Terça-feira, 4 de maio de 2021 - 06h00

Bagé, 04.05.2021
Navegando o Tapajós ‒ Parte XXII
Cerâmica Santarena IX
Joseph
de Laporte, no seu “O Viajante Universal,
ou Notícia do Mundo Antigo e Moderno”, editado em Lisboa, no ano de 1804,
faz as seguintes considerações sobre o curare:
Carta CCCLXXXVII
DOS
MORTAIS VENENOS DE QUE USAM
A Nação Caberre, a mais desumana, brutal e
carniceira de quantas sustenta o Orenoco, é a única possuidora do mais violento
veneno, que a meu ver há na redondeza da terra. Esta Nação só conserva o
segredo, e a fábrica dele, e logra a sua renda pingue ([1]) do
resto de todas aquelas nações, que por si, ou por terceiras pessoas, concorrem
à compra do curare, que assim se chama. Vende-se em umas panelinhas novas, ou
pequenos vasos de barro, que a que mais contém terá quatro onças daquele
veneno, mui parecido na sua cor com o arrobe ([2]) subido
de ponto: não tem sabor, nem acrimônia ([3])
especial: mete-se na boca, e traga-se sem perigo algum, com tanto que nem nas
gengivas, nem em outra parte da boca haja ferida com sangue, porque toda a sua
atividade e força é contra ele, em tal grau, que tocar uma gota de sangue, e
coalhar-se todo o corpo com a velocidade de um raio, tudo é um.
É maravilha o ver que ferido o homem
levemente com uma ponta de flecha de curare, ainda que não haja mais rasgadura
que a que faria um alfinete, coalha-se-lhe todo o sangue, e morre tão
instantaneamente, que apenas pode dizer três vezes Jesus. Um soldado, e depois
Alferes da escolta de nossas missões, oriundo de Madrid, chamado Francisco
Masias, homem de brio e de valor, grande observador da natureza e das
propriedades das plantas e dos animais, e até dos insetos, foi o primeiro que
me deu a notícia da instantânea atividade do curare. Suspendi meu juízo, e o
remeti à experiência. Apareceu logo uma manada de macacos amarelos, grande
comida para os Índios, e na sua língua se chamam arabata. Todos os Índios
companheiros se alistaram para matar cada um quantos pudesse; e tomando eu um
Índio de parte, lhe pedi que flechasse um daqueles macacos, o qual, parado em
pé sobre uma folha de palmeira, com a mão esquerda segurava outra folha mais
alta: deu-lhe a ponta da flecha no peito, levantou a mão direita, e fez ademão
de querer arrancar a flecha, como o fazem quando as tais não têm curare, porém
ao mesmo tempo de fazer o ademão, e sem acabar de chegar a mão à flecha, caiu
morto ao pé da palmeira. Corri, ainda que estivesse perto, e não lhe achando o
calor no exterior do corpo, mandei abri-lo desde o peito até abaixo, e não lhe
achei indício algum de calor, nem também no mesmo coração. À roda deste havia
muito sangue coalhado, preto, e frio; no resto do corpo quase não havia sangue,
e o pouco que lhe achei no fígado estava do mesmo modo que o do coração; no
exterior tinha uma escuma fria de cor um pouco alaranjada, e coligi que o frio
sumamente intenso do curare esfria instantaneamente o sangue, e que este, à
vista do seu contrário, vai refugiar-se no coração; e não achando nele suficiente
abrigo, se coalha, e gela, e ajuda a morrer mais depressa o vivente,
sufocando-lhe o coração.
Deixo outras ilações que fiz da atividade
do curare para os curiosos , e vou a outra admiração; e é, que à minha vista
fez o Índio em pedaços o macaco, o pôs na panela e fez–lhe fogo, e a mesma
diligência fizeram os outros Índios com seus macacos: o meu reparo não era que
comessem daquela carne, nem por ser de macaco, nem por ser morta com veneno: o
que me admirava era que aqueles grumos de sangue envenenado, que em si
continha toda a atividade do veneno, foram também parar dentro das panelas, e
depois nos estômagos dos Índios. Fiz-lhes várias perguntas sobre a matéria, e
fiquei tão satisfeito de suas respostas, que comi de uma de suas olhas o
fígado, que no saboroso pode competir com o do mais tenro leitão, e ao depois,
em semelhantes batalhas com os monos, sempre pedia fígado para provar dos
despojos.
