Porto Velho (RO) quarta-feira, 16 de outubro de 2019
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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

O Pium II: O 6° BEC prossegue em seu ritmo dinâmico, de trabalho ativo, corrido e acelerado.


O Pium II: O 6° BEC prossegue em seu ritmo dinâmico, de trabalho ativo, corrido e acelerado.  - Gente de Opinião

Bagé, RS, 02.04.2019

 

O Pium ‒ Boa Vista, RR

Informativo Mensal do 6° BEC

Ano I – N° 10 - 20.03.1975

Waimiri-Atroari, uma de Nossas Preocupações

 

O 6° BEC prossegue em seu ritmo dinâmico, de tra­balho ativo, corrido e acelerado. Há uma pressa ge­neralizada em todas as atividades: o fim do ano está próximo, e os dias esplêndidos de verão redobrarão o nosso entusiasmo em produzir mais. A 1ª Compa­nhia de Engenharia de Construção, o Destacamento Sul, está atuando na região do Rio Alalau: divisa do Estado do Amazonas com o Território de Roraima, em plena área dos silvícolas Waimiri-Atroari, que tem sido até hoje um dos grandes obstáculos ao prosse­guimento dos trabalhos. Depois dos episódios dra­máticos e cruéis, em que várias vidas foram sacrifi­cadas pelos temíveis índios, agora, pelos fatos recen­tes ocorridos na linha de frente, indicam que os silvícolas, tomaram a iniciativa de manter contatos amistosos, talvez como prelúdio de uma convivência mais pacífica.

 

 

Um Contato Breve e Amistoso

 

No dia 08.10.1975, por volta das 13h00, no KM 240, na direção Manaus-Caracaraí, a turma de desma­tamento foi surpreendida com o aparecimento repen­tino de índios Atroari, que surgiram da selva desar­mados carregando cestos com bananas, pupunhas e cana de açúcar; se se mostravam muito nervosos e apreensivos, num estado psicológico de muita intran­quilidade e até certo ponto desconcertante. Depois dos primeiros contatos com o pessoal da linha frente, retornaram à mata e, logo a seguir, apareceram mais 04 índios, todos desarmados, conduzindo às costas jamaxis cheios de frutas silvestres.

 

O Chefe do Grupo foi identificado como filho do Cacique Comprido. Eram dois adultos, 01 garoto de aproximadamente 10 anos e 02 de 14 anos. Os 02 primeiros foram reconhecidos, pelo pessoal da linha de frente, como sendo os mesmos que vieram no encontro do dia 14 de agosto passado. O garoto de dez anos apresentava um ferimento no pé direito, resultante da mordida de um porco selvagem, que foi prontamente atendido pelo enfermeiro do acampamento, que lhe fez o curativo devido. O receio dos silvícolas foi desaparecendo na medida que se prolongava o contato com o pessoal do Acampamento. E, como estavam famintos, almoça­ram com a equipe de limpeza. Queriam mais comida, sal, açúcar, redes [maquera]. Retornaram à selva prometendo voltar dois dias depois.

 

 

Novo Contato com os Índios WA

 

Os silvícolas, cumprindo a promessa que fizeram, regressaram ao trecho em construção da BR-174, na zona de ação da 1ª Cia E Cnst, no Destacamento Sul, às 15h00 do dia 12 de outubro. O evento ocorreu na manhã de domingo e os Atroari que numa coincidência talvez, querendo homenagear o “Dia da Criança”, trouxeram em sua equipe 03 crianças, para mostrar-lhes o mundo civilizado que desconheciam, portando frutas silvestres diversas, arcos e flechas.

O filho do Capitão Comprido também fazia parte desse grupo e há quem diga que a equipe era liderada pelo Tuchaua Ponta de Lança que mostrava para os curumins [crianças] o “caminzão” [estrada]. Ponta de Lança era Capitão de outra maloca, que aproveitou a oportunidade e também nos visitou. Esses indígenas residem à margem direita da estrada a aproximadamente 4.000 metros do eixo e foram atraídos pelo barulho das máquinas da equipe de limpeza, que segue logo após a equipe de desma­tamento.

