Quarta-feira, 15 de setembro de 2021 - 06h00

Bagé, 15.09.2021
(Castro Alves)
Mas súbito da noite no arrepio
Um mugido soturno rompe as trevas...
Titubantes ‒ no álveo do Rio ‒
Tremem as lapas dos titãs coevas!
Que grito é este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?
É o brado atroador da catadupa
Do penhasco batendo na garupa! [...]
Então doido de dor, sânie babando,
Com a serpente no dorso parte o touro...
Aos bramidos os vales vão clamando,
Fogem as aves em sentido choro...
Mas súbito ela às águas o arrastando
Contrai-se para o negro sorvedouro...
E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,
Quebra‒o nas roscas, donde jorra o sangue.
Assim dir‒se‒ia que a caudal gigante
‒ Larga sucuruiúba do infinito ‒
Com as escamas das ondas coruscante
Ferrara o negro touro de granito!
Hórrido, insano, triste, lacerante
Sobe do abismo um pavoroso grito...
E medonha a suar a rocha brava
As pontas negras na serpente crava!
Dilacerado o Rio espadanando
Chama as águas da extrema do deserto...
Atropela‒se, empina, espuma o bando...
E em massa rui no precipício aberto...
Das grutas nas cavernas estourando
O coro dos trovões travam concerto...
E ao vê‒lo as águias tontas, eriçadas
Caem de horror no abismo estateladas... [...]
24.10.2014 (sexta‒feira) – AC03 –
AC04
Iniciamos logo
cedo o extenuante transporte de todo o material para o acampamento a jusante do
Salto Navaité. Existia uma trilha relativamente recente o que facilitou o
transporte das embarcações, utilizando um carrinho que o Dr. Marc trouxera dos
EUA para esta finalidade. Como o trajeto era muito longo, resolvi realizar o
transporte em 3 etapas, assim recuperava o fôlego após cada carregamento
retornando sem carga até a etapa anterior até chegar, por fim, ao local do
acampamento. Levamos a manhã inteira para concluir a portagem.
Após o almoço,
passamos a tarde reconhecendo e fotografando o complexo de Navaité. O maior
estreito ou angustura, como diriam nossos avoengos, de todo o Roosevelt. Sua
largura, que a montante, variava de 20 a 30 m, passava agora por uma estreita
fenda de menos de 02 m de largura, e, como sua vazão permanece praticamente
idêntica à de montante, isso indica que sua seção transversal é provavelmente a
mesma, ou seja, a profundidade neste local é muito grande, em torno de 15 a 20
metros. Observando os grandes lajedos de arenito e conglomerados friáveis, eu
identificava alguns deles, onde Rondon, Roosevelt e Cherrie tinham sido fotografados.
A beleza agreste daquelas formações, o
medonho fragor do caudal confinado, de repente, em uma angustura tão incomum e
as águas tumultuárias e refulgentes, emocionavam‒me. Engarupado na anca da
história, eu via ou sentia a presença daqueles ilustres personagens que há cem
anos palmilharam aqueles sítios, gravando indelevelmente sua passagem em cada
um deles.
25.10.2014 (sábado) – AC04 – Ponte
Ten Marques
Parti alguns minutos antes dos demais
com o intuito de visitar a fazenda que aparecia nitidamente à margem esquerda
do Rio. Seu Gerente era um mineiro sisudo, mas boa praça, que morava sozinho
naqueles ermos sem fim. O Rio apresentava agora um traçado bastante suave,
pleno de estirões e amplas curvas. Estávamos próximos à ponte que dá acesso à
Aldeia Tenente Marques, chefiada pelo João “Brabo”
([1])
quando aproximou‒se numa voadeira, o 3° Sgt BM Douglas e um nativo.
Cumprimentamos efusivamente o amigo, mas estranhamos o fato de ele estar tão
próximo à primeira ponte (km 100) e não na ponte do Km 124, onde deveria estar
e isso me inquietou. Logo adiante cruzou velozmente uma lancha com 7 índios
armados e carrancudos: confirmando meu mau pressentimento. O 3° Sgt BM Douglas
fora informado que o João “Brabo” ia
impedir‒nos de prosseguir a partir da 1° ponte (Tenente Marques).
Aportamos na margem esquerda, a
montante da ponte (11°38’32,52” S / 60°27’13,79” O), depois de navegar 29 km, fora
da Terra Indígena onde fomos informados pelo 3° Sgt BM Douglas e o Cabo BM
Hiuri Marcel de Sousa Lopes que não poderíamos continuar a partir daquele
ponto. Logo depois do Sgt BM Douglas ter explicado a situação, comecei a
descarregar o caiaque, colocando as tralhas no reboque da camionete dos
bombeiros enquanto meus parceiros ainda imaginavam que poderiam convencer o tal
do João “Brabo” de nos deixar passar.
Eu conhecia os antecedentes do fanfarrão e sabia que ele não voltaria atrás. De
repente surge o tal João, na Ponte, vestindo apenas um calção e um cocar,
seguido de dois de seus capangas e diversos adolescentes e crianças, entoando
canções tribais. O Sgt BM Douglas nos informara que, quando adentrou na Aldeia
dos Cinta‒Larga, o João e demais lideranças estavam participando, devidamente
paramentados com roupas de grife e tudo mais, de uma reunião.
