Porto Velho (RO) quinta-feira, 12 de dezembro de 2019
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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

O Lado Negro do Cajari


O Lado Negro do Cajari - Gente de Opinião

 Bagé, 25.11.2019


Zé Júlio

 

José Júlio de Andrade nasceu em, 1862, no Município de São Francisco de Uruburetama, hoje Itapajé, CE. O Coronel José Júlio veio para a Amazônia, em 1879, e com apenas 17 anos no apogeu do ciclo da borracha e instalou-se na região do Jarí, em 1882, onde conseguiu, graças a tramoias políticas, dominar o comércio extrativista da região e transformar-se em um grande latifundiário tomando posse de uma área de aproximadamente 16.000 km2 que tinha como principal via de acesso o Rio Jari.

 

Revolta no Jari

 

O Encantado Vale do Jari

(Compositores: Aureliano Neck e Nonato Soledade)

 

Às margens do Rio

O Beiradão surgiu

Era gente de todo lugar

Querendo explorar

Num sistema de semiescravidão

Trabalhavam sempre devendo ao patrão

 

Zé Cesário vendo a situação

Liderou a revolta da região

Os índios com medo

Dos novos habitantes

Fugiram para matas distantes. [...]

 

Em 1928, os extrativistas revoltaram-se contra o Coronel, tomaram um barco e foram até Belém denunciar as péssimas condições de trabalho e os crimes praticados pelo Coronel José Júlio e seus capatazes. Relata-nos o historiador Lúcio Flávio Pinto:

 

A população de Belém só tomou conhecimento do inferno que era trabalhar no Jari quando dezenas de cearenses, liderados por Cesário Medeiros, sublevaram-se, tomaram um navio e obrigaram o dono da propriedade a aceitar a fuga em massa.

Chegaram a capital aliviados: haviam conseguido abandonar o cativeiro disfarçado nas terras do Coronel José Júlio de Andrade. (PINTO)

 

Estas denúncias só surtiram efeito quando, após a vitória do movimento de 1930, o Governo Federal nomeou Joaquim de Magalhães Cardoso Barata como interventor do Pará (novembro de 1930 a abril de 1934). O Tenente Barata determinou a prisão do Cel José Júlio que resolveu refugiar-se no Rio de Janeiro. Em 1948, Zé Júlio vendeu suas propriedades para um grupo de quatro comerciantes portugueses e um brasileiro, que deram continuidade ao sistema de extrativismo.

 

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O Ceará, n° 935

Fortaleza, CE – Domingo, 22.07.1928

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² A Escravidão dos Cearenses na Amazônia ²

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Nas Senzalas do Senador José Júlio ‒ Os Horrores do Jari ‒ A Revolta dos Escravos Brancos ‒ Um Escravo De Arumanduba Fala ao “O Ceará

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Através de transcrições dos nosso brilhante colega “O Estado do Pará”, que tivemos a oportunidade de publicar em mais de uma edição do “O Ceará”, já se acha o público ao par da revoltante escravidão em que viviam, no extremo norte, centenas de homens, em sua grande maioria cearenses. O que é mais doloroso nisso tudo é que o traficante de escravos nasceu no Ceará, terra da luz porque liderou com galhardia o movimento libertador. É ele o senador José Júlio, filho da riquíssima zona cearense de Uruburetama. Tendo partido muito moço para o Pará, ali fez grande fortuna, hoje calculada em cerca de 30 mil contos de réis sendo possuidor de numerosas propriedades em toda a região do Jari. Entre essas propriedades destacam-se, pelo seu valor produtivo, as seguintes, localizadas no município de Alenquer: Santa Isabel, [...]. Tendo conseguido esta fortuna à custa dos mais condenáveis expedientes, fazendo escravos os conterrâneos que buscavam as suas terras para ganhar a vida, o Senador José Júlio de Andrade tornou-se um político influente naquele Estado. Já conhecem os nossos leitores a revolta dos escravos do Jari, chefiado por José Cesário de Medeiros. Sabendo que chegara à Fortaleza um dos escravos do senador José Júlio procuramos ouvi-lo. Trata-se do sr. José Thomaz de Oliveira natural, de Mossoró, Rio Grande do Norte, com 37 anos de idade, solteiro, com a profissão de mecânico.