 

Era meio-dia de domingo e as turmas regressavam dos diferentes locais de trabalho, bueiros, caminhos de serviço, desmatamento das baixadas de igapós etc, para o almoço e aproveitar a tarde desse dia para folga merecida e alguns afazeres pessoais. O Tenente de serviço, na linha de frente, tomou a iniciativa de transportar em caminhão esses silvícolas acompanhados de alguns elementos da FUNAI até o acampamento provisório do KM 297, onde foram efetuadas as trocas de brindes. Naquele acampa­mento, 05 índios dos mais velhos e 03 crianças, apavorados com o número de trabalhadores que se acercou do local, se evadiram bruscamente em direção à selva. Os demais silvícolas permaneceram no acampamento por cerca de uma hora, aproxima­damente, na troca amistosa de presentes. Depois retornaram no mesmo caminhão para a linha de frente, de onde seguiram pela mesma trilha para suas malocas e prometeram retornar dentro de 03 dias.

 

O aborígene Atroari já olha a equipe bequiana como “Baré” [amiga, bacana, legal, boa] e é através da troca de presentes e abraços, fato que se renova a cada encontro que ele procura comprovar essa amizade que se estreita a cada dia que passa.

 

Ainda no desenrolar destes acontecimentos, regis­tramos dois diálogos entre militares e os visitantes. Um dos silvícolas da segunda equipe perguntou ao Cabo Teles:

 

‒ Caminzão, pra onde?

 

Ao que o Cabo respondeu:

 

‒ Pra Boa Vista.

 

O índio voltou a falar, dizendo num português bem ruim:

 

‒ Boa Vista, marupá [ruim, não é amiga].

 

Na última visita, um dos militares presentes pergun­tou a cada um dos visitantes:

 

‒ Cadê Maria?

 

E cada um respondeu:

 

‒ Maria, não.

 

Foi, então a vez de um silvícola indagar do militar.

 

‒ E Maria?

 

E o militar respondeu:

 

‒ Maria longe, Manaus.

 

E o índio retrucou:

 

‒ Manaus, bom, muita Maria.

 

Desta forma, pelo desenrolar dos acontecimentos, acreditamos que dentro em breve, iremos vencer mais uma das grandes dificuldades que se antepuseram na dura e espinhosa caminhada de nossa vibrante jornada.

 

O Pium ‒ Boa Vista, RR

Informativo Mensal do 6° BEC

Ano II – N° 18 - 20.11.1975

ô Atroari ô

 

Durante um dos trajetos do Alalau até a clareira, a equipe sobrevoou o Posto de Atração FUNAI, no KM 310, e Por coincidência se deparou com grupo de seis índios Atroari trocando presentes com os elementos que ali se achavam no momento. Aproveitando a oportunidades foi feito pouso para fotografar e filmar os silvícolas. Os mesmos não se assustaram com o barulho do helicóptero e ficaram muito contentes em “posar” para os tripulantes ‒ houve uma verdadeira confraternização entre os índios, elementos da FUNAI e funcionários do Batalhão, provando assim, um relacionamento cada vez maior e diminuindo a rivalidade tão agressiva dos moradores da selva, que tantas marcas lamen­tavelmente tem deixado no desenvolvimento da nossa missão. [...]

 

O Pium ‒ Boa Vista, RR

Informativo Mensal do 6° BEC

Ano II – N° 19 - 20.12.1975

Notícias do Batalhão – Jauaperí Ultrapassado

 

Primeiro foi a equipe de desmatamento mecânico, que, no dia 21.03.1975, ultrapassou sem muitas delongas para nos deixar cheios de ansiosa expectativa o “Rio Jauaperí”. Depois foi a vez do “Trairí”, atingido no dia 23.10.1975 que ficou rapidamente para traz, e consequentemente visado está o “Rio Branquinho”, mito que deixará de existir logo mais... Parabéns à toda equipe, pois apesar da necessidade do bem-estar dos seus lares, fazem a força, unificada, transformar-se em grande serviço de derrubada das árvores de tamanhos descomunais, para acontecer o encontro alegre, que está previsto e esperado por todos do Destacamento Norte, 6° BEC e aos observadores, na “reta de chegada já bem próxima”.

