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Hiram Reis e Silva

A Terceira Margem – Parte CCXLIV - Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 1ª Parte – XXIV Forte Coimbra – Corumbá – II


Pescaria no Pantanal (Timothy Radke) - Gente de Opinião
Pescaria no Pantanal (Timothy Radke)

Bagé, 23.06.2021

 

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
1ª Parte – XXIV

 

Forte Coimbra – Corumbá – II

 

09.08.2017: Passamos, às 18h00, pela Ponte Poeta Manoel de Barros ([1]), localizada no Porto Morrinho, que faz a ligação de Corumbá e Ladário ao restante do Mato Grosso do Sul, através da BR-262. A ponte tem 1.890 m de extensão e vão central de 110 m de comprimento. A programação era pernoitar na Foz do Miranda, mas, com pane seca a vista, combinamos ancorar à jusante do Porto Manga (19°15’28,75” S / 57°14’06,05” O), onde poderíamos abastecer.

 

10.08.2017: Depois do café, percorremos a BR-228 (Estrada Parque) ([2]), uma trilha aberta por Rondon no final do século XIX, das 06h00 às 10h30, um bom exercício aeróbico para uma Expedição extremamente sedentária como a nossa. O Dr. Marc fez questão de levar o crânio de um jacaré morto e os demais expedicionários fotografaram alguns animais ao longo da rodovia.

 

O grupo era barulhento demais assustando a fauna e, no retorno, resolvi ir à frente e, graças a essa medida, avistei um grupo de filhotes de jacaré. Aguardei a equipe chegar e apontei para o Dr. Timothy Radke aonde se encontravam os pequeninos.

 

Na volta da Estrada Boiadeira, o Cmt Elierd, que nos aguardava com a voadeira, comunicou-nos que uma equipe do 17° B Fron (Corumbá) comandada pelo Sgt Langue nos aguardava em Porto Manga para apoiar-nos no deslocamento pela BR.

 

Uma falha na comunicação que acarretou um deslocamento desnecessário de uma viatura militar. Aproveitamos para visitar o posto telegráfico construído por Rondon em palafita que resiste heroicamente até os dias de hoje. 

 

Partimos para Corumbá, por volta das 11h00, aonde chegamos à noite. O “Calypso” ancorou no porto do 17° B Fron e pernoitamos à bordo, a agenda para o dia seguinte era intensa e precisávamos estar descansados para enfrentá-la.

 

11.08.2017: Após o café fomos apresentados ao Comandante do 17° Batalhão de Fronteira Tenente Coronel Niller André de Campos que nos indicou o Ten Agnaldo José Heleodoro de Arruda para nos levar até o Forte Junqueira (Forte da Pólvora). O seu nome homenageia o então Ministro da Guerra, Dr. João José de Oliveira Junqueira, que foi quem determinou sua construção.

 

O Forte em alvenaria de pedra argamassada, apresenta planta no formato de um polígono octogonal, com seis ângulos salientes e dois reentrantes, e seis canhoneiras. O Ten Heleodoro é outro historiador que também diverge da localização apontada por alguns para o Porto Canuto ([3]).

 

 

 

Relatos Pretéritos: Forte Junqueira

 

João Severiano da Fonseca (1880)

 

Cinco Fortins defendem Corumbá pelo lado do Rio e uma cortina por terra. Concluídos uns na administração do Sr. Conselheiro Tenente-coronel Francisco José Cardoso e outros na do General Hermes, receberam a denominação de S. Francisco e de Junqueira, em honra do Presidente e do Ministro da Guerra, estes os de Conde D’eu, Duque de Caxias e Major Gama, este em homenagem ao, hoje Ten-Cel, o Sr. Dr. Joaquim Gama Lobo d’Eça, o modesto e distinto engenheiro que os planejou. (FONSECA)

 

Augusto Fausto de Sousa (1885)

 

Presídio fundado, em 1778, por ordem do Governador Luiz de Albuquerque, na margem direita e acima de Nova Coimbra e em honra ao Governador teve o nome de Albuquerque Velho. Ocupado pelos Paraguaios em 03.01.1865, foi por eles fortificado com trincheiras regulares armadas com 6 canhões, e aí se mantiveram até junho de 1867 e, no dia 13, foi tomada de assalto pelo 1° Btl Provisório comandado pelo Major Antônio Maria Coelho, tendo sido tão enérgica a defesa, que foram mortos todos os oficiais paraguaios e quase todos os soldados, excetuando apenas os 27 prisioneiros, e esses mesmos feridos. Esta vitória trouxe o grande resultado da evacuação dos pontos do São Joaquim, Pirapitangas, Urucu e Albuquerque, que com outros anteriormente abandonados constituíam o Distrito Militar do Alto Paraguai. Evadida a posição pelas forças brasileiras por causa do flagelo da bexiga, foi novamente ocupada por paraguaios em 08.07.1867 até abril de 1868, em que de uma vez a abandonaram.

