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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Boletim Informativo da FUNAI – II Parte - Mistérios de um Século Envolvem Massacres dos Waimiri-Atroari


Boletim Informativo da FUNAI – II Parte - Mistérios de um Século Envolvem Massacres dos Waimiri-Atroari - Gente de Opinião

Bagé, RS, 18.03.2019

 

 

Ministério do Interior ‒ Rio de Janeiro, RJ
Ano V ‒ nos 15/16 ‒ 1975

Mistérios de um Século Envolvem Massacres dos Waimiri-Atroari

As Informações que Vamos dar Abaixo, Resultaram de Pesquisas em Relatórios de Sertanistas e Entrevistas Pessoais com os Sobreviventes de Massacres e Funcionários
das Frentes de Atração da FUNAI

 

EXPEDIÇÃO CALLERI

 

O massacre da expedição de atração chefiada pelo Padre João Calleri, integrada por nove pessoas, ocorrido em 01.11.1968, marcou o reinicio dos ataques dos Waimiri-Atroari contra aqueles que procuravam penetrar em suas terras. Por um período bem razoável, aqueles índios vinham se mantendo em paz em seus domínios. A partir de 1957, permitiram a presença do sertanista Gilberto Pinto Figueiredo Costa na área, trégua interrompida quando o sertanista foi substituído pelo Padre Calleri. Do massacre, apenas conseguiu escapar o mateiro Álvaro Paulo da Silva, atualmente trabalhando para o FUNAI no Território Federal de Roraima.

 

Segundo as próprias palavras de Álvaro Paulo da Silva, os erros cometidos pelo Padre João Calleri são injustificáveis. O Padre maltratava os índios e não tinha nenhuma consideração para com eles. Ele queria agir com os Waimiri-Atroari como agiu com os índios do Catrimani, que nunca foram bravos e eram de boa índole. Para Álvaro, um dos erros da política indigenista foi tirar a chefia da Frente de Atração de um dos funcionários da FUNAI, homem capaz o experiente, Gilberto Pinto Figueiredo e entregá-la ao Padre Calleri, que não entendia do assunto. Conta Álvaro que o Padre Calleri queria pacificar de uma vez os Waimiri-Atroari e, por isto, levou a sua equipe para morar junto à aldeia, coisa que só se faz cerca de três anos após consolidado o contato. Álvaro Paulo da Silva trabalhava com Gilberto Pinto antes do Padre Calleri assumir a chefia da Frente de Atração, ocasião em que tudo ia indo muito bem. Diz o mateiro Álvaro que em várias ocasiões os Waimiri-Atroari quiseram fazer trocas e que o Padre negava-se a atendê-los Até mesmo ao cacique Maruaga, que queria trocar arcos e flechas por uma panela e o Padre respondeu negativamente. Quando encontrava os índios deitados nas redes, retirava-os de lá e os punha para fora do acampamento. Dois dias antes do massacra da expedição Calleri ‒ conta Álvaro ‒ o Padre viu alguns índios retirando colheres do acampamento, repentinamente segurou um dos índios, pegou a espingarda e advertiu:

 

Aqui Padre marupá [mau]. Espingarda pô [imitou com a boca o som do tiro] índio morre.

 

Álvaro advertiu o Padre que esta conversa não ia dar certo. No mesmo instante os índios se reuniram bastante irritados. No dia seguinte voltaram ao acampamento os mesmos índios, e estes desacompanhados Tuchaua Maruaga, que estava com raiva. Álvaro sugeriu que o Padre ficasse no acampamento e que ele e os demais membros fossem até a Aldeia levar brindes para os índios e tentar acalmá-los. O Padre respondeu negativamente dizendo que estava acostumado a lidar com índios:

 

Nós temos que mostrar ao índio que somos superiores a eles.

 

Afirmou o chefe da expedição, ao que Álvaro respondeu que iria embora pois se continuassem a agir assim todos iriam rodar na flecha começando pelo Padre.

 

TODOS MORTOS

 

Apesar dos seus colegas acharem que ele estava com medo, Álvaro decidiu deixar o acampamento naquela mesma noite e retornar a Manaus. Mas depois de algumas horas de caminhada, resolveu voltar ao acampamento e ver como estavam as coisas, pois não tinha coragem de deixar a expedição entregue à própria sorte. Ao se aproximar da Aldeia, notou que estava tudo em silêncio e estranhou a situação. Penetrou pelo roçado dos índios para ver mais de perto o pátio da aldeia e imediatamente viu caído um dos elementos da expedição, que não conseguiu identificar. Assim que constatou tratar-se de um massacre, fugiu para o mato.