 

Na parte recuada, do desmatamento, segue a turma que vai disputando com barro, areia, pedra, piçarra, chapas metálicas, madeira e tudo enfim, pedindo lançamentos de bueiros e tudo mais que é necessário para irem mais rápido ainda. A turma de terraple­nagem que também não só ultrapassou o “Jauaperí” no dia 03 de novembro próximo passado a 430.900 metros da Capital Amazonense, como conseguiu a melhor produção, do ano de 1975, com 460.060 metros cúbicos de material escavado e lançado no eixo da estrada.

 

Com o famoso “Jauaperí” à retaguarda, seguem agora, a passos largos, em direção ao “Trairí”, ansiosos, desde já pela chegada do Natal e com a acolhida sonhada em seus, nossos, de todos os lares na cidade. Entretanto, o “Trairí” fica próximo agora. Em frente companheiros, pois que estamos perto do objetivo ‒ “CONCLUSÃO da BR-174”, fator que impulsionará o progresso de Roraima.

 

 

Homenagem a João Morais
Flecha Atroari Impede a Marcha de Morais

 

O fatídico incidente ocorreu em plena selva Amazô­nica, já no Território de Roraima, no trecho conside­rado reserva indígena. Na época foi manchete em todos os jornais do país e agora, passado um ano, vamos reviver o fato para prestar ao João Morais a homenagem que ele bem merece.

 

A tragédia se deu a 17.11.1974, era cedo ainda quando Morais saia para caçar, uma vez que ele era uma das molas mestras da firma Clodan Nunes, responsável pelo desmatamento manual da BR-174.

 

Por volta das 10h00, ouviu-se o estampido de arma de fogo ecoar pela floresta sombria. Depois voltou o silêncio, a calma, a tranquilidade.

 

Só a mata com seus pássaros buliçosos e alegres, mais o farfalhar das folhas e o balouçar das flores silvestres enchiam o ar com aquele aroma peculiar da selva. Quando do retorno ao acampamento, seus companheiros nota­ram a sua ausência.

 

Julgaram-no perdido, apesar do conhecimento profundo da região. Combinaram-se e partiram para o tronco de uma grande árvore [Sucuubeira] onde com machado dariam batidas diversas para que pelo eco, pudessem ajudar o amigo retornar ao acam­pamento.

 

Dos três trabalhadores, um só ficou e quando a dupla se aproximava da árvore em mira, foi atacada e trucidada pelos Atroari. Com a algazarra dos indígenas, o outro trabalhador saiu para ver o que se passava e, diante do horrendo espetáculo que assistiu, fugiu apavorado em direção ao acampamento do BEC, onde relatou a ocorrência.

 

O trágico acontecimento se deu no local onde hoje está plantada a estaca 1125 [quilômetro 22,5 do trecho Alalau-Branquinho]. Ao tomar conhecimento do fato, a equipe de busca do Destacamento Sul, adentrou à selva no intuito de localizar algum sobrevivente ou os cadáveres. Os dois trabalhadores foram localizados, mas, o cadáver de João Morais não foi encontrado.

 

Hoje, a BR-174, como uma gigantesca sucuri serpenteia a selva Amazônica como a exibir o seu lombo vermelho da piçarra, às vésperas do encontro acalentado por séculos nos seios amazônidas, mormente, o roraimense.

 

Esse encontro deixará de ser um sonho para tornar-se a realidade da década. Mas, antes que isso acontecesse era necessário que muitas e preciosas, vidas fossem sacrificadas, muitas lágrimas fossem derramadas, muitas noites mal dormidas, muito suor e sangue fosse derramado. Era necessário coragem, bravura e, sobretudo, amor à Pátria. Isso é natural dos grandes empreendi­mentos.

