da fábrica de celulose, Hann contou com os serviços de um dos diretores da Ishikawajima que figura entre seus mais fiéis alunos, H. Shinto. “Com a colaboração de um técnico do gabarito de Shinto”, diz Hann, “tudo teria que dar certo. O aluno ultrapassou seu antigo professor”.

 

Sentado num banco de madeira da Amazônia, Elmer Hann olha para a usina que se ergue como um imenso edifício sobre as águas e confessa que o transporte das unidades do Japão para a Amazônia foi a maior façanha de sua vida de técnico. (MANCHETE, N° 1.362)

 

Fonte:

 

MANCHETE, N° 1.362. A Fábrica Flutuante de Daniel Ludwig [Nilson Pereira Lima e David Louis Olson] ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Revista Manchete, n° 1.362, 27.05.1978.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·      Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·      Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·      Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·      Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·      Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·      Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·      Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·      Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·      Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·      Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·      Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·      Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·      Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·      E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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  •  Manchete, n° 1362, 27.05.1978
    Manchete, n° 1362, 27.05.1978
  • Manchete, n° 1362, 27.05.1978
    Manchete, n° 1362, 27.05.1978
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