Porto Velho (RO) sábado, 11 de julho de 2020
×
Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Mulheres Guerreiras – Parte VII - Antônia (Jovita) Alves Feitosa (IV)


Mulheres Guerreiras – Parte VII - Antônia (Jovita) Alves Feitosa (IV) - Gente de Opinião

Bagé, 12.05.2020

 


Chama a atenção de como a mídia pretérita e historiadores hodiernos enaltecem a coragem da suposta “heroína”, por ela simplesmente ter se apresentado como “Voluntária da Pátria”, sem jamais ter participado efetivamente de qualquer combate e deixa de dar a ên­fase adequada àquelas que partiram para a Guerra como enfermeiras e ou combatentes de 1ª linha.

 

Voltemos, porém, a outra versão, talvez um tanto romanceada, da nossa Jovita mas que talvez sirva para elucidar o que se passava no íntimo desta conturbada criatura do agreste nordestino.

 

 

O empresário, escritor e dramaturgo Francisco Gaudêncio Sabbas da Costa, nasceu em São Luís (MA), em 25.11.1829, e faleceu na sua cidade natal nos idos de 1874. Sabbas da Costa escreveu a novela Jovita, em homenagem à nossa “Voluntária da Pátria”, em três capítulos que reproduziremos, a seguir:

 

 

Semanário Maranhense n° 20

São Luís, MA – Domingo, 12.01.1868

 

 

Jovita

(Páginas 06 e 07 )

 

 

I

 

À margem do rio Parnaíba erguia-se uma choupana coberta de palha, triste habitação de uma família pobre. Era a do Sr. Feitosa que se compunha de sua mulher, Luiza, e sua filha, ainda menina, a quem deram educação parca, relativa aos seus minguados recursos.

 

 

O Sr. Feitosa cultivava a terra, e dela tirava os meios para a subsistência da família; e a Srª Luiza vivia fazendo rendas e crivos ([1]), com o que ganhava pouco, mas que sempre chegava para ajudar seu marido nas despesas da casa.

 

A filha de Luiza e de Feitosa coadjuvava seus pais no que podia, sendo ela a alegria da casa e as esperanças paternas.

 

Por mais que trabalhassem, pais e filha, os recursos de que contavam diminuíam muito, para acobertá-los das calamidades da fortuna. Isto concorria para tirar a alegria dos habitantes da choupana, e a pouca felicidade ali fruída não durou por muito tempo.

 

A desgraça que acenava de perto invadir aquele recinto com seu cortejo de má catadura, parecia querer aproximar-se mais e oferecer aos habitantes da choupana os seus terríveis, efeitos!

 

Ela chegou enfim!

 

A morte arrebatara o Sr. Feitosa e a Sr. Luiza enlouquecera! Sem pai e com a sua mãe inutilizada pobre filha de tão desventurados pais, resistira aos fatais golpes com a alma alquebrada pela dor...

 

Os olhos cansaram de tanto chorar, pois parecia que todos os males caíram de uma só vez contra essa débil criatura! Era uma tenra planta pendida à borda do abismo! Tão moça, o seu coração infantil acostu­mou-se a sofrer as desgraças deste mundo e a perda de ilusões e de quimeras!

 

Por muito tempo a infeliz órfã tratou de sua mãe sem que lhe faltasse cousa alguma, necessária a susten­tar-lhe a vida, até que os escassos recursos legados por seu pai exauriram-se todos, e nada mais restava de fortuna a essas desventuradas esquecidas de Deus! Nada mais restava a filha do que mendigar para sua mãe, e mesmo para salvar da fome e da morte inevitável a pobre moça já submergida em tantas misérias! Não era a própria miséria que mais amedrontava a pobre órfã, não; era o desgraçado estado de sua mãe o que mais a afligia.

 

Resoluta e arrastada pela necessidade, saiu a pedir esmolas pelas portas da cidade. Nessa infeliz peregrinação, encontrou a mísera órfã um rapaz elegante e bem parecido ([2]), que a achando bonita dirigiu-lhe meigamente a palavra:

 

‒ Como sois bela, menina!

 

‒ O Sr. fala comigo?

 

‒ Como se chama?

 

‒ Jovita Feitosa, para o servir, respondeu a filha de Luiza.

 

‒ Jovita! É um nome bonito como sua dona... Aonde mora?

 

‒ Bem longe daqui... À margem do rio, em uma choupana quase a cair... aqui todos o sabem...

 

‒ Ah! é a menina a filha da louca Luiza?

 

‒ Eu mesma, meu senhor.

 

O moço deu-lhe algumas moedas de prata dizendo:

 

‒ Sei que necessita dar à sua mãe o alimento preciso ao corpo e a vida. Aceite o que lhe ofereço com coração amigo, e se me der licença levarei a sua casa com que a dispense de pedir de porta em porta o pão de cada dia.

 

‒ Mas o Sr. não me conhece, e como se faz tão generoso assim?