 

Foi do Independência do Brasil, na Batalha do Riachuelo, na Tomada de Monte Castelo, na construção da Belém-Brasília, Transamazônica e assim, na construção da Perimetral Norte e BR-174, que interligará Roraima ao resto do gigantesco Brasil.

 

Nessa hora de satisfação para nós, queremos lembrar o João Morais que sem dúvida nenhuma deu a sua parcela de colaboração, pagou com a vida a ousadia de ir bem na frente da estrada da integração Manaus-Boa Vista e, em sua homenagem, que a ponte construída cobre o Igarapé do km 253 receberá o nome João Morais.

 

O Pium ‒ Boa Vista, RR

Informativo Mensal do 6° BEC

Ano II – N° 20 - 20.01.1976

Marcamos um Encontro com o Impossível
Para Vencê-lo

 

Em 22 de dezembro de 1975, o 6° BEC concluiu o desmatamento da BR-174, com o encontro das duas frentes de serviço, aproximadamente sobre a linha do Equador, na altura do KM 362.

 

A conclusão desse trabalho possibilita, pela primeira vez, a ligação, por via terrestre entre Boa Vista, capital do Território de Roraima e Manaus, através de uma rodovia de classe pioneira, com 776 KM de extensão, dos quais 86 KM ora em caminho de serviço, construído ao longo da faixa desmatada de 70 m roubados à floresta.

 

Este significativo evento cresce de importância, e se constitui num verdadeiro feito heroico ao considerar­mos que, no afã de concluir os trabalhos antes do Natal de 1975 antecipando-se aos prazos previstos as duas equipes de desmatamento mecânico, sob as chuvas dos últimos quilômetros, conseguiram o expressivo rendimento de 72 KM em apenas um mês de trabalho.

 

Fato interessante ocorreu nos últimos dias que precederam o histórico encontro. Simultaneamente com o avanço dos tratores derrubando a mata virgem, procedia-se o estudo de uma variante no Rio Branquinho.

A contagem regressiva indicava que no dia 18 de dezembro, faltavam apenas 07 KM Para o fechamento; logo, verificou-se que houve engano da informação; a variante tinha alongado o traçado e na realidade faltavam 12 KM para se atingir o Rio Branquinho, meta da chegada das duas equipes de desmatamento mecânico.

Era quase impossível proceder-se a junção das duas frentes de serviço antes do Natal.

 

No dia 20.12.1975, o Destacamento Sul atingiu o Rio Branquinho e iniciou imediatamente a construção de uma “pinguela” para transpô-lo com suas máquinas. Nesse dia o Ten Cardoso Ramos, do Destacamento Norte venceu à pé, os últimos quilômetros de pântano e fez ligação com o Ten Cláudio do Destacamento Sul. Juntos hastearam a Bandeira Nacional nas margens conquistadas do Rio Branquinho.

 

O tempo passou a ser ameaçador e pesadas chuvas fizeram subir aguas do Rio, dificultando ainda mais a construção da ponte pinguela. O Cap Seabra, Cmt do Destacamento Norte, fez ligação com o Cmt do Batalhão e marcaram a data de 22 de dezembro, para o encontro impossível. Rapidamente o Cmt do Desta­camento Norte transmitiu a ordem ao Chefe da Equipe de Desmatamento Mecânico, Sgt Garcia:

 

‒ Cumpra-se a previsão!

 

Enquanto o Destacamento Sul, embora tenha sido o 1° a chegar ao lendário Rio Branquinho, permanecia imobilizado nas jornadas de 20 e 21, detido pela fúria desse Rio ainda não domado, redobraram-se os esforços do Destacamento Norte, agora tendo à frente um imenso pântano de quase 05 km formado pelas últimas chuvas caídas.

 

No dia 21 dez, três tratores de lâmina do Destaca­mento Sul conseguiram transpor o Rio. Trabalhou-se dia e noite ininterruptamente quando na tarde de 22.12.1975, nas turmas dos Destacamentos Norte e Sul ouviu-se mais forte o ronco dos tratores.