 

Estampamos, a seguir, a narrativa que nos fez José Thomaz.

 

Em 1924, veio para Fortaleza, em busca de trabalho, o que conseguiu e por isso demorou-se aqui até princípios do corrente ano, quando a sua situação financeira piorou. Em virtude disso, resolveu embarcar para a capital paraense, por saber que o norte ia nadar em ouro, em consequências dos serviços a serem iniciados pela grande empresa Ford.

 

Confiante na sua capacidade de trabalho, José Thomaz embarcou para Belém no dia 1° de fevereiro do corrente ano. Ali chegando foi hospedar-se na “Pensão Colômbia” tratando, desde logo, de obter informações sobre os serviços da empresa Ford. No dia imediato a sua chegada à capital paraense, travou conhecimento com Sebastião de tal, que lhe prometeu colocação na companhia Ford.

 

No dia 7 de fevereiro, juntamente com 36 cearenses, embarcou num “gaiola” com destino a Santarém, conforme as promessas de um tal Dudu, que era o contratante de homens para os trabalhos da Ford, como informara Sebastião de tal.

 

Logo que o “gaiola” começou a viagem, José Thomaz soube por um foguista que todos tinham sido iludidos e seguiam para Arumanduba, propriedade do Senador José Júlio, como escravos.

 

A começo não quis acreditar em se semelhante informação, mas ao chegar o navio em Arumanduba, ficou convencido da veracidade do que lhe haviam dito.

 

Naquela propriedade foram recebidos por Duca que, a primeira vista, mostra ser um homem despido de qualquer sentimento bom.

 

O senador José Júlio encontrava-se em Arumanduba e recebeu com alegria os seus novos escravos. Os cearenses foram enviados para outras propriedades porque Duca, declarou preferi-los para serviços mais pesados por serem mais trabalhadores.

 

José Thomaz ficou ali, como mecânico. Desde o começo, teve ciência do sistema de escravidão adotado nas propriedades do ricaço senador e viu logo que o regime da peia era um fato.

 

Poucos dias demorou José Thomaz nos serviços de mecânica, executados, aliás, numa bem montada oficina. Duca retirou-o dali, passando-o para o trabalho no trapiche, onde trabalhava de 3 horas da madrugada, às 10 horas da noite, com meia hora para cada uma das refeições. Depois de alguns dias desse exaustivo trabalho, José Thomaz reclamou a Duca contra esse absurdo, sendo, então, ameaçado de peia.

 

No dia seguinte, como um aviso, assistiu formidáveis surras aplicadas em dois homens, que ficaram no chão como mortos. Diante disso, José Thomaz procurou o senador José Júlio, a quem comunicou o seu desejo de regressar à Belém. O senador prometeu atende-lo, mas não deu o menor passo nesse sentido.

 

A situação era essa, quando em companhia de outra leva, passou em Arumanduba José Cesário de Medeiros, natural de Caicó, Rio Grande do Norte, que se destinava ao Jari. José Thomaz, que já conhecia Cesário, informou-o do que se passava. Cesário declarou que ia ver a coisa de perto e que se não se modificasse a situação, tentaria dar um jeito para melhorá-la. Nessa ocasião Cesário declarou que estava disposto a arriscar a vida, para não ficar como escravo.

 

Cesário falava de modo tão enérgico, que José Thomaz viu renascer a esperança de, dentro de pouco tempo, livrar-se, com os seus companheiros, do cativeiro mais aviltante.

 

Em Arumanduba, como nas outras propriedades, onde o espírito de revolta já dominava a todos, faltando apenas um homem que tivesse a coragem, de chefiar o movimento, a situação piorou consideravelmente. Os dirigentes dos serviços, notando o que se passava, pretenderam dominar o estado de coisas com maiores violências. Os castigos corporais redobraram, as perseguições de toda sorte amiudaram-se. Os homens eram separados das suas esposas, enviadas para lugares ignorados, as mocinhas eram sequestradas pelos “ducas” e assim por diante.

 

Em Jari, depois de mil sofrimentos, Cesário, arrostando contra todos os perigos, preparou a revolta, designando o dia 13 de maio último para o levante geral.

