Segunda-feira, 17 de junho de 2024 - 08h15

Bagé,
17.06.2024
Manchete n° 625, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 11.04.1964
Jango – Sete Dias em Março
(Escreve Murilo Melo
Filho)
Os últimos sete dias de março
reativaram o processo da crise político-militar. O grupo de marinheiros,
reunido no Sindicato dos Metalúrgicos, venceu a luta contra o Ministro Sílvio
Mota, derrubado de seu posto, enquanto o Almirante Cândido Aragão retornava ao
comando dos Fuzileiros e um Almirante nacionalista assumia a pasta da Marinha. A
vitória da área esquerdista era a mais completa possível e o marujos a
traduziram nas avenidas do Rio através de manifestações públicas de regozijo.
Mas já no sábado de Aleluia, a reação começou a esboçar-se no Clube Naval, com
a participação de dezenas de Almirantes e centenas de Oficiais superiores.
Consideram-se eles diminuídos e feridos em sua autoridade pelo fato de não
terem sido punidos os cabos e marinheiros. Declararam, então, a impossibilidade
de se manterem em seus postos e comandos, sem que o princípio da hierarquia e
da disciplina fosse restabelecido.
A esta altura, o Sr. João Goulart
interrompera seu descanso no Sul e voltara a fim de debelar os aspectos mais
urgentes da crise. Do Rio, supondo tê-la resolvido, dirigira-se a Brasília,
tentando recuperar seu descanso pascal. Mas foi novamente interrompido pelas
notícias chegadas do Rio, informando-o de que o Clube Militar, através do
Marechal Augusto Magessi, acabava de solidarizar-se com os seus colegas da
Marinha na dupla evidência: punição dos marinheiros e afastamento do Almirante
Aragão.
O presidente, apanhado de surpresa pelo alastramento da crise a setores do Exército, justamente no instante em que a considerava debelada e restrita à Marinha, declarou que seus adversários certamente o teriam acusado se não tivesse agido com rapidez, firmeza e serenidade. Mas agira prontamente, evitando que a crise se alastrasse, através de conflitos sangrentos, que chegaram mesmo a esboçar-se. Depois de elogiar a atitude do Exército e da Aeronáutica, a cuja unidade e alto patriotismo declarou dever o País a rápida suspensão da crise – que, se prolongada, poderia nos conduzir a caminhos mais perigosos – o Sr. João Goulart garantiu que a ordem e a disciplina seriam restabelecidas em sua plenitude pelo novo titular da Marinha.