 

Diante de nós tombou a última das grandes árvores, cujo estrondo concretizou finalmente, o desfecho da gran­de epopeia, como Éolo ([1]) que sacudiu nossas mentes de intensificadas vibrações depois de estabelecer a inscrição do epônimo ([2]) de quantos se imolaram na íngreme e exaustiva caminhada. Por fim, às 16h00, deu-se o tão esperado “encontro”.

 

Companheiros que vibraram no afã de incontrolável contentamento da vitória e se defrontaram com chavascais quase pântanos onde geralmente ficavam enraizadas ao terreno duas e às vezes três máquinas, mas sempre ajudadas por uma quarta, que lhes servia como tábua de salvação naqueles instantes quase angustiosos para o insofismável encontro, que se daria dali a horas...

 

Prosseguiram, vendo já as colunas de fumaça que as máquinas do Destacamento Sul levantavam ao derrubar cortar e forcejar em direção Norte, e isso dava uma sensação de saber-se necessário, pois na posteridade seria lembrado com bravura, já que a guerra, luta contra a natureza adversa havia vencido e isso fazia a todos que estavam presentes, sentir a euforia de verem por terra os primeiros a virem de Manaus até o nosso Território em veículos, coisa jamais conseguida antes...

 

Encontraram-se; pararam e olharam-se; operadores, chefes de equipes e, como duvidassem do feito, correram e abraçaram-se cheios de alegria, concre­tizando-se em seus lábios:

 

‒ UFA! Vencemos companheiros.

 

Passados os primeiros instantes onde a emoção tomou conta das palavras, mesmo cheios de lama em suas roupa, foi pedido o encontro das lâminas dos tratores do Norte com os do Sul, sempre irmanados pelo objetivo alcançado, e tiraram fotos debaixo da fina chuva que caía implacável desde há muitos dias.

 

O objetivo, inesperadamente conquistado, alenta-nos o propósito de prosseguir com a experiência conquistada, para a definitiva ligação de Manaus ao BV-8. A Hileia intransponível chega finalmente ao término de sua inviolável penetração.

 

O último desvão do Território Nacional que ainda restava, ligado agora a resto do País, demonstrando a Nação e ao Mundo que nos olha que o temeroso desafio fora sobejamente conquistado para, gáudio de todos no brasileiros, que neste momento nos rejubilamos com a conquista do evento.

 

Nosso preito de gratidão, de reconhecimento e de saudade, àqueles que tombaram, no próprio campo trabalho e que a posteridade não irá esquecer.

 

Foram 23 companheiros, de Germano Miranda a Severino Xavier Filho, verdadeiros lídimos da Engenharia Militar de Construção que tudo deram de si, à sua pátria, até mesmo o sacrifício da própria vida. Aqui fica a nossa homenagem póstuma.

 

O Pium ‒ Boa Vista, RR

Informativo Mensal do 6° BEC

Ano II – N° 23 - 30.04.1976

Nosso Entrevistado
O Cearense de Cedro

 

Estatura mediana, mãos calejadas e pele curtida pelo Sol do Equador, semblante alegre e conversa pausa­da, caracterizam o cearense de cedro, André Moreira Nunes, que apesar do seu corpo franzino, é como disse Euclides da Cunha, ‒ “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Chamado de “Pai André” pelos arre­dios índios Atroari, o grande pioneiro e desbravador, iniciou seus trabalhos de desmatamento na Amazônia, no 5° BEC por ocasião da abertura da BR-364 e continuou no 6° BEC, a partir de 1973, sendo e encarregado de uma das turmas de desmatamento manual que atuou na frente Sul da BR-174. Pioneiro da grande Rodovia, viveu os mais diversos episódios e imprevistos impostos pela natureza da região inóspita da selva, destacando-se a passagem pela reserva Indígena, como o problema mais extenso. Sempre sorrindo, relatou passagens difíceis da sua tarefa, demonstrando grande tranquilidade.

