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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

A Mangueira e a Costa Gaúcha


 A Mangueira e a Costa Gaúcha - Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 28.01.2016.

O Novo Argonauta

(José Agostinho de Macedo)

Então, toldado o líquido Horizonte

De acasteladas nuvens, brame o vento,

Soa o rouco trovão, lança a tormenta

Sobre um mar outro mar, sorvem-lhe as ondas

O convulso Baixel, de novo aos ares

As encruzadas ondas o vomitam:

Em hórrida peleja os Elementos

Em cada vaga a sepultura mostram.

Embora o vento predominante na região seja o NE, os mais fortes tem sua origem no quadrante Sul e Oeste, sendo os ventos SO e O mais frequentes no período que se estende de abril a agosto. No intervalo, de seis a dez dias, que ocorre entre as frentes frias, os fortes ventos oriundos do quadrante Sul pressionam o mar contra a costa encobrindo, não raras vezes, toda a extensão da praia. O vento SSE, que dura, geralmente, três dias provocou diversos naufrágios ao longo dos tempos recebendo o apelido de “Carpinteiro da Costa”, pois lançava os destroços de madeira das embarcações que soçobraram na praia. O vento NE predomina no intervalo entre as frentes frias forçando o mar a recuar e expondo as longas e largas praias.

Naufrágios

Desde o início do século XVI, verificaram-se diversos naufrágios ao longo da costa entre a Barra da Laguna dos Patos e o Arroio Chuí. Considera-se como o naufrágio mais emblemático o do navio inglês Prince of Wales (Príncipe de Gales), nos idos de 1861, que provocou um conflito importante nas já estremecidas relações diplomáticas com a Inglaterra.

Na noite de 11 para 12.07.1887, naufragaram, vítimas de um terrível ciclone extratropical que se abateu sobre o litoral gaúcho, o vapor inglês Cavour, a barca norueguesa Telenak e as embarcações brasileiras Évora, D. Guilhermina e Rio Apa. Por volta das 21h00, sobreveio um temporal, acompanhado por um fortíssimo “Carpinteiro da Costa” que se estendeu até as 02h00, a borrasca foi brevemente interrompida retornando com maior intensidade pelas 04h00. As embarcações não resistiram à ação das ondas de até 6,5 m e soçobraram.

O Vapor inglês Cavour, procedente do Rio de Janeiro, encalhou e afundou ao largo da praia de São José do Norte.

A Barca norueguesa Telenak que partira de Montevidéu com destino à cidade de Pensacola, Flórida, USA, soçobrou na costa de Santa Vitória do Palmar.

A Escuna brasileira Évora, que havia saído de Rio Grande com destino a Macau, hoje território da República Popular da China, encalhou e naufragou a pouco mais de 16 km ao Sul da Barra.

O Patacho nacional Dona Guilhermina, de Rio Grande, procedente do Rio de Janeiro, carregava açúcar para Porto Alegre e naufragou na Praia do Albardão (Sul da praia do Cassino).

Patacho: barco à vela, de dois mastros, vela de proa redonda e vela de ré de formato triangular que lhe permite navegar com vento de proa. (Hiram Reis)

O vapor Rio Apa, da Companhia Nacional de Navegação a Vapor, vindo do Rio de Janeiro com destino a Montevidéu, no Uruguai, naufragou ao largo da Barra de Rio Grande, onde deveria fazer uma escala.

No dia 16.07.1887, o jornal “Eccho do Sul” reportou:

ECCHO DO SUL – URGENTE

Escrevem-nos da Barra, a última hora: infelizmente já não há mais dúvidas sobre o naufrágio do Rio Apa (…) A praia está cheia de destroços e de volumes desde aqui até muitas milhas para o Norte. O Rio Apa foi provavelmente surpreendido pelo furacão no momento em que cruzava a vista do farol; tomado pelo vértice quando virava de bordo ou fazia alguma manobra, adernou precipitando-se no abismo das águas. Não deve estar longe o casco. (ECCHO DO SUL)

Esta terrível tragédia acelerou a construção, em Rio Grande, dos molhes da Barra que evitam o assoreamento do canal de acesso ao porto. A obra foi finalizada somente em 1915, quase três décadas após o desastre.