 

Naquele dia, com meia dúzia de companheiros, Cesário deu o brado de revolta e agiu com tanta energia, com tal desassombro que, dentro de poucos momentos, contava com a adesão de 358 homens. Depois de haver aprisionado os dirigentes do serviço no Jari, não consentindo que os mesmos fossem violentados pelos amotinados, apoderou-se de um vapor.

 

Armou todo o pessoal e seguiu viagem com destino a Belém, fazendo parada nas outras propriedades do senador José Júlio, nas quais ia dando liberdade aos escravos.

 

O navio que conduzia os revoltosos chegou em Arumanduba pelas 2 horas da madrugada, com luzes apagadas. Cesário desembarcou à frente de 200 homens devidamente armados e cercou as casas do senador José Júlio, de Duca e outros.

 

Todo o pessoal de Arumanduba saiu de suas barracas, ouvindo, então, a palavra de Cesário, que oferecia a liberdade a todos. Não houve empregado que não aderisse ao movimento. O barulho provocado pela aglomeração de tanta gente acordou o senador, que se entendeu com Cesário, tratando-o carinhosamente.

 

Com o fim de conquistar as simpatias do chefe do movimento libertador, o senador José Júlio fez mil ofertas a Cesário, entre as quais se destacavam a de dar-lhe 100 contos de réis em dinheiro e a direção geral de todas as suas propriedades.

 

Cesário, com altivez e no meio dos aplausos de todos os companheiros, repeliu energicamente as propostas, exigindo porém do senador José Júlio a importância de 250 contos de réis, quantia que calculava suficiente para indenizar o saldo de todos os trabalhadores.

 

O senador José Júlio, alegando não possuir aquela importância em Arumanduba, pediu a Cesário que esperasse o amanhecer do dia.

 

O chefe da revolta acedeu a esse pedido, garantindo. Também, que nenhuma danificação sofreriam as propriedades do algoz dos revoltados. Apenas a estação radiográfica de Arumanduba seria destruída, a fim de que o senador não pudesse armar uma cilada. Quase imediatamente, a referida estação radiográfica foi totalmente arrasada.

 

Ao amanhecer o dia, o senador José Júlio comunicou a Cesário que ia tomar as providências necessárias para os duzentos e cinquenta contos serem pagos ao pessoal em Belém, visto não haver reunido aquela quantia em Arumanduba. Em consequência disso, Cesário resolveu partir imediatamente, levando Ducha prisioneiro, como garantia do pagamento.

 

Como o navio em que viera do Jari não comportava todas as pessoas, homens, mulheres e crianças, que já se elevava a cerca de 900, Cesário apoderou-se de um navio maior, o “Cidade de Alenquer”, também de propriedade do senador José Júlio e que se achava em Arumanduba.

 

Em seguida, depois de haver embarcado todo o pessoal com a maior ordem, Cesário fez o “Cidade de Alenquer” rumar para Belém.

 

Ao passar o navio em “Jararaca”, todos a bordo notaram que o aviso de guerra “Ajuricaba”, começara a segui-lo.

 

Sempre acompanhado pelo “Ajuricaba”, o “Cidade de Alenquer” seguiu até Belém, onde, antes de entrar no porto, foi abordado por uma lancha da Polícia Marítima.

 

As autoridades foram a bordo, ouvindo as explicações de Cesário.

 

Depois de muitas delongas, foi ordenado o desembarque do pessoal, sendo todas as pessoas abrigadas no prédio do antigo quartel de polícia.

 

Durante alguns dias, o senador José Júlio mandou fornecer parca alimentação aos escravos do Jari, mas depois suspendeu, passando todos a serem socorridos pela caridade pública.

 

O senador José Júlio é político influente e, por isso, o governo cruzou os braços diante de tão grave situação.

 

Mais de vinte advogados do Foro de Belém foram procurados para defender a causa dos escravizados, visto como o senador José Júlio recusou a pagar os 250 contos de saldo dos seus escravos.