 

André: iniciamos o trabalho de desmatamento manual no KM 86 até o Rio Jauaperí e foi justamente nesse trabalho, que tivemos o primeiro contato com os índios Waimiri-Atroari, na ocasião da chegada ao Rio Alalau.

 

Repórter: qual a sua reação ao se deparar com uma tribo indígena, você teve receio de prosseguir na missão ou continuou com esta tua maneira tran­quila?

 

André: bem, eu já estava prevenido de que iria encontrá-los e como deveria proceder, porém passaram-se dois dias e não, apareceram, o que indiretamente me forçou a realizar o primeiro encontro após o Massacre do Padre Calleri. Fui pela lógica do serviço, se tínhamos de enfrentá-los, tínhamos de achá-los. Não me causou nenhuma surpresa, apesar de ser um problema a mais, no desenvolvimento dos nossos trabalhos; considero-os um acontecimento secundário ante a grandeza e importância da nossa missão.

 

Repórter: que atitude você tomou para criar uma situação amistosa entre os silvícolas e o seu pes­soal?

 

André: foi muito fácil, levemos brindes e fiz-lhes um convite a visitar o nosso acampamento. Daí sucederam-se as visitas em caráter inteiramente amistoso, o que possibilitou prosseguirmos tranqui­lamente até alcançarmos o Rio Jauaperí, ponto de conclusão desse trabalho.

 

Repórter: André, quando aconteceu e como você procedeu com o primeiro alarme de um provável massacre?

 

André: justamente quando os trabalhos já alcançavam os 30 KM, após o Alalau. Na Ocasião, eu estava aqui na Sede e o Coronel Oliveira, Comandante do Batalhão na época, havia recebido um alarme de que os índios atacariam o pessoal da topografia e solicitavam autorização para suspen­der os trabalhos. Tranquilizei o Comandante e re­tornei imediatamente pedindo-lhe apenas que fi­casse em contato permanente comigo pela estação rádio do Batalhão.

 

  E tudo aconteceu como eu previra era apenas um alarme falso, um alvoroço sem nenhum significado. Apenas realizaram um dos seus costumeiros rituais. Dançavam entre batuques de tambores e gritos, em volta do pessoal da topografia. E conforme transcorria o festival, eu transmitia ao Comando e demais oficiais do 6° Batalhão, as ocorrências através do rádio.

 

Repórter: quando realmente ocorreu o primeiro massacre e quais as causas que o provocaram?

 

André: o Batalhão, por razões técnicas, modificou o traçado da rodovia, o que nos fez refazer todo o serviço de desmatamento manual a partir do Rio Abonarí. E nesse trabalho, no dia 17 de novembro de 1974, aconteceu o primeiro massacre, onde lamentavelmente padeceram três funcionários da minha equipe de serviço. Como aconteceu no primeiro alarme, eu estava aqui na Sede e retornei imediatamente ao acampamento a fim do estudar um meio de encontrar e resgatar os corpos. Os trabalhos foram paralisados, até segunda ordem, pelo General Fernando Belfort Bethlen, Comandan­te Militar da Amazônia, e somente após 6 dias en­contramos 2 corpos completamente trucidados e em alto estado de putrefação. O 3° corpo do trabalhador João Morais até hoje continua desapa­recido. Quanto as causas não posso lhe dizer nada, pois não cheguei a nenhuma conclusão. Apenas o que pude constatar foi que alguém permaneceu guardando os corpos por dois ou três dias.

 

Repórter: e o que o levou a concluir isso?

 

André: os vestígios deixados. Alguém armou uma espécie de acampamento provisório, com palhas de buriti, para proteger-se do Sol ou da chuva.

 

Repórter: como você reagiu após o massacre?

 

André: com mesma tranquilidade de antes, eles não me assustam. A minha reação foi de curiosidade, de observação e não de medo. Sempre me relacionei bem com eles e não consegui entender até hoje o porquê do massacre.

 

Repórter: durante o contato com esses índios você aprendeu a linguagem deles ou se entendiam ape­nas de forma mímica?

