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Hiram Reis e Silva

Mulheres Guerreiras – Parte VIII - Antônia (Jovita) Alves Feitosa (V)


Mulheres Guerreiras – Parte VIII - Antônia (Jovita) Alves Feitosa (V) - Gente de Opinião

Bagé, 13.05.2020

 

 

 

Semanário Maranhense n° 23

São Luís, MA – Domingo, 02.02.1868

 

Jovita

(Continuação do n° 21, Páginas 03 a 05 )

 

III

 

Jovita, remetendo seu filho a Alfredo d’Almada, conduzira tudo quanto possuía, e guiando sua mãe, no estado em que estava, fugiu do lugar sem que se soubesse para onde!

 

Andara toda noite e no dia seguinte quando ela e sua mãe chegaram a um povoado aí descansaram alguns dias para seguirem só, no caminho da vida berrante! Nesse lugar a mãe de Jovita fora atacada de febres que aumentaram de dia para dia em sua intensidade, levando-a a sepultura.

 

Jovita ficara isolada no mundo. No enterro de sua mãe ouviu falar em voluntários que iam bater os inimigos da Pátria. Os paraguaios invadiam o território do Brazil e barbaramente assassinavam as famílias que encontravam, provocando o povo à vingança justa, e a punição merecida.

 

O espírito de Jovita, abalado pelas diversas desgraças, que na mocidade surgiram-lhe, inclinou-se para a Pátria, e seu coração, como que despertando no meio de seu peito gelado, erguia-se alteroso pulsando animado pela Pátria ultrajada, que invocava de seus filhos à mais santa das vinganças.

 

Como se o dedo de Deus a tivesse indigitado, a mulher fez-se heroína; despiu os hábitos do seu sexo, e envergou as roupas de soldado, que deviam levá-la à glória ou à morte.

 

Foi assim que Jovita apresentou-se ao governo, disfarçada, com arte, em “Voluntário da Pátria”.

 

Com os cabelos cortados, e não tendo as orelhas furadas, comprimindo os seios e disfarçando as formas de mulher, soube iludir os recrutadores, e marcharia como homem, se, no mercado, as mulheres curiosas, não desconfiassem que, os contornos do voluntário eram arredondados e cheios como não são os dos homens, e esta suspeita cresceu, tomou vulto e chegou ao Palácio.

 

Ali a verdade foi patente, mas a mulher já era “Voluntária da Pátria”! Tendo sido Jovita alistada no Corpo de Voluntários, o Presidente, que acabou por aceder aos rogos da mulher-soldado, deixou-a seguir como ela ambicionava.

 

Jovita andava de calças brancas, botinas de couro preto, saiote de lã escarlate com corpete de pano azul, finalizando com gravata de polimento. Um talim sustentando uma espada e a patrona ([1]), com destino aos cartuxos, era o correame que lhe apertava a cintura e completava o uniforme.

 

Com este fardamento misto, marchou a nova Joanna d’Arc, sendo no Maranhão muito festejada, em sua passagem para o Rio de Janeiro. Jovita recebera aplausos e mimos, e à tudo ela mostrava-se indiferente, como se maiores glórias a esperasse.

 

Em Pernambuco foi laureada, apresentada como heroína e assim festejada chegou ao Rio de Janeiro, aonde a sua fama a havia precedido, para preparar-lhe uma recepção condigna dela.

 

Jovita era disputada pelos fotógrafos, como um fruto de perene riqueza, porque a sua celebridade garantia a pronta venda de retratos da “Voluntaria da Pátria”, da heroína brasileira. Por onde Jovita passava atraía a atenção pública. A tudo era ela indiferente! De quando em vez, seus olhos lagrimavam de saudade do filho, que enjeitara do seu coração de mãe!