Um naufrágio, mais recente, porém, permanece vivo na memória de todos – o do navio Altair.  O seu vulto monumental destroçado pela fúria dos elementos ergue-se vigoroso, há 40 anos, na beira da Praia de Cassino fazendo parte das atrações turísticas da região e do dia-a-dia dos habitantes locais. O naufrágio foi assim reportado pelo Jornal Agora de Rio Grande:

A Mangueira e a Costa Gaúcha - Gente de Opinião

Navio Altair – Jornal Agora, 08.07.1976

Tripulantes do barco encalhado estão na cidade – Os 21 tripulantes do navio Altair, da empresa Linhas Brasileiras de Navegação (Libra), que encalhou 18 km ao sul da Barra de Rio Grande aproximadamente às 16h00 de domingo, em meio a uma forte tempestade, foram recolhidos por pescadores e conduzidos à costa, chegando à cidade por volta das 12h40min de ontem, segundo o chefe do setor de navegação da agência da empresa, João Alvariza. Quatorze dos 21 tripulantes estão hospedados no Hotel Paris e sete foram conduzidos para o Hotel Europa. Segundo Alvariza, nenhum deles apresentou problemas de saúde, excetuando-se as consequências da fadiga e das más condições de alimentação que enfrentaram desde que a tempestade começou, no sábado.

O navio adernou e tornou-se impossível fazer fogo no Altair para cozinhar os alimentos. O chefe de navegação da Libra disse que isto obrigou a tripulação a consumir apenas alimentos como bolachas e conservas de que dispunham. A carga de trigo que o navio transportava poderá sofrer as conseqüências de uma rachadura surgida no convés e as possibilidades de recuperá-lo sem novos danos são mínimas. Alvariza disse que, com um calado de 6,40 m, o Altair encalhou a cerca de duas milhas da costa e a rebentação poderá aproximá-lo ainda mais da margem.

Na manhã de ontem, uma equipe de 12 homens da Marinha de Guerra, tendo à frente o comandante da corveta Baiana, rumou para o local do encalhe por terra, portando balsas infláveis para retirar a tripulação. Pescadores das redondezas, entretanto, já tinham conduzido a tripulação à costa e a equipe da Marinha a trouxe à cidade em dois caminhões e uma caminhoneta.

Até às 18h00 de domingo, o rebocador Plutão tentou uma aproximação com o navio, mas a rebentação impediu que isto acontecesse. Agora o Altair está sendo observado apenas da terra por três homens da Libra. João Alvariza disse que somente hoje, talvez, possa se avaliar com mais precisão as condições em que o barco se encontra. A Capitania dos Portos do Estado vai ouvir também o Comandante do Altair para obter maiores detalhes sobre o acidente. O barco tem capacidade de 3.040 toneladas.

Navio Altair – Jornal Agora, 10.07.1976

Dezesseis dos 21 tripulantes do navio Altair encalhado desde domingo 18 km ao Sul da Barra, partirão ao meio-dia de hoje, por ônibus, para o Rio de Janeiro, enquanto os cinco oficiais do barco permanecerão na cidade para prestar depoimento na Capitania dos Portos. Embora se saiba que o Comandante do barco, Raimundo Barcelos, está hospedado no Hotel Europa, ele não foi localizado. Misteriosamente, a telefonista do hotel afirmou mesmo que o Comandante Barcelos não estava hospedado ali e que qualquer informação sobre o fato de ele estar no hotel teria sido um engano. Também o Comandante da Capitania dos Portos não pode dar entrevista e é difícil saber quais as medidas que estão sendo tomadas para salvar o barco.