O mesmo instantâneo efeito reconheci depois
nos tigres, antas, leões, e outras muitas feras e aves: finalmente, é tanto que
o Índio nem sequer se assusta quando repentinamente lhe sai um tigre cara a
cara; então, com grande paz, saca sua flecha, faz a pontaria e dispara com a
certeza de que, com sua destreza, não erra tiro; e com mais certeza de que com
tanto que lhe pique levemente a ponta do nariz, ou qualquer outra parte do
corpo, dá um, ou dois saltos, e cai morto. A vista deste inaudito e fatal
veneno, e à vista da grande facilidade com que todas as nações do Orenoco e de
suas dilatadas vertentes o conseguem, não posso conter-me sem exclamar louvando
a sábia providência do Altíssimo, que dispôs que, não obstante de o saberem, e
fazerem muitos danos, não sabiam bem aqueles bárbaros as invencíveis armas que
têm no seu curare. Que Missionário, nem que soldado poderia viver entre eles,
se desprezada pelos mesmos a silenciosa fúria de sua seta e curare, não se
atordoassem com o estrépito contingente da espingarda?
Digo contingente, já na pólvora que não
pega, já na pontaria que não é fixa, já nas muitas águas – que impedem
totalmente seu manejo, quando pelo contrário, a ponta do curare, nem tem
contraveneno, nem cura, nem dá tempo para clamar a Deus.
Disse sem cura nem antídoto, porque ainda
que um rapaz descobriu a um missionário que, ao que tem sal na boca, não faz
mal o curare, o que achou ser certo depois de várias experiências feitas nos
animais, não é praticável o tal remédio aos homens; porque quem aturará o sal
largo tempo na boca? Se está na algibeira, não dá o veneno lugar a sacá-lo.
Carta CCCLXXXVIII
CONTINUAÇÃO
DOS VENENOS DO ORENOCO
Na carta anterior, tereis visto, não sem
admiração a força eficaz do curare: passemos a examinar a sua fábrica
singularíssima. Importa saber que toda a peçonha do curare se origina de uma
raiz do mesmo nome, que nunca dá folhas nem renovos, e ainda que cresce, sempre
anda escondida; e para escondê-la mais buscou, ou assinou-lhe o autor da
natureza, não a terra comum ao resto das plantas, mas sim um lodo podre e
corrupto daquelas lagoas, que não têm desaguadouro: e por tanto as suas águas
só em caso de grave necessidade se bebem, por serem grossas, de má cor, de pior
sabor, e de cheiro correspondente.
Por entre o lodo corrupto sobre que
descansam aquelas águas pestíferas, nasce e cresce a raiz do curare, parto
legítimo de todo aquele montão de imundícias. Extraem os Índios Caberres estas
raízes, cuja cor é parda, e depois de lavadas e cortadas em pedacinhos, as
machucam e põem em panelas grandes a fogo manso.
Buscam para esta operação a velha mais
inútil da povoação, e quando esta cai morta com a violência do vapor das
panelas, como de ordinário acontece, logo substituem outra velha no seu lugar,
sem que elas repugnem este emprego, nem a povoação, nem a parentela o levem a
mal, pois elas, e eles sabem que este é o paradeiro das velhas. À proporção que
se vai amornando a água, vai a pobre velha preparando a sua morte enquanto, de
panela em panela, vai esfregando com água, e espremendo aquela raiz machucada,
para que, com mais facilidade vá expelindo seu veneno, com cujo suco se vai
tingindo a água, que não passa de morna, até tomar a cor de arrobe claro;
então, a mestra espreme o caldo dentro da panela e deita, já fora como inúteis
aquelas raízes sem suco. Mete logo mais lenha, e principia a ferver com força;
a pouco espaço de ferverem as panelas, já envenenada, cai morta, e entra a
segunda, que às vezes escapa, e às vezes não.