 

A Junta Militar julgou Jovita incapaz para o serviço da Guerra, mas no caso de prestar relevantes serviços nos hospitais de sangue. Jovita empenhou-se para marchar e ir bater-se com os inimigos da Pátria, atestou robustez, agilidade no jogo das armas e coragem no momento do perigo, porém não conseguia abrir exemplas de mulheres tomarem parte nas lutas dos homens. Desatendida pelo Governo Imperial, a pobre mulher obteve a baixa, e reassumiram os vestidos e as saias o lugar que as calças haviam usurpado por algum tempo.

 

O público de tudo informado mostrou-se pródigo com a ex-Voluntária; benefícios nos teatros, grandes e valiosos mimos, enriqueceram a pobre Jovita, que, reunindo algum pecúlio, regressou ao Piauí, para trazer ao filho o fruto de sua gloriosa resolução. A sorte de seu filho a incomodava, depois que vira Alfredo d’Almada perdido para ela.

 

Jovita voltou ao Norte. No Piauí indagou pelo Sr. Roberto d’Almada e foi ter com ele. Sem ser conhecida pelo velho foi ela recebida:

 

‒     O Sr. Almada?

 

Disse Jovita.

 

‒     Sou eu mesmo, senhora, o que determina de mim?

 

‒     Trago notícias de seu filho.

 

‒     Veio da corte?

 

‒     Vim do Maranhão, mas cheguei ali a pouco tempo, de tornar viagem do Rio de Janeiro.

 

‒     Ah! viu meu filho? Ele estava bom, não é verdade?

 

‒     Não vi seu filho... Mas sou portadora de uma carta.

 

A carta era de um amigo de Roberto d’Almada, que trêmulo e sôfrego leu o seguinte:

 

Amigo Almada. É com pesar que lhe comunico um triste sucesso. Vítima de uma congestão pulmonar, faleceu no hospital de Corrientes seu filho Alfredo que...

 

O velho deixou cair a carta e seus olhos eram duas torrentes de lágrimas, enquanto Jovita, de pé, com os braços cruzados sobre o peito, parecia a estátua do aniquilamento! O velho Almada caiu em sua poltrona e Jovita o consolou com palavras misericordiosas e cheias de religião.

 

‒     Seu filho morreu, mas legou-vos um filhinho não é assim?

 

‒     Sim, ele já havia partido quando recebi uma criança, que, dizia-me sua mãe ser filho de meu filho.

 

‒     E aonde está essa criança?

 

O velho esgueirou-se e apontou para o céu:

 

‒     Ali!

 

Jovita deu um grito agudo e doloroso e caiu de joelhos aos pés do velho, que ela há pouco consolava.

 

‒     E quem és tu que assim gemes, soluças e choras de joelhos a meus pés?

 

‒     Quem sou eu? Já não vos disse esta dor que sofro? Sou...

 

‒     Acaba!

 

‒     Jovita?

 

‒     Jovita!

 

Repetiu o velho, caindo de novo na poltrona, enquanto a desventurada mãe fugia como um raio, levando a dor e a desesperação no coração.

 

IV

 

Já não era Jovita a “Voluntaria da Pátria”, a heroína brasileira, que regressou do Piauí ao Maranhão e do Maranhão seguia com destino à Corte do Império, não; era a mulher cansada de sofrer, já sem esperança, sem alento, sem amor enfim! Era a mulher entregue a vida reprovada, descrendo de tudo e só tratando de disfarçar, por entre o rebuliço do mundo, as mágoas que carpia no recanto de sua triste habitação! Ela afagava nas delícias da volúpia seus infortúnios do passado. Sem pai, mãe e filho e possuindo meios que a beneficência da Corte lhe proporcionavam, facilmente encontrou amigas do que era seu, que com ela gastavam largamente.

 

O luxo fez, parte de sua vaidade feminina, e os meios de o sustentar eram dispendiosos. Jovita maquinalmente gastava o que tinha! Seu coração não batia no peito, alterado pelo prazer de gozar deliciosos momentos, invejados de suas companheiras de erro!