 

Afinal, por intermédio da classe estudantil, o ilustre advogado Dr. Pedro Guariba tomou a si a defesa daqueles infelizes. Muitos deles já se retiraram de Belém, mas a ação de indenização no Foro da capital paraense corre os tramites legais. (O CEARÁ, N° 935)

 

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Diário Carioca, n° 7

Rio de Janeiro, RJ – Terça-feira, 24.07.1928

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² A Emigração Forçada dos Trabalhadores do Extremo Norte ²

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Um Libelo Candente do Sr. Azevedo Lima, na Câmara, Contra o “Regimen” de Servidão nas Fazendas da Amazônia

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O deputado Azevedo Lima comentou, ontem, o êxodo de trabalhadores, do extremo norte, revoltados contra o “regimen” de exploração do trabalho, ali dominante. Damos aqui as tópicos principais do veemente discurso do deputado carioca:

 

Declara que tem recebido, nestes últimos dias, do extremo norte, do País, simultaneamente, cartas e jornais em que se, descrevem os horrores, verdadeiramente dantescos, sofridos nos cafundós do Jari, de Arumanduba, no baixo Amazonas, Estado do Pará, pelos trabalhadores dos feudos dos senadores estaduais José Júlio, José Porphírio e coronel Pereira Brasil. Essas notícias, profundamente pungentes, chegaram pelos últimos vapores do norte e deixam perceber que o desembarque dos trabalhadores, a 5 de julho último, de bordo do “Cidade de Alenquer”, na capital do Pará, se realizou em condições do tal modo impressionantes que provocou um arrepio de sensibilidade na população de Belém.

 

Nada menos de 787 trabalhadores, com as suas famílias, dirigidos por um caboclo do Rio Grande do Norte, cujo nome justo é um que fique estampado nos anais da Câmara ‒ Cesário Medeiros, vieram corridos dos sertões do Pará, das terras e latifúndios de políticos do Estado, onde se entregavam ao penosa labor da extração da borracha e da colheita das castanhais, enxotados pela necessidade, pela miséria, pela fome e pelo chicote dos feitores dos políticos estaduais, que são, ao mesmo tempo, grandes proprietários de latifúndios e exploradores desumanos do trabalho alheio. Transparece nos depoimentos dos emigrados a súmula dos mais cruciantes sofrimentos que nem nos séculos da escravidão suportaram os negros e silvícolas brasileiros.

 

O sr. Pedro Borges aparteia, declarando que não conhece o senador José Júlio, mas que o sr. José Porphyrio é um homem honesto, probo e trabalhador. Faz outros elogios a esse político. Prossegue o sr. Azevedo Lima. Diz que não conhece as pessoas dos caciques estaduais ou dos organizadores dessa verdadeira escravidão nacional, aos quais se deve aquela cena tétrica da emigração forçada de trabalhadores brasileiros.

 

O que sabe pelos jornais, principalmente pelo “Estado do Pará”, e por cartas absolutamente fidedignas, que recebeu diretamente, é que esse espetáculo produzido em Belém, pela deserção em massa de 787 trabalhadores, desnutridos, envenenados pelos piuns, seviciados pelo tagante dos roedores ou dos capatazes, combalidos pela enfermidade e pela miséria, não é espetáculo singular nas regiões do nordeste ou do norte do Brasil. O que se verificou nestas legiões de escravos em êxodo, é uma síntese, apenas, do trágico sofrimento de trabalhadores nacionais ou estrangeiros, experimentados nos seringais, nos castanhais, nas terras em que se explora o coco babaçu, nas zonas do cacau, nas garimpos de Goiás, e, até mesmo, nas fazendas de café nos Estados de São Paulo e das Minas Gerais. Ainda não há muito tempo...

 

Continua o sr. Azevedo Lima.

 

Atendendo aos reclamos de vários trabalhadores de fazendas do café, em S. Paulo, tive ensejo de exibir contas de pagamento e cadernetas de colonos de Sertãozinho, onde se verificou que, ao cabo do 5 ou 6 longos anos de trabalho, os italianos, iludidos pela propaganda falaz da lavoura brasileira nas metrópoles da Europa, ainda não haviam recebido um único vintém do salário, pois tudo que deviam ter ganho à força de trabalho se tinha consumido com a aquisição de víveres, de gêneros alimentícios e com a própria instalação da família nas plagas brasileiras.