 

‒ Para fazer bem não carece de conhecimento entre aquele que pratica e o que recebe o benefício. Demais, eu tenho minha condição a lhe impor.

 

‒ Qual é?

 

‒ Me há de prometer não sair mais de casa... sem necessidade.

 

‒ E minha mãe?

 

‒ Eu farei com que nada lhe falte... Agora está contente comigo?

 

O moço já ameigava a mão de Jovita, que envergonhada permaneceu calada.

 

‒ Olhe para mim, tornou o jovem sedutor, apertando a mão da triste órfã, tem vergonha de me encarar?

 

Jovita ergueu o rosto, encarou o mancebo, mas seus olhos tiveram de baixar, porque os do seu protetor paresiam magnetiza-la a seu pesar.

 

‒ Responda, promete não sair mais de casa, sim?

 

‒ Sim, senhor, respondeu Jovita.

 

‒ Recolha-se a casa e espere-me hoje, à tarde, que levarei a alegria à sua habitação. Não a quero ver assim tão bela e maltratada pelo rigor da pobreza.

 

‒ Mas... porque se interessa tanto por mim? Eu que nem ainda sei como o senhor se chama!...

 

‒ Isso que tem? Sois pobre e os pobres são todos meus conhecidos, ainda que sejam encontrados por mim pela primeira vez.

 

‒ Então sois o anjo do bem?

 

‒ Ainda é cedo para os sinais de gratidão. Recebei... é um amigo que oferece, e oxalá não o maldigais nunca.

 

O mancebo dera urnas moedas de prata, e Jovita as recebeu como dadas pela verdadeira caridade.

 

Jovita seguiu caminho da choupana, comprando de passagem o que carecia para sua mãe, e para si. Ia calada, mas seu pensamento entretinha-se no protetor que lhe, parecera tão extraordinário!

 

O moço filantropo viu Jovita desaparecer pelas ruas guarnecidas de matagais e com o sorriso triunfante disse consigo:

 

‒ É minha! Botão que o rocio ([3]) matutino deve borrifar para desabrochar aos primeiros raios do Sol! Vais pertencer-me, Jovita, porque a necessi­dade é inimiga da virtude, e a necessidade esma­ga-te com suas garras infernais!

 

O mancebo recolheu-se à sua casa, alegre e risonho calculava com a felicidade futura, que ele compraria à poder do ouro. [Continua]

 

Sabbas da Costa. (SEMANÁRIO MARANHENSE N° 20)

 

 

Semanário Maranhense n° 21

 

São Luís, MA – Domingo, 19.01.1868

 

Jovita

(Continuação do n° 20, Páginas 03 e 04 )

 

II

O moço que encontrou-se com Jovita, era Alfredo d’Almada, filho de Roberto d’Almada rico fazendeiro de gado no Piauí. Era filho único, e, contando com a riqueza paterna, divertia-se em requestar, seduzir e desgraçar meninas órfãs. Pobres! À tarde, como prometera a Jovita, apareceu na casa da sua protegida, tanta fartura deixou sair da cor­nucópia da abundância, que a miséria fugiu espa­vorida!

 

..........................................................................

 

As visitas do mancebo em casa da louca Luiza, eram constantes, e tornaram-se amiudadas. Jovita se tinha deixado prender a esse homem, não pelos laços do amor, mas sim pelas cadeias da gratidão. Não levou muito tempo para o libertino completar sua obra de desgraça. O galã deste drama era tirano de tragédia, e Jovita se deixara arrastar para a desonra, que a esperava no fim deste estado de coisas, que o desejo de gozar e a falta do amor tornavam pouco duradouro.

 

Por algum tempo logrou o libertino desses momentos de felicidade que Jovita lhe proporcionava à custa de sua virgindade, sem que sentisse os doces, atrativos do amor; mas essa ventura sem dificuldade gozada, pacífica e sem obstáculos cansou o homem afeito às empresas difíceis e arriscadas.

 

O sedutor acabou por abandonar sua vítima, à arremessando para a prostituição, maior de todos os males que ela podia suportar ao mundo. Jovita debalde o esperou uma, duas e três tardes: Alfredo d’Almada não apareceu! A desconfiança entrou no coração da filha da louca! Ela chorava lágrimas de vergonha.

 

Quinze dias ainda a desprezada teve esperanças de ver seu sedutor, e nunca mais o viu entrar em sua casa, onde fora tão liberal e protetor, onde encontrara a probidade e a virtude!

 

Jovita escreveu-lhe a seguinte carta:

 

Sr. Alfredo. Quando o encontrei pela primeira vez no meu caminho de miséria, julguei-o a Providência, pelos socorros, que nessa ocasião dignou-se dispensar-me, mas muito inocente era eu, que ignorava os meios usados pelos libertinos para abismarem na prostituição as vítimas que pretendem imolar no altar dos prazeres mundanos!