 

Fraca e tímida como mulher, embora corajosa e audaz como “Voluntaria da Pátria”, ela era como essas flores que vivem ao ardor do Sol, mas que no fim da noite murcham e morrem.

 

Entrou Jovita na Corte mais pobre do que havia saído, e abatida pela vida irregular que escolhera e adotara. Na Corte, foi a Voluntária de outrora, morar em um prédio à rua das Mangueiras, e sua casa enchia-se de admiradores e apaixonados.

 

Entre eles um inglês de nome Guilherme Noot, engenheiro da Companhia “City Improvements”, que morava com seus companheiros na casa da Praia do Russell, maiores provas lhe dava de amor!

 

Os não equívocos sinais de amor britânico, que o filho de Albion dava a ex-Voluntária, despertou no coração de Jovita esse sentimento divino, que pela primeira vez ela experimentou no peito!

 

Foi Noot quem soube tocar na corda sensível daquela alma, incompreensível para as paixões amorosas, que só para sofrer e chorar tinha sido formada!

 

O amor por Noot cresceu, no coração de Jovita, e, como primeiro amor, ele era cheio de encantos, e de inexplicável doçura! A paixão acendida no peito da mulher heroína, era ateada todos os dias com cartas amorosas, que Noot dirigia à sua amada, ou com as expressões de ternura que em sua companhia prodigalizava-lhe.

 

Guilherme Noot, se não amava a Jovita, queria possuir a mulher célebre. Os gozos de uma paixão não sancionada pelas leis do himeneu, são a mais das vezes efêmeros, se não falsos. Contudo, Jovita fruía as delícias do amor, que em seu coração germinara, e ela erguera altares no peito para eterna devoção. Sem importar-se do futuro, esquecendo-se do passado, ela só curava do presente, risonho o feliz, que Deus lhe estava concedendo...

 

Quem nasceu para a desgraça debalde luta com o destino, para escapar ao rigor terrível de sua sorte! Jovita nascera predestinada por Deus para o infortúnio!

 

Um belo dia, 06.10.1867, Jovita recebeu de Noot, um bilhete em inglês, e não o sabendo traduzir, julgou ser mais um, igual aos muitos, que dele sempre recebia, cheios de protestos de amor, e dando-lhe esperanças de eterna felicidade.

 

‒     Ele me há de traduzir o que escreveu.

 

Dizia Jovita a uma companheira, que morava com ela, e esperou pelo amante sem que nesse dia ele aparecesse.

No dia seguinte Noot ainda faltara a ir à casa de Jovita, e no dia 9, uma amiga da ex-Voluntária entrou-lhe em casa:

 

‒     Então, minha amiga, ele deixou-te?

 

‒     Ele! Quem? disse Jovita espantada.

 

‒     O Senhor Noot.

 

‒     Talvez.

 

Respondeu Jovita já incomodada.

 

‒     Mas porque me dizes isto?

 

‒     Porque ele seguiu para Inglaterra, no vapor que saiu anteontem.

 

‒     Não é possível. Anteontem escreveu-me ele... aqui tens o seu bilhete. É verdade que está escrito em inglês e eu não sei ler o inglês...

 

‒     Pois, minha cara, o senhor Noot partiu no vapor “Oneida”, e este bilhete é o de sua despedida.

 

Jovita estava alterada bastante, e os sinais de sua dor estampavam-se-lhe nas faces.

 

‒     Talvez não seja verdade.

 

Tornou a mensageira da má nova, vendo o estado aflitivo em que Jovita se achava.

 

‒     Eu saberei tudo, tudo...

 

Jovita mandou chamar um carro de aluguel, e vestida com todo o esmero, meteu-se no carro e disse ao cocheiro:

 

‒     A praia do Russell casa n° 43.

 

O carro partiu, e parou à porta da casa indicada por Jovita.

 

V

 

Jovita entrou na casa que Noot habitara e encontrou a criada dos companheiros de Guilherme:

 

‒     O Sr. Noot?

 

Interrogou ela.

 

‒     O Sr. Noot, respondeu a criada, partiu.