Chega finalmente a ponto o cozimento,
diminui a terça parte do caldo, e condensado já grita a desventurada
cozinheira, e acode logo o Cacique com os Capitães, e o resto da gente da
povoação ao exame do curare, e a ver se está ou não em seu devido ponto. Molha
o Cacique a ponta de uma vara no curare, e ao mesmo tempo um daqueles Índios,
com a ponta de um osso, faz uma ferida na perna, na coxa, ou no braço, e ao
mesmo tempo de assomar o sangue pela boca da ferida, chega o Cacique a ponta da
vara com o curare, porém não toca, nem arrima o curare ao sangue, mete-a
somente perto, porque se o tocasse, e retrocedesse, infeccionaria todo o das
veias, e morreria logo o paciente. Se o sangue que estava a ponto de sair
retrocede, já está o veneno no seu ponto; se fica parado, e não retrocede,
falta-lhe já pouco para o seu ponto; porém se o sangue corre para fora, como
naturalmente deve correr, falta-lhe muito fogo e assim ordenam à triste velha
que prossiga no seu perigo próximo à morte, até que, feitas depois as provas
necessárias, aquela natural antipatia com que o sangue se retira violentamente
do seu contrário, lhes manifesta que já o curare subiu à sua devida, e suma
atividade.
Apesar de ter tido muitas vezes o curare
nas minhas mãos, não sou testemunha ocular da sua referida fábrica; porém tenho
a individual notícia dele por tão seguras vias, que não me dão lugar à menor
dúvida, ou suspeita. Depois que baixei ao Orenoco, tive as mesmas individuais
notícias por Índios de várias nações, aqueles mesmos que concorrem à feira
anual do curare, e voltam com suas panelinhas, mais guardadas que se fossem de
um bálsamo mui precioso, cujas declarações, ainda que de tão diversas gentes,
sempre achei concordes em tudo com a primeira, e individual notícia que disse e
assim não tenho razão alguma de duvidar em quanto à certeza do referido na
fábrica do curare. Não é menos digna de saber-se a duração deste veneno, isto
é, a obstinação com que conserva toda a sua atividade e vigor até que se acabe
de gastar todo, apesar de tê-lo os Índios sem resguardo algum, sem tapar as
panelinhas em que o compram, sem evaporar-se, nem perder nada da sua mortal
eficácia; porém, finalmente, como está ali junto, e condensado, não é muito de
admirar que conserve toda a sua atividade. A coisa singular e digna de
admirar-se é que, uma vez untadas as pontas das flechas com mui módica porção,
que apenas chegará a uma meia oitava o que recebe cada ponta, conserva e guarda
toda a sua força por muitos anos; de modo que até agora não se experimentou
que, por largos anos, que aquela leve untura ([4]) tenha
estado sem resguardo algum na ponta da flecha, tenha já mais sido menor a força
do curare.
Só uma coisa reparei em várias viagens
àquelas selvas; era que, ao sacar as flechas da aljava, ou para matar monos ou javalis,
ou para os rebates repentinos, umedeciam a ponta metendo-a na boca.
Perguntei–lhes a causa, e me responderam
sempre: “que com o calor da boca, e a
umidade da saliva, se assegurava mais o tiro, avivando a atividade do curare”,
coisa que me pareceu natural. (LAPORTE)
Em
1833, Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva na sua “Corografia Paraense, ou Descrição física, histórica e política da
Província do Grão Pará” faz as seguintes considerações a respeito das
flechas ervadas (envenenadas):
O uso das flechas ervadas remonta à mais
alta antiguidade, pois já era conhecido na Ásia muitos séculos antes de
Alexandre; na Itália antes da fundação de Roma; na América, antes da chegada de
Colombo. Algumas tribos Indígenas desta Província apenas se servem delas para
as caçadas e não nas guerras, semelhantes nisto aos antigos Gallos.
O Padre Plumier, na sua obra “Nova plantarum
Americanarum species”, dá o nome de Mancanilla, que é o “Hippomanes vegetal de Brown”, a certo
arbusto que se encontra nas Antilhas e Ilhas de S. João do Porto Rico, de cujo
suco se extrai famoso veneno pelos Caraíbas: este arbusto ainda é mais perigoso
que o “verari” porque a ejaculação da
“seve” produz cegueira, e algumas
vezes a morte subitamente.