 

Os nacionalistas, os falsos patriotas, os que vivem enganando a opinião pública, no Brasil e no estrangeiro, procurando fazer crer que essa terra é edênica ou paradisíaca, se não cuidam, devidamente da felicidade dos estrangeiros para aqui atraídos pela cobiça dos latifundiários, deviam, ao menos, volver seus olhos piedosos para os pobres patrícios nordestinos, que, tangidos pelas calamidades periódicas das secas, vão buscar a desgraça irremediável nas novas senzalas da Amazônia, nas terras inóspitas do Pará, do Amazonas e do Acre. A exploração crudelíssima do trabalho, de conformidade com o “regimem” agrário que frisa pela brutalidade horrorosa do feudalismo, desde o método de recrutamento desses nossos patrícios nas cidades assoladas pelas secas até o sistema de exploração de seu trabalho, em pleno sertão, onde domina o baraço ([1]) do senhor e onde se exerce a justiça senhorial, dá aos brasileiros cultos a impressão de que o País ainda não atingiu o grau de civilização industrial contra o qual já se queixam até os sociólogos e os filantropos da velha Europa.

 

Passa o deputado carioca a criticar os parlamentares que tem negado a existência da questão social, da luta de classes no Brasil:

 

Como se fosse possível banir do nosso movimento político um fenômeno inerente a todas as formas de governo, a todos os estados da civilização. O que nos depara, ao contrário, no Brasil, é a forma rudimentar, primária, de exploração de trabalho; é a opressão sistemática, é o desconhecimento completo dos direitos do cidadão, é o esquecimento, é a relegação ao desprezo de todos os sentimentos de solidariedade humana.

 

Depois de outras considerações, diz sr. Azevedo Lima fazer questão de que se consigne nos anais da Câmara, pela sua voz:

 

Um protesto veemente contra a situação a que se expuseram os trabalhadores nacionais e que se desminta peremptoriamente, de uma vez por todas, o boato assoalhado por alguns membros, senão ingênuos, pelo menos simplórios da Câmara dos Deputados, para os quais não existe a questão social no Brasil, a cujo entender não passa a luta de classes de simples ficção de demagogos e exploradores da opinião pública.

 

A fuga dos escravos do Jari é um paradigma da situação social dos trabalhadores nacionais, tão torturados pelo agrarismo brasileiro como os “coolies” chineses nas feitoria do Imperialismo europeu. O Brasil precisa conhecê-lo. Enquanto os deputados das zonas agrárias da Federação não se propuserem à benemérita missão de revelar, também, os sofrimentos, a miséria, a penúria e a lazeira de seus concidadãos explorados pela forma mais selvagem de um “regimem” agrário primitivo, ficará o fenômeno do Jari, figurando nos “Anais” da Câmara, como atestado vivo da nossa incapacidade administrativa, como prova completa da impossibilidade de se conciliarem os interesses dos latifundiários feudais com os elevados interesses da liberdade humana. E diga-se, pela voz dos sociólogos de bobagem, que não existe a luta de classes entre a massa brutalizada dos trabalhadores do sertão e os ricos senhores medievais dos cafundós do Amazonas! (DIÁRIO CARIOCA, N° 7)

 

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A Manhã, n° 808

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Rio de Janeiro, RS – Quarta-feira, 01.08.1928

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² O Inferno Verde do Rio Jari ²

Comprando Jornais e Emprestando Dinheiro
ao Governo Paraense, o Senador José Júlio Obtém o Privilégio de Manter
a Escravidão em seus Domínios

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O gesto de independente altivez daquele caboclo Cesário de Medeiros, arrancando, dos domínios do senador José Júlio, 737 companheiros, e reconduzindo-os a liberdade, sem, ter, nem consentir que qualquer desses homens tivesse, um movimento do vindita contra seus antigos algozes, é do uma beleza moral absoluta. José Júlio e seu estado-maior, acovardados ante o número dos sublevados, comandados pôr Cesário Medeiros, rogaram que os não matassem, e, não obstante serem autores de um sem número de assassínios, suas vidas foram poupadas. Logo, porém, que se viram livres do risco próximo voltaram à pratica dos mesmos crimes, de sempre, em seu vasto feudo doa rios Jari e Cajari, onde não entra ninguém de fora, e de onde não sai ninguém que lá entra. Basta dizer-se que o serviço de capitania dos portos fluviais desses dois rios é superintendido por um tal Raymundo Neno, primo de “Duca”, o terrível lugar-tenente de José Júlio. Simples aparelho nas mãos do Senador e de sua gente, Raymundo Neno retira de bordo dos navios os homens com quem os capitães dos navios não simpatizam, e manda-os para o cativeiro.