 

‒     Partiu! Repetiu a infeliz Jovita.

 

‒     Findou o seu contrato com a Companhia “City Improvements”, e ele seguiu no vapor “Oneida” para Southampton.

 

‒     E os seus amigos, aonde estão?

 

‒     Saíram.

 

‒     O quarto de Noot está ocupado?

 

‒     Pode entrar, deixou-o como estava.

 

Jovita entrou naquele quarto, onde tantas vezes se julgou feliz. Tudo estava como no tempo de Noot, a cama guarnecida com o mosquiteiro de cambraia cor de rosa, caído da cúpula que estava suspensa no teto, a mesa de escrita no meio do quarto, e tudo ali deserto e triste para ela!

 

Jovita escreveu uma carta e tirou do bolso os bilhetes amorosos de Noot, meteu tudo em um envelope, chamou a criada e disse:

 

‒     Esta carta farás seguir a seu destino. É para o Sr. Guilherme Noot, como o subscrito indica, e que tu deves remeter para Inglaterra.

 

‒     Sim, pode coutar que ela será enviada pelo primeiro paquete.

 

A criada saiu com a carta, e Jovita escreveu uma outra, guardou-a no bolso e depois meteu-se na cama que foi do inglês... A criada quando voltou ao quarto reparou nas cortinas do leito cerradas e foi a ele, abriu-as, vendo a amante de Noot deitada tendo a mão direita sobre o peito esquerdo, ficou tremula.

 

‒     Grande Deus!

 

Exclamou a criada indo buscar água de cheiro e aplicando-a ao nariz da ex-Voluntária. Quis levantá-la e não podendo conseguir, correu a pedir socorro que de pronto chegou.

 

A autoridade e o médico compareceram no lugar e encontraram a infeliz heroína completamente morta. Jovita tinha enterrado no coração um punhal da aço fino! Verificou-se que a lâmina, passando entre 4ª e 5ª costela, ferira ligeiramente o pulmão, indo penetrar na cavidade esquerda do coração, dando a morte desejada! No bolso de Jovita a autoridade achou a carta que ela guardara e um retrato de Noot. A carta rezava assim:

 

Declaro que ninguém me ofendeu, mato-me por motivos que só de mim e de Deus são conhecidos. Jovita Feitosa.

 

A criada entregou a justiça a carta que Jovita lhe dera para remeter a Guilherme Noot. Jovita restituía a Noot seus bilhetes amorosos, e em sua carta desejava-lhe não interrompida série de venturas e felicidades, enquanto que ela nada mais tinha a esperar na terra.

 

A companheira da habitação da infeliz Jovita depôs tudo quanto se passara em sua casa e declarou que a suicida, antes do meter-se no carro, lhe dissera:

 

‒     Adeus até mais nunca!

 

Por estas palavras irreligiosas vê-se que Jovita descrera antes de matar-se até da Vida Eterna! Os sofrimentos desvairaram aquela desgraçada, digna e merecedora de melhor sorte.

 

O que resta agora da Jovita infeliz? Da Voluntária admirada? Da mulher amante? Nada!

 

Em modesta sepultura dorme Jovita o sono dos justos; e quando, porventura eu visitar aquela moradia dos mortos, e deparar com a fria lousa que encobre os gloriosos restos da heroína brasileira, descoberto e respeitoso contemplarei o seu nome inscrito no mármore mortuário, dirigindo a Deus uma fervida oração pela alma de Jovita.

 

Maranhão, 1868. Sanas da Costa. (SEMANÁRIO MARANHENSE N° 23)

 

Bibliografia:

 

 

SEMANÁRIO MARANHENSE N° 23. Jovita – I – Brasil – São Luís, MA – Semanário Maranhense n° 23, 02.02.1868.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

·    Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·    Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·    Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·    Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·    Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·    Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·    Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·    Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·    Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·    Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·    Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·    Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·    Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·    E-mail: [email protected].



[1]   Patrona: cartucheira.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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