Navio Altair – Jornal Agora, 11.07.1976

É quase certo que Altair não será salvo – Dificilmente o navio Altair, encalhado desde domingo ao Sul do Cassino, poderá ser tirado inteiro do cômoro de areia em que foi jogado, por circunstâncias ainda não esclarecidas, durante uma tempestade. Ontem pela manhã, o Comandante Eugênio Paiva, Diretor da empresa proprietária do Altair, fez uma vistoria no navio, acompanhado de um perito do Instituto de Resseguros do Brasil, e constatou a existência de uma rachadura no caso, o que impediria uma operação de reboque, esta operação faria com que o navio, fatalmente, fosse partido ao meio. Dois porões do Altair foram invadidos pela água, e a carga de 3.040 toneladas de trigo está totalmente perdida. O convés também apresenta uma rachadura e os vagalhões da tempestade de domingo danificaram grande parte do instrumental de bordo. O Comandante Paiva, ao fim da vistoria, transmitiu um relatório para a direção central da Libra, no Rio de Janeiro, e espera uma resposta sobre que providências serão tomadas. Sabe-se, entretanto, que o próprio Comandante Paiva encontrou poucas possibilidades que indiquem algum interesse da empresa em retirar o navio.

Originalmente encalhado a cerca de duas milhas da costa o navio, ao longo dos anos, foi sendo empurrado e se integrou a paisagem da linha da praia. Em 06.06.1976, o navio Altair deixava a navegação e passava a fazer parte das histórias dos incontáveis personagens que por ele passaram.

Para quem se desloca do Cassino, inicialmente o navio é visto como um pequeno ponto no horizonte que vai aumentando com a passagem dos quilômetros até a possibilidade de um contato físico com a sua carcaça corroída pelo mar. No Sul da Barra do Rio Grande, está uma evidência visual do cemitério de navios que se espalha entre o Norte e o Sul da Barra do Rio Grande. (AGORA)

Navio Punta Piedras – Jornal Agora, 09.07.1976

Outro navio encalha com muito trigo – O Punta Piedras, transportando 3.700 toneladas de trigo argentino para o Brasil, encalhou no canal da Feitoria, Lagoa dos Patos. O navio argentino com 26 tripulantes a bordo e 116 m de comprimento está assentado integralmente em banco de areia, após ter sofrido um sensível desvio, já que o canal tem 80 metros de largura.

O Punta Piedras zarpou do porto do Rio Grande na tarde de segunda-feira, com destino a Porto Alegre, onde desembarcaria as 3.700 toneladas de trigo. Nas últimas horas da tarde o acidente foi comunicado e ontem pela manhã o rebocador Stem Winber, da Ciª Navegação das Lagoas dirigiu-se para o local, onde realiza as operações de resgate. A 37 milhas do Rio Grande, o navio argentino – segundo as primeiras informações – aguarda resultados satisfatórios na ação do rebocador, não havendo necessidade de retirada da tripulação de bordo, como aconteceu com o Altair, encalhado desde domingo a 18 quilômetros ao Sul da Barra do Rio Grande. Enquanto isso, a Capitania dos Portos vai ouvir depoimentos da tripulação do Altair para integrar o inquérito instaurado. Diretores da Libra, proprietária do navio, já se encontravam em Rio Grande, mas nada ficou decidido ainda sobre o salvamento do navio e a retirada da carga, 3.040 toneladas de trigo argentino para o Brasil. (AGORA)

A Mangueira e a Costa Gaúcha - Gente de Opinião

Faróis

A frequência de naufrágios diminuiu com a construção de faróis que proporcionaram às embarcações os únicos pontos de referência neste litoral sem acentuadas elevações. O farol da Barra da Lagoa dos Patos foi o primeiro da costa brasileira, construído em 1820 para guiar os navios que chegavam ao porto de Rio Grande. Quando uma forte tempestade o derrubou, foi substituído pelo atual farol em 1852. Somente entre 1909 e 1910 foram construídos os faróis da Barra do Chuí e o farol Sarita, próximo à Reserva Ecológica do Taim e o farol Albardão, que foi substituído por um outro em 1949, sendo considerado o mais solitário da costa brasileira. O farol Verga e o farol Fronteira Aberta foram construídos, respectivamente, em 1964 e 1996, sendo o último derrubado pouco depois por fortes ventos. Ainda assim, acidentes com embarcações ainda acontecem nesse litoral, embora em sua maioria estejam restritos a barcos de pesca que dependem muito das condições meteorológicas ou se arriscam na pesca ilegal em águas rasas próximas da praia. (BARCELLOS & CORDAZZO & SEELIGER  )