 

Esperou escurecer e concluiu que os índios, após matarem os integrantes da expedição haviam fugido. À noite, passou no acampamento à procura de uma canoa para rumar direção a Manaus e comunicar a ocorrência. Naquela mesma noite parou numa praia para acampar, mas ouviu índios falando e resolveu prosseguir a viagem. Finalmente, quando chegou à cidade de Itacoatiara, comunicou o massacre ao Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas, encarregado das Obras de construção da rodovia BR-174, ao qual o Padre Calleri estava ligado. Como ocorreu o massacre, continua sendo um mistério. Todos os membros da expedição Calleri, incluindo uma mulher, que se encontravam no local foram mortos. Álvaro só constatou o ataque dos Waimiri-Atroari, segundo disse, depois que de consumado. Talvez futuramente os próprios Waimiri-Atroari venham a contar como tudo se passou e revelar a causa dos massacres contra os brancos que se aventuraram penetrar em suas terras.

 

PRECIPITAÇÃO

 

Padre José Vicente César, vice-presidente do “Conselho Indigenista Missionário” e diretor do “Instituto Anthropos do Brasil”, em trabalho publicado no jornal “Lar Católico”, do dia 04.10.1970, referindo-se ao massacre do Padre João Calleri afirma que aquele sacerdote mostrou injustificável afoiteza no trato com índios ferozes e descontentes.

 

Diz ainda o Padre César em seu artigo, tomando por base o diálogo que manteve com o único sobrevivente do massacre, Álvaro Paulo da Silva, que o Padre Calleri, embora munido de boa vontade e das melhores intenções, não era a pessoa indicada para uma missão tão delicada e cheia de riscos. Ele fizera um curso rápido [parece de seis meses] no Museu Emílio Goeldi, de Belém e passara uns 3 anos com os íncolas das florestas do Rio Catrimani, no Território de Roraima. Mas estes últimos são mansos de índole pacífica e pertencentes a uma outra família linguística, a dos Xavante e Uaicá

 

OS PRIMEIROS MASSACRES

 

O primeiro massacre dos Waimiri-Atroari contra funcionários do órgão oficial de assistência aos silvícolas ‒ naquela época, o hoje extinto Serviço de Proteção ao Índio [SPI] ‒ ocorreu em dezembro de 1942. Em um ofício encaminhado ao então diretor do SPI, José Maria de Paula, o Chefe da 1ª Inspetoria Regional do Órgão, Bacharel Joviniano Caldas de Magalhães, narra os acontecimentos referentes aos massacres de dezembro de 1942 e outro ocorrido no dia 31 de dezembro de 1946.

 

Conta o ex-chefe da 1ª IR do SPI que:

 

Os Waimiri-Atroari haviam sido visitados pela então Chefe da 1ª IR ‒ Major Carlos Eugênio Chauvin, que conseguira, além de estabelecer contato com os mesmos, visitar-lhes cinco malocas, situadas na região do Rio Jauaperí. Em marco de 1941, foi instalado na área um Posto de Atração, do pelo Agente de Índios Miguel Bríglia. Sabedor de que teria ocorrido “certo incidente” entre os índios encarregado do Posto o Major Carlos Chauvin, determinou o seu afastamento substituindo-o pelo Agente Cristovão Emerick Taumaturgo Lobo. Quando da gestão deste Agente ‒ afirma o ex-chefe da 1ª Inspetoria ‒ os índios visitaram o Posto inúmeras vezes, mantendo cordial amizade. Traziam objetos de sua confecção e levavam brindes. Mas, ao se referirem ao Agente Bríglia, serviam-se da frase “branco mau”. Consta que o Emerick envidou esforços no sentido de descobrir a causa da antipatia dos índios para com Miguel Bríglia, não conseguindo. Na qualidade de fiscal do SPI, Alberto Pizarro Jacobina foi a Manaus e um dos seus primeiros atos ‒ embora o então Chefe da Inspetoria, Sebastião Moacyr de Xerez se manifestasse em desacordo foi determinar que os filhos do Agente Miguel Bríglia voltassem ao referido Posto. O que teria se passado entre agosto e setembro de 1942. Em dezembro, ocorreu o massacre dos Waimiri-Atroari, o que custaria a vida de todos, os que se encontravam no Posto.