 

Tive quem me avisasse do laço que o senhor me armava, e que a gratidão me obrigou a não ver. O Sr. iludia-me sorrindo, dourava-me o presente com uma felicidade efêmera para legar-me um futuro amargo como as fezes do opróbrio ([4]). Do que isso, antes a miséria em que me achava! Conseguiu o senhor aquilo que só o amor sabe obter de um coração de mulher...

 

Se a gratidão cegou-me, Deus perdoe-me. Não é a sua piedade que vou invocar, nem é a sensibilidade do seu coração não, é o dever de pai, que reclamo, em favor de seu filho que deve breve nascer. O senhor é rico e poderoso, não deixe que na miséria viva e morra, como eu, o filho que é seu, em cujas veias corre o sangue de seus avós. Nada quero, nada peço, nada exijo para mim do senhor a quem aborreço e detesto.

 

Os seus benefícios paguei-os bem caros, estamos quites, mas seu filho não deve sofrer infelicidades de sua desgraçada mãe. É só para seu filho, que imploro a sua piedade, os seus benefícios. Aonde o devo esperar? Como obter a sua resposta? Se não me quer ver mais na casa que desonrou para todo o sempre, marque o lugar em que o devo encontrar. Jovita

 

Esta carta não teve resposta alguma!

 

Assim como a semente dá o arbusto, o arbusto deita a flor e a flor transforma-se em fruto, assim Jovita, que recebera o germe de criação, no fim de nove meses teve de dar a luz a uma criança, filha da mais negra traição. A moça inocente fizera-se mulher culpada! A virgem de outrora tornara-se mãe!

 

Jovita metera o recém-nascido em uma cesta de vime e escreveu o seguinte bilhete:

 

‒     Sr. Alfredo d’Almada, remeto-lhe o fruto de sua caridade cristã. Jovita.

 

Este bilhete e a cesta com a criança foram remetidos ao jovem libertino em casa do pai dele. Foi o velho pai de Alfredo quem recebera o lindo mimo, que Jovita mandara a seu filho, e lendo o bilhete acabou por amarrotá-lo. Olhando para a criança, que dormia no seu berço de enjeitado, sentiu bater-lhe o coração já velho, e o recebeu dizendo:

 

‒     Eis porque Alfredo esbanja-me tanto ouro!... Mal sabe a mãe desta criança, que o seu sedutor casti­guei-o, mandando para a guerra a bater para­guaios. Ella e eu estamos vingados.

 

O velho Almada chamou um escravo e entregando-lhe uma bolsa ordenou-lhe que fosse levar à infeliz Jovita. O escravo saiu e voltou trazendo o mimo que seu senhor mandara à filha de Luiza, e informando de que a mãe da criança tinha desaparecido, levando a velha louca, e abandonando a choupana despida completamente.

 

Despertara o recém-nascido, e seus primeiros risos foram para seu avô, que tratou de criar o netinho, reconhecendo-o como filho do seu filho. [Continua] Sabbas da Costa. (SEMANÁRIO MARANHENSE N° 21)

 

 

Bibliografia:

 

SEMANÁRIO MARANHENSE N° 20. Jovita – I – Brasil – São Luís, MA – Semanário Maranhense n° 20, 12.01.1868.

 

SEMANÁRIO MARANHENSE N° 21. Jovita – II – Brasil – São Luís, MA – Semanário Maranhense n° 21, 19.01.1868.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

·    Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·    Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·    Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·    Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·    Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·    Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·    Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·    Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·    Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·    Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·    Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·    Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·    Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·    E-mail: [email protected].

 



[1]   Crivos: peneiras.

[2]   Bem parecido: que tem boa aparência, que é muito bonito, que se veste com elegância.

[3]   Rocio: orvalho.

[4]   Do opróbrio: da desonra.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Hiram Reis e Silva

Francisco Xavier da Veiga Cabral – Parte II

Francisco Xavier da Veiga Cabral – Parte II

Bagé, 10.07.2020   Diário de Notícias, n° 127 ‒ Belém, PASexta-feira, 07.06.1895 Hecatombe de Brasileirosdo Amapá, em 15 de maio de 1895,Pelos Soldado

Francisco Xavier da Veiga Cabral – Parte I

Francisco Xavier da Veiga Cabral – Parte I

Bagé, 09.07.2020 O “Diário de Notícias” do Pará, nas edições n° 127, 128, 129 e 130 de 07, 08, 09 e 11.06.1895, respectivamente, publicou, na sua pr

As Estrelas e a Ciência Médica

As Estrelas e a Ciência Médica

Bagé, 08.07.2020 O Coronel de Engenharia Higino Veiga Macedo, meu Caro Amigo e Mentor (com letras maiúsculas mesmo), enviou-me outro texto de sua au

O Rei dos Rios – Parte IV - Lenda da Pororoca (Raymundo Moraes)

O Rei dos Rios – Parte IV - Lenda da Pororoca (Raymundo Moraes)

Bagé, 07.07.2020 Diz a lenda que, antigamente, a água do rio era serena e corria de mansinho. As canoas podiam navegar sem perigo. Nessa época, a Mã