 

Mas, mais grave que tudo isso, é o fato seguinte: o navio “Cidade de Alenquer”, em que Cesário Medeiros e sua gente desceram para Belém, de volta ao Jari, só pode subir até ao lugar chamado São Francisco da Jararaca, sobre o Muauá. Ali, sem que a Capitania do Porto do Pará tivesse a mínima audiência no caso, o comandante do “Cidade de Alenquer” “cambou” ([2]) sua tripulação para o “Sobral”, que ali se achava de descida, e inteiramente tripulado por escravos do senador José Júlio.

 

A tripulação de escravos foi por sua vez “cambada” para o “Cidade de Alenquer”, e voltava aos domínios de seu amo, enquanto que o “Sobral”, tripulado pelo comandante Carmo e pelos homens de sua equipagem, descia a Belém sem que a Capitania do Porto procurasse, sequer, saber dessa irregularidade, e ainda menos puni-la. O poderio do José Júlio no Estado é enorme. Com o dinheiro tirado do monopólio da escravidão no Brasil, José Júlio tem enriquecido fabulosamente e enriquece cada vez mais, sendo presentemente dono das seguintos propriedades, todas no Município de Alenquer: Cajueiro, Arumanduba, Santa Isabel [...]. Com todo esse dinheiro José Júlio compra jornais, como se deu com o “Correio do Pará”, que ele adquiriu para dar de presente ao partido dominante, no Estado, e com a “Folha do Norte”, a cujos diretores “empresta-deu”, como se diz em gíria, duzentos contos do réis. Ao próprio Estado, o senador escravocrata tem emprestado grandes fortunas, e graças a isso é tão governo como o Sr. Dionysio Bentes, a cuja solidariedade deve todos os serviços de que carece sua gente para praticar no Jari, os crimes que deseja sem sofrer qualquer punição. E mais; é o próprio Cesário de Medeiros quem conta:

 

Chegamos a Arumanduba na madrugada do 3 do corrente. Desembarquei com alguns homens, e com eles, tomei a povoação, cercando a casa de “Duca”, a quem intimamos a levar-nos à presença do senador. Uma vez na presença daquele senhor relatei-lhe tudo o que se passava, contei-lhe os sofrimentos e os maus tratos que sofríamos, aos quais, estou certo, não é estranho. Depois pedi-lhe 20 contos para distribuir entre os retirantes. O senador lamentou que tivéssemos tomado tal atitude e pediu que voltássemos ao trabalho, prometendo providenciar, porém, diante das nossas afirmativas do propósito em que estávamos em vir para Belém, ofereceu, 15 contos.

 

Entretanto não nos deu essa importância, entregando a “Duca” uma quantia em moedas de níquel e prata, que disse ser quinze contos. Desse dinheiro tirei 200$000' que dei a uma viúva. Antes, porém, de entregar a “Duda” aquela importância pediu-me para que deixasse ali todos os meus companheiros, oferecendo-me dinheiro, que eu pedisse e o lugar de gerente dos negócios no Jari. Recusei a proposta e, dirigindo-me ao pessoal, disse-lhes: Quem quiser ficar, desembarque. Porém ninguém quis faze-lo. Assim, naquele dia, partimos para Belém no vapor. “Sobralense” que nos foi oferecido pelo senador, por oferecer mais conforto que o “Almeirlin”, devido ao seu tamanho.