Tão logo ele se aproximou de nós,
começou a falar, intercalando em voz alta o português com sua língua nativa,
dizendo que estávamos invadindo sua Terra. A pantomima durou alguns minutos e o
líder tribal fingia estar muito irritado com a nossa presença. Chegou a cogitar
de que poderia nos manter como reféns na Aldeia até que lhe fosse assegurada a
construção de uma nova ponte sobre o Roosevelt. Quando ele disse isso olhei
acintosamente para a pistola que o Coronel Angonese trazia à cintura. Podíamos
perceber, nitidamente, que ao usar de palavras mais chulas ou ameaçadoras, ele
optava pela língua nativa permitindo que seus seguidores admirassem sua
pretensa “bravura” e nós ficássemos
sem saber o que ele dizia.
Depois de encerrar sua engendrada e
burlesca encenação, ele foi amainando a linguagem e permitiu que
fotografássemos a ele e as crianças Cinta‒Larga. Terminamos o carregamento,
embarcamos na viatura do Corpo de Bombeiros e nos deslocamos para Vilhena, onde
teríamos de refazer nosso planejamento, descobrindo um novo ponto de partida a
jusante do Rio Cardoso já no Estado do Mato Grosso e longe da TI Cinta‒Larga. Deixávamos
para trás, portanto, o trecho mais preocupante de toda a jornada e onde a
Expedição Original mais penou. Tínhamos percorrido, até então, apenas 100 km do
Rio Roosevelt. Da atual Ponte Tenente Marques até a Foz do Rio Capitão Cardoso
a Expedição Científica demorou quase um mês (07.03.1914 a 06.04.1914), para
percorrer somente 110 km (uma média de 3,55 km/dia) e uma diferença de altitude
de 133 metros (1,2m/km). Foi neste trecho onde ocorreram alguns dos reveses
mais significativos de toda a jornada:
² 15.03.1914:
Canoeiro Antônio Simplício da Silva (Afogado);
² 16.03.1914:
Cachorro Lobo (Flechado);
² 30.03.1914:
Presidente Theodore Roosevelt (Perna ferida);
² 03.04.1914:
Cabo Manoel Vicente da Paixão (Assassinado);
² 03.04.1914:
Júlio (Foragido);
² 07.03.1914 a
06.04.1914: Naufrágio de 4 canoas.
A repórter Juliana Arini, da Revista
Época, também testemunhou a ridícula encenação de João Brabo – momento e
cenários diferentes mas um idêntico roteiro e as mesmas ameaças:
Diário: A Terra dos Canibais
Revista
Época, Juliana Arini, 24.02.2007
Depois de cinco horas de voo e
seiscentos quilômetros de estrada, finalmente conseguimos chegar a Cacoal, em
Rondônia. A ideia era visitar o nordeste do estado para fazer uma matéria sobre
os índios cintas‒largas, que vivem sobre a maior jazida de diamantes do Brasil.
De tradição guerreira, os cintas‒largas são um dos povos mais temidos da
Amazônia. Ficaram isolados durante séculos na região entre os rios Roosevelt e
Aripuanã. Vivem em uma porção ainda intacta da Floresta Amazônia, onde
mosquitos “porvinhas” e mutucas tiram sangue dos visitantes desavisados.
Acusados de serem os responsáveis pela chacina de 29 garimpeiros, em 2004, os
cintas‒largas já foram alvo de inúmeras matérias negativas. Por isso, e com
toda razão, detestam jornalistas.
Apesar da resistência de falaram
com a imprensa, havia conseguido que alguns caciques aceitassem conversar sobre
o assunto mais repelido na região, o garimpo ilegal de diamantes do igarapé
Laje. Quando chegamos a Cacoal, descobri que meu contato, o cacique Pio, estava
preso na aldeia, depois de um acidente com o carro da Fundação Nacional de
Saúde – Funasa. Uma antropóloga que encontrei em Porto Velho me falou sobre
outra liderança que eu deveria procurar, o índio João Bravo, um dos caciques
mais influentes da região. A primeira sensação de estar entrando em outro mundo
começou em Riozinho, cidade próxima a Cacoal, onde vários cintas‒largas
compraram casas. O povoado é uma espécie de aldeia urbana, na qual os índios ficam
quando precisam procurar tratamento médico, receber aposentadorias ou comprar
roupas e mantimentos.
Os funcionários da Funai me contaram que o cacique João Bravo cinta‒larga possuía uma casa em Riozinho e tive a ingênua ideia de ir visitá‒lo para conversar. Como já tinha encontrado com seus funcionários ‒ uma cozinheira e um vigia ‒ resolvi dar dois passos além da porta de entrada da casa, para ver quem estava na varanda. Péssima ideia. O cacique estava sentado à mesa, de costas para nós, sem camisa e de cara fechada. Era corpulento e baixo, como a grande maioria dos cintas‒largas. Pelo seu semblante irritado, eu percebi que não éramos bem‒vindos.

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