 

André: a linguagem deles é uma repetição contínua, portanto, fácil de aprender. Eu mesmo forçava al­gum acontecimento, para provocar uma repetição, para ligar o que diziam com o que eu entendia. São dotados de uma grande inteligência e tem uma facili­dade de memorizar e de reconhecer o valor das coisas que muito me impressionou.

 

Repórter: Você pode citar algum exemplo da rapidez de memória e reconhecimento do valor que eles demonstraram para convencê-lo?

 

André: a facilidade de memorizar reconheci pelo seguinte teste; juntei um grupo dos nossos funcionários, chamei um índio e conforme apontava cada um deles, dizia-lhe o nome. Me afastei do grupo e chamei o mesmo índio e disse-lhe:

 

Marcondes, cigarro mim [Marcondes, era um dos meus funcionários que foi vitimado num desastre de carro em setembro de 1975].

 

  Ele foi até o Marcondes e disse-lhe:

 

‒ Pai André cigarro.

 

  E, em seguida, entregou-me. Quanto ao reconheci­mento do valor, foi muito fácil, logo entende-lo. Uma vez queria conseguir uma rede indígena feita de palha de buriti e em troca ofereci um pequeno brinde que eles recusaram, voltei no dia seguinte e levei-lhes uma rede das nossas e imediatamente acei­taram.

 

Repórter: essa passagem da Reserva Indígena que foi vencida tão heroicamente, você considera a sua grande realização nessa missão?

 

André: não, não a considero como minha grande realização. Como já disse antes, o índio é um fator secundário na minha tarefa. As duas grandes realizações foram:

 

1ª Cruzamento dos dois tratores de lâminas no Rio Branquinho, ocorrido no dia 20.12.1975, que dependeu da construção de uma ponte tipo pinguela, onde foi necessário o trabalho de quatro dias e quatro noites sem dormir, paro atingirmos o outro lado do Rio.

 

2ª Construção da Ponte de 130 m sobre o Rio Abonarí, sem apoio de rodovia.

 

  Um dos encargos mais difíceis a mim confiado foi a construção, no KM 238, de uma pista de pouso onde tivemos de lançar todo o material necessário, inclu­sive rancho, através de um avião Cesna. Ainda na fase final de construção, tivemos que pousar naquela pista para retirar 02 operários doentes. Todavia, gosto de trabalhar na linha de frente e recomeçaria novamente, se necessário, fosse.

 

Além das grandes realizações citadas e das passa­gens difíceis que a selva lhe reservou, André teve as suas traquinagens e improvisações necessárias ao seu trabalho.

 

É o maior “caroneiro” do Destacamento Sul, não há viatura para Manaus ou avião para Boa Vista que ele não “perue” uma vaga.

 

Seus meios de transporte são os mais diversificados. Para um bate-estaca, improvisou uma balsa, para uma serra, usou a cabeça dos peões e assim por diante. E visando melhorar aqueles meios, comprou um jeep e para incentivar sua equipe, escreveu no para-choque dianteiro RUMO NORTE.

 

Mas, como não tem Serviço de Transporte Automóvel [STA] – oficina de equipamento, o seu jeep não resistiu às baixadas e, foi encontrado na região do encontro das duas frentes de serviço, sob uma castanheira, todo depenado, porém ostentando como símbolo, sua contribuição para a arrancada final que motivou a junção das duas equipes de desmata­mento: RUMO NORTE.

 

 

Piada do André – Peão – D-155

 

André retornava de Manaus, na carroceria alguns peões de volta ao trabalho, quando no KM 17 da BR-174, foi barrado pelo guarda da Patrulha Rodoviária, ocasião em que o seguinte diálogo foi mantido:

 

Guarda: o Sr. não pode conduzir pessoal na carroceria,

 

André: Sr. guarda nós somos trabalhadores da estrada e retornamos para o serviço.

 

Guarda: é, mas não pode.

 

Nisso, um peão desce desconsolado e se dirige ao guarda.