 

Pois bem, Dionysio Bentes, ao ver chegar ao Pará o administrador “Duca”, que embarcou como estava em Arumanduba, de chinelos, casaco do pijama e chapéu do carnaubeira, não conseguiu que ele entregasse aos sublevados o dinheiro que trazia para distribuir por eles, não obstante JÁ HAVEREM PERECIDO DE FOME, nas ruas de Belém várias mulheres e crianças. E no dia da partida do “Duca”, levando de volta para o Jari os quinze contos do senador José Júlio, Dionysio Bentes pôs na rua, sem lar e sem pão, os poucos desgraçados que ainda tinham abrigo por conta do Estado. (A MANHÃ, N° 808)

 

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O Combate, n° 1.024

São Luis, MA – Sexta-feira, 03.08.1928

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² As Violências Políticas ²

O Combate", Visitado Pelo sr. José Cesário de Medeiros, Ouve a sua Narrativa Sobre as Violências de um Chefe Político Paraense o Sobre o Povo da Comarca de seu Domínio

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Com a calma peculiar às almas nobres, Cesário de Medeiros relatou-nos que, residindo no lugar Cachoeira, sob o domínio da comarca de Almerim, revoltado com as violências e os crimes do pessoal chefiado pelo senador José Júlio de Andrade, foi, a pouco e pouco, levantando o espírito do povo daquela vila, até conseguir um número regular de homens destemidos a fim de tentar uma justa revanche contra tão absurdas arbitrariedades.

 

Ainda em Cachoeira, prendeu quatro chefes obedientes ao famigerado senador, que ali executavam, friamente, as violências e os crimes que se praticavam em toda a comarca. De Cachoeira, acompanhado de quase toda a sua população, Cesário, seguiu, dias depois, quando houve viagem para descer o rio Jari, rumo de Arumanduba, quartel-general do senador José Júlio. Ai chegado, com o povo que levara e mais as adesões inúmeras que foi merecendo, procurou um entendimento direto com o algoz de toda aquela zona e seu alter-ego, um seu cunhado de nome Duca, homem de péssimos instintos, que diretamente transmitia e fazia executar toda a série de atos desumanos que escravizava o pobre povo de toda aquela zona.

 

Cesário intimou-os, corajosamente, a deixarem de tais violências, que há muito vinham impondo à população de toda Almerim. Disse-lhes mais que, testemunha ocular de tantos e tão bárbaros crimes praticados, impunha, desde logo, o retroceder de tantas ignominias. Ao mesmo tempo que assim exigia, prendeu, sem usar de violências, todos os partidários de José Júlio, na vila da sua própria residencia e quartel general, impondo a esse novo Nero, que, sem força e decerto acossado pela sua própria consciência, não teve coragem para reagir, nem o seu cunhado Duca, contra a atitude desassombrada daquele sertanejo altivo, corajoso e disposto a vencer ou morrer, na defesa da liberdade de tantas centenas de patrícios seus, vítimas de tantas violências e crimes. Conferenciando com o senador, este prometeu a Cesário, considerável fortuna e posição de seu imediato, em toda a Comarca, para isso abandonando, o nobre libertador, a sua atitude contra o seu domínio. A despeito de tão grandes ofertas.

 

Cesário, de fronte erguida, desprezou-as, dizendo que somente a liberdade do povo, de todos aqueles lugarejos, ele almejava, no momento, custasse isso o sacrifício da sua própria vida. O povo, que acompanhava o seu libertador, formava já uma legião numerosa, investia, querendo, à viva força, castigar o Nero e seus comparsas. E seria justo tal procedimento! Cesário, no entanto, diante da covardia demonstrada pelo senador tirano, foi generoso e não deixou que lhe dessem a lição tão merecida.

 

Por sua vez, o algoz de tantas violências, apelou para os bons ofícios de Cesário, pedindo-lhe garantias de vida. Suprema covardia! O destemido sertanejo, então, respondeu que, apesar de todos os seus crimes, ele ficasse descansado, pois nenhum de sua malta de criminosos, sofreria castigo, pois que ele e o povo ordeiro que o acompanhava somente queriam a liberdade naquelas plagas, onde todos viviam sob violências e sujeitos à crimes horríveis.