 

NOVO MASSACRE

 

Em fevereiro de 1943, o Posto foi reinstalado e seu funcionamento não sofreu alteração digna de registro até julho de 1946. Nossa ocasião os índios que procuravam brindes, sem os encontrar, tomaram as roupas dos trabalhadores, motivando que os mesmos retornassem a Manaus. Mas já em outubro daquele ano, por determinação do Chefe da 1ª Inspetoria, todos funcionários que se encontravam na capital amazonense voltaram ao trabalho. Na ocasião o Posto Indígena era chefiado pelo Sr. Luiz Antônio de Carvalho. No dia 31 de dezembro de 1940, Waimiri-Atroari, que dois dias antes haviam chegado ao Posto do SPI acompanhados de mulheres e crianças, e demonstrando estarem alegres, praticavam novo massacre, no qual perderam a vida 9 servidores do SPI, inclusive o Chefe do Posto, Luiz Antônio de Carvalho. Sua esposa dona Cândida Pastana de Carvalho que se encontrava com o marido, grávida do nove meses, conseguiu escapar com vida, apesar de ter sido atingida pelas flechas.

 

ÍNDIO BARBADO

 

Com base nos depoimentos sobre esse ataque dos índios prestados por Tiago Coelho da Silva, Raimundo Marques de Carvalho, Matheus Dias, Bernardino José da Silva, Cândida Pastana de Carvalho e Raimundo Nunes, todos sobreviventes, o Chefe da Inspetoria Regional do Serviço de Proteção aos índios afirma em seu ofício que:

 

Os massacres ocorridos no Rio Camanau em face do testemunho dessas pessoas sobreviventes apresenta dois aspectos distintos um, referente ao primeiro ‒ salientando, como origem, a desarmonia ou desinteligência entre os índios e o então encarregado do Posto e outro ‒ alusivo ao segundo ‒ em que se positiva a existência, entre os índios, de um civilizado ou índio civilizado, que os induz às hostilidades.

 

De fato, todos os sobreviventes, em seus depoimentos, citam a presença no massacre de um “índio barbado que fala português e a língua indígena”. Tiago Coelho da Silva, que escapou ao ataque dos Waimiri-Atroari no Posto indígena, do Rio Camanau em dezembro de 1946, diz que se encontrava sentado à mesa onde tomava café, quando teve início o massacre. Ao iniciá-lo, um “índio barbado” gritou ‒ “lá vai flecha” ‒ em português. Afirma ainda Tiago que nos dois dias anteriores, os Waimiri-Atroari haviam mantido atitude de cordialidade, mas que “o índio barbado” mantinha-se calado só falando a gíria [língua indígena]. Declarou ainda que o grupo era chefiado por este “índio barbado”.

 

Também Raimundo Marques de Carvalho, outro sobrevivente do massacre, aponta a presença do “índio barbado”. Em certo trecho do seu depoimento afirma que:

 

No dia do massacre de 1946 os índios no se fizeram acompanhar de suas famílias como nos dias anteriores.

 

Mais adiante conta que:

 

Um dos índios, ao passar por ele, no Posto, falava em gíria ao “barbado”, ao que este respondeu ‒ Vamos embora ‒ em português.

 

Também Matheus Dias, que conseguiu escapar com vida do ataque dos Waimiri-Atroari, em dezembro de 1946, se refere ao “índio barbado” em seu depoimento, ao afirmar, que entre os índios sempre esteve o barbado que se mantinha calado, só se expressando em gíria, o que também consta no depoimento de Bernardino José da Silva que diz que:

 

O “índio barbado” só falava em português quando se dirigia à Dona Cândida Pastana de Carvalho.

 

O depoimento de Dona Cândida Pastana de Carvalho é mais rico em detalhes do que demais. Esses do encarregado do Posto, Luiz Antônio de Carvalho, que encontrava-se na sala de entrada da casa quando chegaram os índios em número de nove, todos armados de arcos e flechas. O Tuchaua Maruaga estava presente e ela dirigiu-se a ele pedindo que fizesse negócio com as flechas ao que o índio lhe respondeu:

 

Não, não quer fazer negócio.

 

Empurrando D. Cândida para o lado. A esposa do encarregado do Posto não soube a que atribuir a brusca atitude dos índios visto que todos mostravam-se amigos do pessoal do Posto, inclusive haviam até dançado no terreiro, com o seu marido.

 

A presença do “índio barbado”, é assim narrada por D. Cândida:

 

Os índios eram chefiados por um “barbado”, embora entre eles estivesse o Tuchaua Maruaga ‒ pois os índios nada decidiam sem o consentimento do “índio barbado”, inclusive troca de objetos. Quando se dirigia ela, o “barbado” fazia-o em português, às vezes misturado com a gíria, e em gíria sendo ele o mais retraído de todos, procurando sempre manter-se calado e afastado, observando todos os pormenores.