Enquanto Oficiais do Exército e da Marinha se Reuniam nos Clubes Naval e Militar,
o Presidente, Acompanhado de Ministros de Estado, Recebia Ruidosa Homenagem de Sargentos de Todas as Armas
Justamente então a Câmara e o Senado se preparavam para reabrir seus trabalhos, após o hiato da semana santa. Na ordem do dia da primeira sessão figurava exatamente o processo de anistia aos sargentos rebelados de Brasília. Parecia pacífica a aprovação desse projeto. Todas as bancadas estavam unidas em torno da tese de que era necessário desanuviar as tensões e perdoar os insurretos.
Mas o episódio dos marinheiros criou ambiente inteiramente diverso: já ninguém poderia garantir a aprovação do projeto. Foi nessa atmosfera que se reiniciaram os trabalhos legislativos. Na Câmara, isso ocorreu sob um tenso bombardeio dos mais alarmantes boatos o rumores. Um fato contribuiu para o agravamento das preocupações: seu Presidente, deputado Ranieri Mazzilli, que passara toda a manhã em contato com os líderes parlamentares e não ocultava suas apreensões estava presidindo os trabalhos quando, após ouvir uma comunicação que lhe foi feita ao ouvido levantou-se de forma abrupta da cadeira, foi ao gabinete atender a um telefonema e retirou-se apressadamente do edifício do Congresso.
Tornou depois rumo ignorado, logo começando a circular as mais desencontradas versões sabre a sua ausência. Dizia-se ora que fora chamado ao Rio com urgência para conferenciar com o presidente da República; ora que se dirigira à Granja do Torto para ali falar com Jango; ora que se encaminhara ao seu apartamento em Brasília onde, após comunicar-se com São Paulo, resolvera tomar um avião para ir ao encontro do Governador Ademar do Barros.
Enquanto isso, sucediam-se as mais absurdas especulações: Estado de Sítio, intervenção na Guanabara, São Paulo e Minas, convocação de Constituinte e até renúncia de Jango. Só uma coisa era cena: o Sr. Ranieri Mazzilli voara para São Paulo, indo diretamente para os Campos Elísios, a fim de avistar-se com o Governador paulista. Desmentiu, porém, que sua viagem se destinasse a providenciar a transferência do Congresso para São Paulo.
Tampouco o Sr. João Goulart se ausentara do Rio. Ao contrário, estava naquele mesmo instante se preparando para dirigir-se ao Automóvel Clube, onde iria receber as homenagens do milhares de sargentos e pronunciar importante discurso.
O líder do PSD, deputado Martins Rodrigues, homem habitualmente cauteloso e comedido, não escondia seus temores. Acabara de falar com o senhor Ranieri Mazzilli e dizia que talvez estivesse o País vivendo os últimos momentos do regime. Foi nesse clima que chegou ao Congresso a notícia da proclamação feita pelo Governador Magalhães Pinto, de solidariedade aos Almirantes, em meio a uma reforma de seu secretariado, para dar posse ao deputado José Maria Alkmin na Secretaria de Finanças
A atitude do Governador mineiro passou togo a ser interpretada como indício de união, em Minas, com PSD e UDN ligados ao Governo Estadual, que por sua vez estaria muito bem guarnecido pelo apoio das Unidades do Exército ali sediadas. Informava-se que o Sr. Magalhães Pinto havia tomado a precaução de ouvir os Generais Carlos Luís Guedes e Olímpio Mourão, comandantes das Guarnições Militares de Minas. A Força Pública Mineira teria sido igualmente mobilizada, para enfrentar qualquer eventualidade. Simultaneamente, circulavam notícias de que o Governador Ademar de Barros estava bem garantido pelos principais Comandos sediados em São Paulo, sobretudo por parte do General Amauri Kruel, Comandante do II Exército. Dizia-se, então, que o presidente da República, diante da reação contra ali desencadeada, teria caído em si e verificado que realmente a falta de punição para os marinheiros constituíra a gota d’água que fizera a taça transbordar.
O General Assis Brasil teria traçado o quadro realista da situação, para revelar-lhe que até mesmo os oficiais janguistas se encontravam sem argumentos para rebater a ofensiva dos seus colegas. Todos, de uma forma ou de outra, se consideravam atingidos pela impunidade dos marinheiros.
Em razão disso, foi adotada a providência de instaurar três inquéritos policial-militares na Marinha: um para apurar a rebeldia dos Almirantes e Oficiais Superiores em seus manifestos: outro para investigar a atitude dos Oficiais que haviam atirado contra os marinheiros no Arsenal de Marinha ou se haviam opostos à posse do novo Ministro; e, ainda, o inquérito para apurar a responsabilidade dos líderes das manifestações verificadas no Sindicato dos Metalúrgicos. (Continua...)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
E-mail: [email protected].
Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
Bagé, RS, 05.06.2026 Termo de Depoimento do Sr.José Antônio Carneiro Borges Aos 29 dias do mês de agosto de 2022, às 16h30 (Horário de Brasília), e

Bagé, RS, 04.06.2026 Cel Eng José Antônio Carneiro Borges Lembranças da Minha Vida no Destacamento Sul do 6° BECCheguei a Manaus, com minh

Bagé, RS, 03.06.2026 Depoimento do Cap Telmo Travassos de Azambuja Termo de Depoimento do Sr. Telmo Travassos de Azambuja Aos 29 dias do mês de ag

Bagé, RS, 02.06.2026 Cap Telmo Travassos de AzambujaVerdades X Mentiras: O Exército Brasileiro na Construção da BR–174 A melhoria da infraestrutur
Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)