 

Continuando a sua sublime cruzada, Cesário intimou o comandante do gaiola “Cidade de Alenquer”, a transportar ele e as vítimas do senador, assumindo, assim, o comando de fato desse vapor. Rumou, então, até Belém, esse destemeroso homem de tão nobres sentimentos, levando consigo, preso, o famoso Duca, o cunhado e alter-ego do senador José Júlio e, também, todas aquelas vítimas salvas pela sua indômita coragem, tantas quantas coube no gaiola em que viajavam. Antes de sair de Arumanduba, o Nero da comarca de Almerim disse a Cesário que, para pagar os males de que era acusado, seu cunhado Duca levaria ordem franca para, em Belém, distribuir às suas vítimas, dinheiro necessário para o seu sustento. Deslavada mentira, a do violento senador, pois nem um real, em Belém, foi dispendido, sendo esse processo apenas um engodo do momento, determinado pela sua covardia.

 

Antes de partir, Cesário recebeu pedidos insistentes de José Júlio, no sentido de dar a liberdade ao Duca, pelo que pagaria soma fabulosa. A resposta recebida foi a de que, com a liberdade de Duca, seguiria consigo, então, o próprio José Júlio. Tanto bastou para que o covarde chefe político de Almerim, recuasse da tentativa de salvar o seu feroz ajudante de ordens.

 

Nos domínios do sr. José Júlio, disse-nos Cesário, na sua atuação violenta, o povo de toda aquela zona sofria, há dezenas de anos, os maiores rigores. A maioria da população, tão miserável vivia, que nem ao menos conhecia o dinheiro do seu País; não o conhecia porque jamais pode, com o trabalho, ganha-lo, pois a política de, José Júlio a tudo monopolizara.

 

As violências, eram as mais desumanas que que se possam conceber! E, no entanto, devido ao coração generoso de um rústico, de alma grande e sentimentos nobres, esse Nero falsificado não sofreu um castigo que bem merecera.

 

Cesário foi, inegavelmente, um verdadeiro enviado do poder supremo, na salvação de um povo escravizado e violentado pela política malsã e criminosa. E o que mais se admira nesse intemerato sertanejo é o ter vencido situação tão perigosa, sem violência, só pelo prestígio de sua coragem e valor da gente de que se soube cercar.

 

Chegando em Belém, Cesário procurou as autoridades competentes, relatando todos os fatos. Nenhuma providência legal contra os criminosos foi tomada, pois o senador José Júlio é político de prestígio. Duca, foi posto em liberdade e voltou para os domínios de seu feroz cunhado.

 

Felizmente, as inúmeras vítimas levadas até Belém por Cesário conseguiram não voltar aos, domínios de seu algoz, porque a isso se opuseram o próprio governador do Estado o seu chefe de polícia e o digno Capitão dos Portos, no Pará.

 

Eis os fatos que nos foram relatados por Cesário, homem honrado e pobre, que, para poder, agora, ir até Natal visitar sua família, sem meios e sem esperanças, encontrou a mão amiga e desinteressada do conceituado comerciante de Belém, sr. Francisco F. Coelho, que lhe proporcionou, numa espontaneidade absoluta, os meios dessa viagem e os recursos necessários para uma apresentação capaz, ao salvador da população da comarca de Almerim.

 

Eis, em rápido resumo, mais um atestado da política de violência que nos domina e nos faz relembrar os crimes que, entre nós, nos tempos que hoje correm, se praticam canibalescamente no nosso sertão, como os de Grajaú, Bacabal e outros. (O COMBATE, N° 1.024)

 

Fontes:

 

A MANHÃ, N° 808. O Inferno Verde do Rio Jari ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ A Manhã, n° 808, 01.08.1928.

 

DIÁRIO CARIOCA, N° 7. A Emigração Forçada dos Trabalhadores do Extremo Norte ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Diário Carioca, n° 7, 24.07.1928.

 

O CEARÁ, N° 935. A Escravidão dos Cearenses na Amazônia ‒ Brasil ‒ Fortaleza, CE ‒ O Ceará, n° 935, 22.07.1928.

 

O COMBATE, N° 1.024. As Violências Políticas ‒ Brasil ‒ São Luís, MA ‒ O Combate, n° 1.024, 03.08.1928.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·      Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·      Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·      Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·      Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·      Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·      Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·      Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·      Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·      Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·      Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·      Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·      Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·      Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·      E-mail: hiramrsilva@gmail.com.



[1]    Baraço: corda para enforcar.

[2]    Cambou: trocou.

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