Relatos Pretéritos

Manuel Aires de Casal (1817)

A Lagoa da Mangueira, que tem 23 léguas de comprido, e quase sempre uma de largo, está prolongada no intervalo, que medeia entre a costa e a Lagoa Mirim, para onde deságua na Extremidade Setentrional por um esgotadouro (sangradouro) chamado Arroio Taim. (CASAL)

Taim. Freguesia da Província de São Pedro do Rio Grande à beira do Ribeiro do mesmo nome, que faz as vezes de sangradouro da Lagoa da Mangueira. N. S. da Conceição é o orago de sua igreja, que foi criada paróquia por decreto de 28.07.1832, o qual lhe deu por termo as terras da fazenda nacional do mesmo nome, e as que jazem entre o Mar e a Lagoa Mirim desde a vala chamada das Parteiras da parte do Norte, e as fronteiras do Estado Oriental da do Sul. Este termo é cortado em todo o seu comprimento do Norte ao Sul, pela Lagoa da Mangueira. Os fregueses, que não passam de 900, lavravam antigamente trigo, hoje cultivam os víveres do país, e o que não consomem levam a vender à cidade de São Pedro. Alguns também segundo a conveniência do sítio fazem suas criações de gado que exportam para os distritos vizinhos. (SAINT-ADOLPHE)

Auguste de Saint-Hilaire (1820)

ESTÂNCIA DA TAPERA, 23.09.1820, 3 léguas. – Entre a região que percorri e o Oceano há um belo Lago, muito estreito, de 12 léguas de comprimento, começando cerca de Tapera, estendendo-se paralelamente à Lagoa Mirim e ao Mar até ao Capão do Franco, a uma légua e meia da Estância do Curral Grande. Nos mapas dão a esse Lago o nome de Lagoa da Mangueira, mas na região ele é conhecido por Lagoa do Albardão. É a Lagoa Comprida, para o Sr. Chaves. Da extremidade Setentrional desse mesmo Lago vê-se um grande Banhado que se dirige para os lados de Rio Grande e que ao aproximar-se dessa cidade, disseram-me, divide-se em vários ramos cujo conjunto se assemelha aos dedos de uma mão. Outro Banhado termina o Lago na ponta Sul e se prolonga até Jerebatuba. Chama-se Banhado, como indica o nome, aos terrenos banhados por uma pequena quantidade d’água que algumas vezes se esgota. Neles crescem ordinariamente grandes ervas. Não são tão lamacentos como os Brejos propriamente ditos e podem ser considerados como espécie de transição entre os Brejos e os Lagos. Entre o Lago da Mangueira e o Mar, à altura de Estiva, junto à estância do Velho Terras, o terreno se eleva e forma como que uma cumeada que se estende até à altura da estância de João Gomes. Essa elevação tomou, devido a sua forma, o nome de Albardão, que significa albarda grande. Tais detalhes obtive dos habitantes locais, que me pareceram bastante instruídos. (SAINT-HILAIRE)

Albardão: usado no Rio Grande do Sul, designando uma cadeia de cerros alternados de baixadas ou lombada que se alteia à margem dos Rios e Lagunas. Rodolpho Garcia apresenta ainda como significação coxilha pequena. Em Severiano da Fonseca encontramos o seguinte passo: “Do outro lado, o Rio Paraguai, internando-se entre as montanhas ou pequenos albardões, sobre as terras da sua margem direita desde o Jauru, por entre as serranias...” etc. (Viagem ao Redor do Brasil, Volume I – pág. 48). “Note-se que Garibaldi quando atravessou a Lagoa dos Patos, subiu pelo Rio Palmar até onde pôde e depois é que botou os lanchões em cima das rodas, atravessando albardões e Lagoas até chegar a Tramandaí.” (Manoel Alves da Silva Caldeira – Apontamentos para a História da Revolução de 1835-1845, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, III Trimestre, 1927 – pág. 376). No Rio Grande do Sul, a Lagoa Mangueira ou do Albardão é separada do Oceano por uma estreita faixa de terra chamada Albardão, a qual forma a costa do mesmo nome, tão famigerada nos anais da navegação veleira do Sul do Brasil. É vocábulo rio-platense. (SOUZA)