 

Peão: Seu guarda, nós somos mesmo azarados, iguais ao D-155.

 

O guarda não entendeu a comparação do peão, ficou atrapalhado e perguntou:

 

Guarda: D-155... azarado? por que rapaz?

 

Peão: Olha seu guarda, nós somos do desma­tamento manual da BR-174, abrimos esta estrada, do km 50 ao 360.

 

  Fomos mordidos por cobra, picados por abelha, atacados pelos índios e no fim de tudo, não podemos andar na estrada! Pois é, com o trator D-155 é a mesma coisa.

 

  Ele derruba as árvores, constrói os aterros, abre os cortes e no fim de tudo, quando a, plataforma da estrade está pronta, só pode andar se for trepado na carreta. É ou não é muito azar seu guarda?

 

O Pium ‒ Boa Vista, RR

Informativo Mensal do 6° BEC

Ano II – N° 25 - 30.06.1976

6° BEC e os Waimiri-Atroari

 

Após o Massacre do Posto Abonarí II em que perece­ram o Sertanista Gilberto Pinto e mais 3 funcionários da Funai, os índios Waimiri-Atroari permaneceram nas suas malocas, não mantendo nenhum contato com os elementos da Funai ou do 6° BEC, durante o 1° semestre de 1975.

 

Quando o desmatamento mecânico atingia o KM 280,8 ao Norte do Rio Alalau, 10 índios Atroari assustados e medrosos, porém armados de arcos e flechas estabe­leceram o 1° contato do ano com a turma de desmatamento do 6° BEC em 14.08.1975.

 

Seguiram-se no decorrer deste ano e até março de 1976, 16 contatos de índios Atroari com os traba­lhadores e militares do 6° BEC e da Funai, e cuja sequência cronológica é a constante do documento anexo publicado no “O Pium” do mês de abril passado.

 

No entanto, até a presente data os índios Waimiri, que habitam as cabeceiras do Abonarí, continuam desaparecidos.

 

Eles deverão voltar. É imprevisível saber qual deverá ser sua intenção se amistosa como a dos Atroari, ou se repetirá o massacre traiçoeiro de 29.12.1974.

 

O ano de 1975 foi decisivo na atração dos arredios índios Atroari. O 6° BEC cruzou a sua Reserva Indígena de Sul a Norte, com a preocupação única de implantar a estrada, tendo seus elementos, civis e militares, não se adentrado 01 metro sequer além da faixa de domínio da BR-174.

 

A iniciativa dos contatos, foi deixada, por acertada tática, combinada com a Funai, à iniciativa dos silvícolas. Os 16 contatos amistosos de agosto de 1974 a março de 1976 é uma prova irrefutável de que o tratamento dispensado pelo Batalhão e Funai foi correto, que foram respeitados usos e costumes dessas tribos, que houve brandura no trato, que a confiança dos silvícolas no pessoal que “invadia” suas terras foi criada, em razão deles sentirem quais as verdadeiras intenções desses novos pioneiros, construtores de estradas e não predadores de índios, ou destruidores da sua caça, pesca e das suas reservas alimentares, tais como: a pupunha, o patauá, a castanha, o cacau, etc.

 

O precioso legado deixado pelo Marechal Rondon aos nossos bravos sertanistas, traduzido na frase célebre: “Morrer, se preciso for, matar, nunca”; foi inteiramente seguida pelos soldados e civis do 6° BEC, que seguindo seus belos ensinamentos, prestaram relevantes serviços à causa indígena.

 

Deixamos à Funai a missão da proteção e progressiva aculturação das tribos Waimiri-Atroari, após a BR-174 ser entregue ao tráfego e que ocorrerá no decorrer do ano de 1976, certo de que o ciclo de massacres e atrocidades por parte desses silvícolas, no passado se tenha encerrado.

 

Ten Cel Arruda

 

 

Solicito publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br



[1]    Éolo: deus dos ventos.

[2]    Epônimo: palavra que significa dar ou emprestar seu nome próprio a um evento, regime, invento...

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