 

Afirma ainda D. Cândida que:

 

O “índio barbado”, quando das visitas nos dias anteriores, trouxe sua família, constituída de mulher e três filhos, entre os quais uma mocinha do feições delicadas.

 

Segundo D. Cândida, este índio:

 

Tem “barba fechada” e o “corpo cabeludo”.

 

Como se nota, seria difícil classificar como fantasioso a presença do “índio barbado” entre os Waimiri-Atroari que atacaram o Posto do SPI, em 1946, uma vez que todos os depoimentos assinalam a sua presença. Entretanto, após um período de relativa calma, interrompido com o massacre da expedição do Padre João Calleri, nunca mais ocorreram, citações sobre a presença do “índio barbado” nos ataques ou contatos com os Waimiri-Atroari.

 

NOVA TÁTICA

 

Atualmente a Frente de Atração dos Waimiri-Atroari está sob a chefia do sertanista Sebastião Nunes Firmo, profundo conhecedor daqueles índios, pois desde e primeira incursão do sertanista Gilberto Pinto de Figueiredo Costa naquela região, em 1967, participava da sua equipe de atração.

 

Seguindo determinações da Presidência da FUNAI, foi estabelecido um esquema do trabalho no qual as equipes terão contato apenas com os índios que aparecerem na estrada BR-174, ou seja, toda a iniciativa do contato deverá partir dos próprios Waimiri-Atroari. Nenhuma penetração nas matas para visita às aldeias irá ocorrer.

 

Na área, existem atualmente em atividade quatro Frentes: uma de apoio à BR-174 e os Postos Indígenas Alalau, Camanau e Abonarí. Para o sertanista Sebastião Firmo, a Frente de Apoio à BR-174 [rodovia Manaus Caracaraí] em construção, é, no momento, o mais importante por reunir grande número de trabalhadores da estrado, alheios aos problemas no trato ao índio e por ser esta a única Frente em que os índios tem mantido contato após o último massacre, no qual perdeu a vida Gilberto Pinto.

 

Do acordo com o esquema montado por Sebastião Firmo, a cobertura aos trabalhos na rodovia BR-174 está sendo feita por três turmas da FUNAI que se encontram na altura do Rio Alalau [10 homens], junto à equipe de terraplenagem [15 homens] e na vanguarda da estrada dando apoio à turma de desmatamento [15 homens]. As turmas que acompanham as equipes de terraplenagem e desmatamento ficam cem metros à frente e 50 de cada lado da estrada, preparados para eventuais contatos com os Waimiri-Atroari. Todos os que trabalham no construção da estrada estão proibidos, de caçar, portar armas ou embrenhar-se nas matas.

 

O P. I. Alalau, localizado na confluência dos Rios Alalau e Jauaperí visa a controlar o acesso de pessoas estranhas na área [caçadores, pescadores, gateiros, etc] que poderiam causar problemas aos trabalhos de atração. Seu efetivo é de 15 homens. A mesma finalidade é a do P. I. Camanau, situado em ponto estratégico do Rio Camanau e também com um efetivo de 15 homens. Este Posto costumava ser visitado pelos Waimiri-Atroari, antes da morte do Gilberto Pinto.

 

Já o P. I. Abonarí funciona como Base do Apoio aos trabalhos do atração e possui um efetivo do 15 homens, além de três índios interpretes. Este Posto possui horta e roças para subsistência.

 

CONTATOS EM 1975

 

No ano passado os funcionários da FUNAI encarregados de dar cobertura aos trabalhos da BR-174 mantiveram quatro contatos amistosos com os Waimiri-Atroari que se dirigiam à estrada, a fim de realizarem trocas. O primeiro contato com os Waimiri-Atroari, após o massacre de Gilberto Pinto de Figueiredo Costa, com a equipe chefiada pelo sertanista Sebastião Firmo, ocorreu no dia 14.08.1975, às 10 horas da manhã. Em seu diário de trabalho, o sertanista Sebastião Nunes Firmo, encarregado da Frente de Atração assim registra o contato:

 

Às dez hora de hoje, encontravam-se em minha companhia os funcionários Eduardo Lopes Duarte, Maicosi Chiklisi, Pedro Barati, Osmar Bastos, Manoel Morais da Silva, Mário Dias, Manoel Sarmento e Francisco Pinheiro dos Santos, dando cobertura a Frente do Desmatamento Mecânico, momento em que apareceram 10 índios que de início levaram um susto ao nos ver, mas posteriormente vieram ao nosso encontro, gritando, gesticulando e finalmente, abraçando a todos no sentido de paz. O grupo de índios era chefiado pelo filho do Capitão Comprido, de nome Bornaldo, que aparenta, ter 17 anos de idade. O restante do grupo parecia ter de 17 a 22 anos.