Para completar essa pequena descrição devo acrescentar que ao chegar à guarda de Taim atravessei um regato denominado Arroio Taim, cujas nascentes estão na parte Meridional do Banhado Setentrional do Lago do Albardão e que estabelece comunicação entre esse Lago e o Mirim. O Arroio das Cabeças, que corre ao pé da Chácara do Justino e se lança no Rio Grande, não passa de um dos ramos desse Banhado; por conseguinte o Lago de Albardão se comunica ao mesmo tempo com a Lagoa Mirim e a Lagoa dos Patos. Quase imediatamente ao deixarmos a estância de José Correia atravessamos uma espécie de charco chamado Passo Fundo do Curral Alto, onde a carroça imergiu até ao meio. Esse charco é a parte mais baixa do Banhado que vem de Capilha (Vila da Capilha) e se comunica com o Arroio das Cabeças. Na parte de cá do passo esse Banhado divide-se em dois ramos, entre os quais fica a estrada. O ramo da direita termina na estância da Tapera, onde pousei hoje, e o da esquerda prolonga-se paralelamente ao Lago até à sua extremidade Meridional. É fácil calcular que a extensão e a profundidade dos banhados deve variar segundo a estação e mesmo segundo a quantidade de água pluvial de cada estação. As pastagens hoje atravessadas são menos curtas que as dos dias anteriores, porque o gado não é aqui tão abundante. A erva nova apenas reponta no meio dos tufos dessecados. O terreno é sempre plano. Da casa em que pernoitei até aqui não vi nenhuma estância além da do Curral Alto.

Como os bois do Major Mateus começam a mostrar-se fatigados mandei meu Soldado a essa estância para arranjar, por meio da Portaria que trago, algumas juntas de bois. Quando cheguei só me arranjaram duas juntas, escusando-se o proprietário por não ser possível me atender melhor porque as tropas que estiveram em Santa Teresa levaram-lhe as demais. Prontifiquei-me a pagar-lhe o que pedisse pelas duas juntas, mas nada quis aceitar e até obrigou-me a tomar duas xícaras de café. Esse homem queixa-se amargamente, como muitos outros, dos vexames que lhes causam os militares, os quais usam violência para tomar os cavalos dos estancieiros, vendendo-os em seguida. Outras vezes abatem novilhas nos campos para comerem um par de libras de carne, abandonando o resto. (SAINT-HILAIRE)

José Saturnino da Costa Pereira (1834)

LAGOA DA MANGUEIRA. Na Província do Rio Grande do Sul, ao Sul da Vila de S. Pedro, entre a Lagoa Mirim e o Oceano, com mais de 20 léguas de comprido e uma de largo: é desaguadouro para a Lagoa Mirim, o Rio Taim. Chamam também a esta Lagoa Taquarembó. (PEREIRA)

Domingos de Araujo Silva (1834)

MANGUEIRA(Lagoa da -). Grande Lagoa situada entre o Oceano Atlântico e a Lagoa Mirim e junto ao Albardão; deságua nesta Lagoa (Mirim) por um sangradouro conhecido com o nome de Arroio Taim, tem 18 léguas de comprimento sobre 2 de largura, e era antigamente denominada Saquarumbú. (SILVA)

José Feliciano Fernandes Pinheiro (1839)

O Extremo Austral da Lagoa Mirim é o Saco, que forma o Arroio de S. Miguel, o qual se deriva dos cerros assim denominados. Na sua margem Oriental apenas desembocam o Arroio d’El Rei, que mana de uns pântanos, e o Arroio Itaim ou Taim, que é o escoamento da estreita Lagoa da Mangueira ou Saquarumbó, entre a costa do Mar e os campos que se estendem até a Lagoa Mirim. (VISCONDE DE S. LEOPOLDO)