O “verari”,
porém, ou curare, segando ([5]) outros,
sem a mesma comisturação ([6]) de
outras partículas vegetais e animais, é mortífero. Pertence à classe dos cipós,
dá-se nos lugares pantanosos, suas flores tetrapétalas são de cor
amarelo-pálido, às quais sucedem pequenos frutos do formato de uma fava, numa
cápsula periforme; os Índios são ciosos em patentear a maneira do fabrico,
todavia este consiste na extração por meio do fogo dos sucos venenosos da casca
que lhe é escabrosa, e raízes colhidas no tempo de verão, tomando na ação do
cozimento uma forma espessa, à qual então reúnem outras substâncias vegetais
venenosas, e formigas tocandeiras ([7]),
guardando depois o veneno em pequenas panelas, onde se conserva em continua
fermentação que perde pelo trato do tempo, tornando então a sofrer nova ebulição
no fogo, misturando-se-lhe o tucupi ([8]) ou sumo
da mandioca.
Conhece-se a perfeição da composição
tocando, com qualquer ponta impregnada no veneno, pois que este adquire ([9]) sangue
fresco, em este causa uma instantânea coagulação; se o contrário porém, sucede,
torna para o fogo, e são mui prejudiciais os vapores que exala durante a
decocção, àqueles que os recebem pela boca ou nariz, operação esta que os
mesmos Índios previdentes encarregam às velhas decrépitas e inúteis.
Conservam as flechas impregnadas por longos
anos a sua força, e costumam os Índios, antes de as disparar, metê-las na boca
para as salivarem, do que nenhum dano resulta, pois que o perigo consiste em
ferir a cútis: então segue-se rapidamente a morte, porque o sangue toma uma
coagulação súbita, ou, o que importa a mesma coisa, uma secreção da linfa dos
glóbulos sanguíneos: os sintomas dos mortos com esse veneno não diferem dos da
mordedura de qualquer cobra; o sangue coagulado nos grandes vasos estende-os
excessivamente, e a linfa amarela introduzida nos capilares faz aparecer sobre
a cútis manchas lívidas.
Não se conhece antídoto contra tal veneno,
o açúcar passa pelo melhor, posto que noutros países o sal seja mais eficaz,
como se experimentou em Leide, em 1744, com as flechas levadas por Condamine.
Sabe-se por Celso que os Romanos costumavam diminuir a força do veneno,
chupando a parte ofendida: é provável que a saliva, introduzida assim na chaga,
contribua também a diminuir pelo seu sal alcalino a ação do veneno; não é,
porém nociva a carne dos animais mortos com esse veneno conhecido no país por “ervadura”. (CERQUEIRA E SILVA)
Bibliografia
CERQUEIRA E SILVA, Ignacio
Accioli de. Memórias Históricas e
Políticas da Província da Bahia – Brasil – Salvador, BA – Imprensa Oficial
do Estado, 1919-1925.
LAPORTE, Joseph de. O Viajante Universal, ou Notícia do Mundo Antigo e Moderno – Volume
28 – Portugal – Lisboa – Tipografia Rollandiana, 1804.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
[1] Pingue: lucrativa.
[2] Arrobe: sumo de uvas frescas, mosto.
[3] Acrimônia: acidez.
[4] Aquela leve untura: aquele leve unguento (essência).
[5] Segando: cortando.
[6] Comisturação: mistura.
[7] Tocandeira (Paraponera clavata): é um inseto himenóptero
classificado na grande família dos formicídeos, subfamília das poneríneas. De
cor preta, chega a medir 2,5cm de comprimento. Ocorre da Nicarágua à Amazônia,
região onde é também conhecida como tucandeira, tucanaíra, formiga-agulhada,
formiga-cabo-verde, formiga-de-febre, formigão e outros nomes. Dentro das
matas, onde vive, a tocandira constrói ninhos subterrâneos na base das árvores,
cujas copas utilizam para forragear. A maioria de suas atividades restringe-se
ao período noturno. As picadas no homem causam manchas e calombos na pele,
mal-estar generalizado e vômitos. A dor, profunda e penetrante, é sentida por
períodos de 12, 24 ou até 48 horas. Compressas de água quente, na região
atingida, auxiliam a difusão e consequente neutralização do veneno.
(www.biomania.com.br)
[8] Tucupi: ácido cianídrico.
[9] Adquire: em contato com.
Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
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