 

Terminada a guerra foram planejadas novas fortificações pelo Major Joaquim da Gama; e segundo comunicações oficiais, compõe-se ela de uma linha contínua com baluartes cobrindo a vila, com proporções para admitir 60 canhões, e o Forte do Limoeiro, à margem do Rio, uma milha abaixo da Vila, cruzando fogos na direção do canal com os Fortins São Francisco, Junqueira, Conde d’Eu, Duque de Caxias e Major Gama, construídos durante as administrações do Coronel Cardoso e Brigadeiro Hermes. A posição é excelente, o porto capaz de receber naus, e as Fortificações bem delineadas; é pena porém, diz o Dr. João Severiano na sua “Viagem ao Redor do Brasil”, que só se limpe o mato, que nelas cresce, quando se espera a visita do Presidente e autoridades da Província. (RIHGB – XLVIII – II, 1885)

 

O Ten Heleodoro, nosso dileto historiador, conhece muito bem o contexto histórico em que se processou a construção do Forte Junqueira e dos eventos que se sucederam. O Ten Cel Niller, mais tarde, homenageou-nos com uma emocionante Formatura Matinal. Estático, visivelmente emocionado, com os olhos a marejar, relembrava os velhos tempos em que tive a honra de envergar, orgulhoso minha segunda pele ‒ a farda verde-oliva. O Comandante fez-me a entrega, como oficial mais antigo da Expedição, de uma bela recordação que, por dever de justiça, repassei, mais tarde, ao Dr. Marc Meyers, mentor da Expedição.  

 

Ainda na parte da manhã os membros da Expedição fizeram uma apresentação, no 17° B Fron, a respeito dos objetivos, dificuldades e sucessos enfrentados pela Expedição Centenária, em 2014, na complexa navegação do Rio Roosevelt, em 2015, na versátil jornada de Cáceres à Vilhena em que empregamos voadeiras, mulas, viatura além de realizar uma extenuante marcha a pé, bem diferente da etapa que ora realizamos em uma confortável embarcação regional. O almoço foi servido na Casa de Pedra do 17° B Fron, com direito a música ao vivo e uma visão panorâmica do Rio Paraguai e do Pantanal que se estende por uma bela planície aluvial desmedidamente vasta onde se sobressai o “Morro do Sargento”.

 

Filmete

 

https://www.youtube.com/watch?v=_fCg7y98JIU

 

https://www.youtube.com/watch?v=GPT99KsJjD8&t=38s

 

https://www.youtube.com/watch?v=z6sVrma9a24

 

https://www.youtube.com/watch?v=zlPfAYWRGpA&t=18s

 

Bibliografia

 

FONSECA, João Severiano da. Viagem ao redor do Brasil 1875-1878 (Tomo I) – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Tipografia de Pinheiro & C., 1880-1881.

RIHGB – XLVIII – II, 1885. Fortificações no Brasil ‒, Augusto Fausto de Sousa – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – RIHGB, Tomo XLVIII, Parte II, 1885.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·      Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·      Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);

·      Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·      Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·      Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·      Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·      Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·      Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·      Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·      Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·      Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·      Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·      Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·      E-mail: [email protected].



[1]    Ponte Poeta Manoel de Barros: Lei 4.685, de 15.06.2015 ‒ Diário Oficial do Estado de Mato Grosso do Sul.

[2]    Estrada Parque Pantanal (EPP), também conhecida como Estrada da Integração, Estrada Boiadeira ou Estrada da Manga.

[3]    Marco simbólico do fim da Retirada da Laguna, situado às margens do Rio Aquidauana, MS, antes dos retirantes seguirem para Cuiabá.

Galeria de Imagens

  • Hotel Galileo
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  • Forte Junqueira, MS
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  • Formatura do 17° B Fron
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  • Estrada Boiadeira
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