J. C. R. Milliet de Saint-Adolphe (1845)

MANGUEIRA. Lagoa comprida e estreita da Província de São Pedro do Rio Grande, entre a Lagoa Mirim e o Oceano. Os espanhóis a designam com o nome de Saquarembó. Dá-se-lhe 20 a 23 léguas do comprimento e uma só de largura; deságua no Mar por um Arroio chamado Taim, e fica-lhe ao Norte da Lagoa Gajubá (Cajubá). (SAINT-ADOLPHE)

Arthur de Azevedo (1903)

PAULINO E ROBERTO

O Paulino toda a vida remou contra a maré! Para cúmulo da desgraça, o destino atirou-lhe nos braços uma esposa que não era precisamente o sonhado modelo de meiguice e dedicação. Adelaide não lhe perdoava o ser pobre, o ganhar apenas o necessário para viver. O seu desejo era ter um vestido por semana e um chapéu de quinze em quinze dias, – possuir um escrínio de magníficas jóias, – deslumbrar a Rua do Ouvidor, – frequentar bailes e espetáculos, – tornar-se a rainha da moda. Não se podia conformar com aquela vida de privação e trabalho. O Paulino, que era a bondade em pessoa, afligia-se muito por não poder proporcionar à sua mulher a existência que ela ambicionava. Fazendo um exame de consciência, o mísero acusava-se de haver sacrificado a pobre moça, que, bonita e espirituosa como Deus a fizera, teria facilmente encontrado um marido com recursos bastantes para satisfazer todos os seus caprichos de Frou-frou sem dote. Ele só tinha um amigo, um amigo íntimo, seu companheiro de infância, o Vespasiano, que um dia lhe disse com toda a brutalidade:

–  Tua mulher é insuportável! Eu, no teu caso, mandava–a para o pasto!

–  Oh! Vespasiano! não digas isso!...

–  Digo, sim!, senhor! digo e redigo... – Vocês não têm filhos; portanto, não há consideração nenhuma que te obrigue a aturar um diabo de mulher que todos os dias te lança em rosto a tua pobreza, como se ela te houvesse trazido algum dinheiro, e o esbanjasses!

–  Isso não é conselho que se dê a um amigo, nem eu tenho razões para me separar de Adelaide.

–  Pois não te parece razão suficiente essa eterna humilhação a que ela te condena?

–  Pois sim, mas quem me manda ser tão caipora?

–  Não creias que, se melhorasses de posição, ela melhoraria de gênio. Aquela é das tais que nunca estão contentes com a sorte, nem se lembram de que Deus dá o frio conforme a roupa. Se algum dia chegasses a ministro, ela não te perdoaria não seres presidente da República!

–  Exageras.

–  Pode ser; mas afianço–te que mulher assim não a quisera eu nem pesada a ouro! Prefiro ficar solteiro.

Efetivamente, Vespasiano, apesar de ser muito amigo de Paulino, não o frequentava, tal era a aversão que lhe causava a presença de Adelaide. Não a podia ver.

²²²

Paulino em vão procurava por todos os meios e modos melhorar de vida, aumentando o parco rendimento, quando um comerciante, seu conhecido, lhe propôs uma pequena viagem ao Rio Grande do Sul, para a liquidação de certo negócio. Era empresa que lhe poderia deixar um par de contos de réis, se fosse bem sucedida. Instigado pela mulher, a quem sorria a perspectiva de alguns vestidos novos, Paulino partiu para o Rio Grande a bordo do Rio Apa; tendo, porém, desembarcado em Santa Catarina, perdeu, não sei como, o paquete, e foi obrigado a esperar por outro. Antes que esse outro chegasse, recebeu a notícia de que o Rio Apa naufragara, não escapando nenhum homem da tripulação, nem passageiro algum. Do próprio paquete não havia o menor vestígio. Sabia-se que naufragara porque desaparecera. Paulino agradeceu a Deus o ter escapado milagrosamente ao naufrágio.