 

Relata Sebastião Firmo que:

 

Após o contato de amizade alguns índios manifestaram desejo de conhecer os tratores e pediu ao operador de máquinas para fazer uma demonstração. Alguns índios subiram no trator e assistiram a derrubada de algumas árvores. Após esse primeiro encontro se retiraram, prometendo voltar dentro de cinco dias. Esse primeiro contato deu-se no quilômetro 265 da BR-174, a 10.020 metros das margens do Alalau.

 

Mais adiante o sertanista assinala:

 

Prometido voltar cinco dias após o primeiro contato, ficamos aguardando durante 10 dias consecutivos e eles não voltaram. Ao meu ver, o Capitão Comprido, chefe da tribo, ao ser comunicado do encontro dos seus 10 índios guerreiros com funcionários da FUNAI, proibiu o encontro marcado, ou seja o segundo, pois tudo indica que os 10 índios tenham vindo fazer uma averiguação, tais como: andamento da estrada, total de homens, etc. É provável que os índios estão se preparando para mudar para um local mais afastado, pois como se sabe a atual estrada passará bem próxima da Aldeia dos Atroari.

 

CONTATOS

 

O segundo contato entre os Waimiri-Atroari e os servidores da FUNAI, na BR-174, se deu a 23 quilômetros do Rio Alalau e o terceiro a 37 quilômetros.

 

O último contato com aqueles índios, no ano de 1975, ocorreu, no dia 5 de novembro, quando a frente desmatamento mecânico se encontrava a 42 quilômetros do Rio Alalau. Naquela ocasião a equipe de cobertura aos trabalhadores da estrada estava sob responsabilidade do sertanista Estevão da Silva Rodrigues. Como nas outras ocasiões os índios realizaram trocas com os integrantes da Frente de Atração e por volta das 15 horas se retiraram, prometendo, sempre, voltar.

 

PERIODICIDADE

 

Ao massacres praticados pelos Waimiri-Atroari parecem obedecer a uma certa periodicidade. Em de 1942, mataram os irmãos Bríglia. No dia 31.12.1946, morreram Luiz Antônio de Carvalho e mais oito servidores do extinto Serviço de Proteção aos Índios.

 

Após uma trégua de 13 anos, a 30.11.1968, os Waimiri-Atroari voltariam a atacar um Posto de Atração, quando massacraram o Padre João Calleri e mais 9 pessoas. Cinco anos depois, no dia 17.01.1973, os Waimiri-Atroari atacaram matando os servidores Rafael Fonseca Padilha, Ernesto Nascimento de Aguiar e Altamiro Cardoso de Aguiar que se encontravam no Posto Indígena de Atração Alalau. Em 1974, os Waimiri-Atroari realizaram dois massacres. O primeiro, no dia 30 de setembro, novamente no Posto Indígena de Atração Alalau onde perderam a vida os servidores João Dionísio do Norte, Paulo Ferreira Ramos, Luiz Pereira, Faustino da Cruz Soares, Odoncil Virgínio dos Santos e Evaristo Batista e o outro massacre daquele ano, ocorreu no dia 29 de dezembro, quando perderam a vida, além do sertanista Gilberto Pinto de Figueiredo Costa, os servidores João Bosco Aguiar, João Alves Monteiro e Oswaldo de Souza Leal Filho, que se encontravam no Posto Indígena de Atração Abonarí II.

 

Como se pode observar, todos os ataques dos Waimiri-Atroari ocorreram entre o final de setembro e meados de janeiro e, segundo depoimentos de sobreviventes, em todos eles o Cacique Maruaga esteve presente.

 

FESTA EM SETEMBRO

 

Em um dos seus relatórios, datado de novembro de 1973, onde apresenta os aspectos fisio-demo-sócio-gráficos sobre os Waimiri-Atroari, Gilberto Pinto Figueiredo Costa assinala que:

 

Em setembro, às vezes durante todo o mês, os Waimiri-Atroari costumam fazer algumas comemorações nas maloca centrais, possivelmente dedicadas em oferenda às plantações que são usualmente feitas em outubro e novembro.

 

Estas festas também são citadas pelo, índios Wai-Wai que já mantém contato com os elementos da FUNAI e que afirmam participar muitas vezes das mesmas que se realizaram numa maloca próxima à Cachoeira Criminosa. Os Wai-Wai, entretanto, não entram em detalhes sobre o cerimonial, nem informam a que ele se destina.

 

 

 

 

 

Solicito publicação:

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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