²²²

Ao ver o seu nome impresso, nos jornais, entre os das vítimas, atravessou-lhe o espírito a idéia de calar-se, fazendo-se passar por morto. Não sei se ele teria lido o Jacques Amour, de Zola, ou a Viuvinha, do nosso Alencar.

–  Em vez de me livrar da Adelaide, como aconselhava o Vespasiano, livrá-la-ei de mim. Ora está dito! Seremos ambos assim mais felizes...

Ninguém o conhecia em Santa Catarina, e ele, de ordinário taciturno e reservado, a ninguém se queixara de haver perdido a viagem, de modo que pôde executar perfeitamente o seu plano. Calou-se, muito caladinho, e deixou que a notícia da sua morte circulasse livremente, como a dos demais passageiros do Rio Apa. Escusado é dizer que mudou de nome. Tendo feito conhecimento com um rico industrial teuto-brasileiro, ex-colono de Blumenau, foi com este para o interior da Província, e, como era inteligente e trabalhador, não tendo mulher que o “encabulasse”, arranjou muito bem a vida, conseguindo até pôr de parte algum pecúlio (pé-de-meia).

²²²

Passaram-se anos sem que Roberto, o ex-Paulino, tivesse notícias de Adelaide. Resolveu um dia ir ao Rio de Janeiro, a passeio, convencido de que ninguém mais se lembrava dele, nem o reconheceria, pois deixara crescer a barba, engordara extraordinariamente, e tinha um tipo muito diverso do de outrora. O seu primeiro cuidado foi passar pela casinha de porta e janela onde morava, na Rua do Alcântara, quando embarcou para o Sul. Não a encontrou: tinham erguido um prédio no local outrora ocupado pelo ninho dos seus amores sem ventura. Informou-se na venda próxima que fim levara a viúva de um tal Paulino, morador naquela rua, náufrago do Rio Apa; ninguém se lembrava dessa família, e ele tevei a sensação de que era realmente um defunto. Procurou ver Vespasiano, e viu-o, quando saía da Alfândega, onde era empregado. O seu movimento foi correr para o amigo e dizer-lhe:

–  Olha! sou eu! não morri! venha de lá um abraço! – mas conteve-se, e deixou-o passar, saboreando um cigarro.

–  Como está velho! pensou Paulino; eu decerto não o reconheceria, se o supusesse tão morto como ele me supõe a mim! Deixá-lo! Eu morri deveras, e nada lucraria em ressuscitar, mesmo para ele, que era o meu único amigo.

²²²

Bem inspirado andou o morto em não se dar a conhecer, porque, alguns dias depois, achandose num bondinho da Praça Onze, atravessando a Rua do Riachuelo, viu entrar no carro o Vespasiano acompanhado por uma senhora que era Adelaide sem tirar nem pôr. Paulino conteve o natural sobressalto que lhe causou aquela aparição. Ela vinha muito irritada. Logo que se sentou, voltou-se com mau modo para Vespasiano, e disse-lhe:

–  Eu logo vi que você me dizia que não!

Paulino reconheceu a voz da sua viúva.

–  Mas, reflete bem, Adelaide; aquele dinheiro está destinado para o aluguel da casa, e tu não tens assim tanta necessidade de uma capa de seda!

Adelaide soltou um longo suspiro, e expectorou esta queixa bem alto para que todos a ouvissem:

–  Meu Deus! que sina a minha de ter maridos pingas! Você ainda é pior que o outro!

–  Ah! se ele pudesse ver-nos lá do outro mundo, murmurou entre os dentes Vespasiano, como se riria de mim!

Roberto ficou muito sério, olhando com indiferença para a rua, mas Paulino riu-se, efetivamente, no fundo do oceano. (AZEVEDO)

Relatos Hodiernos

Newton Vilela JUNIOR (2015)

A TERRA DE NINGUÉM

(...) Segundo relatos do historiador Homero Vasques Rodrigues, morador do Hermenegildo (Santa Vitória do Palmar), como a região dos Campos Neutrais era acometida por fortes ventos e era de difícil navegação, as embarcações que se dirigiam ao Prata eram obrigadas a navegar muito próximo à costa, atrás dos bancos de areia. Aproveitando-se desse fato, as populações que viviam atrás dos banhados, utilizavam, como estratégia de pirataria, a colocação de tochas sinalizadoras ao longo da costa, nas chamadas dunas primárias, de cerca de treze metros de altura. E as sinalizavam por meses seguidos, fazendo-se de referência às embarcações de que ali tinha início o continente. Em determinadas ocasiões, eles deslocavam essas tochas para cerca de 2.000 metros do local original, adentrando as dunas e fazendo com que as embarcações, ao retornarem, perdessem a orientação e encalhassem próximo à praia onde ocorriam sangrentos atos de pirataria. Apesar de serem fatos não documentados, que vieram ao conhecimento através da voz corrente popular, contados de gerações a gerações, Lauro Barcellos, oceanógrafo da Praia do Cassino, nos conta que certamente alguns naufrágios foram ocasionados por esses piratas e foram muito comuns até o foral do século 19. Segundo ele, são ainda muito comuns nos dias de hoje. Se uma embarcação naufragar neste litoral hoje, provavelmente em meio dia ele esteja totalmente saqueado.

O mais famoso naufrágio foi o do Galeão Inglês “Príncipe de Gales”, em 1861, que gerou o rompimento das relações Brasil X Inglaterra, já que D. Pedro II não aceitava a exigência do Governo Inglês por uma retratação pública e o pagamento de indenização. Segundo citado historiador, à medida que o trânsito de navios nesta costa em direção ao pacífico aumentou, impulsionado pelo crescimento dos mercados uruguaio, argentino e até chileno, começaram a se instalar os faróis. Hoje, na extensão da praia do Cassino, existem quatro faróis que orientam a navegação na região. Os faróis passaram a delimitar e garantir a navegabilidade a partir de 1910. Relatos ainda apontam saques ocorridos naquela costa até o final do século passado. Barcos que naufragavam eram saqueados e tinham suas cargas levadas pelos piratas. Segundo o oceanógrafo Lauro Barcellos, as embarcações sempre que chegavam ao sul encontravam um mar muito desafiador. Ventos fortes, somados às tempestades, que ocorrem com frequência nesta parte do Brasil, propiciavam um ambiente ideal para que muitas das embarcações naufragassem em suas águas. Ainda, segundo ele, puderam ser contadas em torno de 287 embarcações enterradas neste litoral. O naufrágio visível mais famoso é o do navio Altair, que encalhou na costa no ano de 1978 e que hoje já se mostra quase que totalmente corroído. (JUNIOR)

Fontes:

AGORA, o Jornal do Sul – Navio Altair e Navio Punta Piedras – Brasil – Rio Grande do Sul – Organizações Risul Editora Gráfica Ltda, 1976.

AZEVEDO, Arthur de. Paulino e Roberto – Brasil – Rio de Janeiro – Correio da Manhã, 05.04.1903.

BARCELLOS & CORDAZZO & SEELIGER  - Lauro Barcellos; César Cordazzo; Ulrich Seeliger. Areias do Albardão - Um Guia Ecológico Ilustrado do Litoral no Extremo Sul do Brasil – Brasil – Rio Grande do Sul – Editora Ecoscientia Rio Grande, 2004.

ECCHO DO SUL. Ano XXXIV – Números 160 a 170 – Brasil – Rio Grande do Sul – Edições de 19.07.1887 a 30.07.1887. Bibliotheca Riograndense – Rio Grande – Rio Grande do Sul, 1887.

MACEDO, José Agostinho de. O Novo Argonauta – Portugal – Olhão – Edição eletrônica da APOS – Associação de Valorização do Patrimônio Cultural e Ambiental de Olhão, junho de 2009.

JUNIOR, Newton Vilela. Horizontes de Areia: Um Pedal até Chuí Pela Maior Praia do Mundo – Brasil – São Paulo – Editora Cia do Ebook, 2015.

Fonte:

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Integrante do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com;

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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