Porto Velho (RO) segunda-feira, 19 de novembro de 2018
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Henrique Nascimento

Dom Luciano Mendes de Almeida – Um exemplo de santidade



Nas últimas semanas ele já havia avisado aos amigos leitores da sua coluna na Folha de São Paulo, que estava doente. O fez com discrição, calma, e o equilíbrio  de sempre  – características marcantes que lhe eram próprias.

Ele também sabia agir com firmeza, quando necessário. Mas sempre em defesa dos direitos humanos em geral e dos mais necessitados e excluídos em particular, quando ameaçados pelos poderosos de plantão.  

No passado, no ano de 1989, foi divulgada uma triste e preocupante notícia de que ele havia sofrido um grave acidente de carro, em perigoso trecho de uma auto-estrada de Minas Gerais.

A mídia  divulgou em horário nobre, para conhecimento da população brasileira,   a  lenta, difícil e completa recuperação, graças ao eficiente tratamento médico a que foi submetido no Hospital Felício Roxo de Belo Horizonte,   o arcebispo de Mariana (MG).

Naquela ocasião o estimado bispo jesuíta,  (o primeiro desta  ordem religiosa no Brasil,  ao consagrar-se bispo, escolheu o lema "Em nome de Jesus"), encontrava-se em recuperação do trauma que, entre outros,  quase lhe seccionou a aorta abdominal,  por sua imensa  fé e grande  amor ao Altíssimo Jesus Cristo, falou  para  quem lhe estava próximo:  "Deus é bom!" Palavras que foram confirmadas novamente  para o seu  irmão mais velho, o professor e acadêmico Cândido Mendes, antes de entrar em coma.

Foi no sábado, 26/8/06, após ter lido o pós-escrito do seu penúltimo artigo, "Partilha e perdão" (ele assinava uma coluna na página A2 da Folha,  aos sábados, desde 14 de abril de 1984; foram 22 anos de colaboração, 1114 artigos.) que Dom Luciano revelou que se encontrava no CTI (Centro ou Unidade de tratamento intensivo) do Hospital das clínicas da USP para tratamento quimioterápico, e no final ele   agradeceu  as   orações de todos.  Essa revelação deixou em alerta e receosa a todos que o conheciam  e o admiravam e o amavam. 

De imediato, pensei em telefonar para o celular do nosso arcebispo Dom Moacir Grechi, para lhe pedir maiores informações da internação,  ocorrida em 17 de julho, e da gravidade da doença de Dom Luciano. Não telefonei. Por receio de incomodar o estimado pastor e profeta, que é  também muito admirado e querido (talvez seja temido por alguns, mas só   maus políticos e corruptos que muito devem à sociedade e à justiça brasileiras) pelos acreanos e rondonienses, os padres, os fiéis de um modo geral,  e por seus colegas do episcopado brasileiro.

(Intuindo tratar-se de grave tumor, neoplasia, mas desconhecendo  órgão e  extensão,  num átimo decidi escrever para o seu endereço eletrônico que consta na parte inferior da coluna,   pedindo à Divina Providência a recuperação de sua saúde, o seguinte : "Dom Luciano, sou grato leitor de sua coluna, aos sábados, na Folha: quanta lucidez e serenas palavras de esperança! No passado, já superou internação devida a acidente e cirurgias. No presente, os brasileiros de todos os rincões,  pedimos com esperança cristã por sua renovada superação. Na atual internação, estando sob quimioterapia, oramos e suplicamos todos a Nosso Senhor Jesus e à Nossa Mãe Maria Santíssima para lhe conceder a graça de superar, mais esta vez, o sofrimento no CTI. Com sua benção de pastor muito amado, Henrique Nascimento".)

Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o bispo carioca Dom Luciano.  No entanto, fui durante muito tempo leitor da sua coluna, aos sábados, na Folha.  Lembrarei sempre     sua doce imagem e voz agradável  no vídeo, na telinha,  que chamavam a atenção de todos,  por  irradiarem calma,  serenidade e  compreensão. Que direi de sua ternura e mansidão, pessoalmente!?

Lembro o  notável bispo cearense, Dom Hélder Câmara, outro homem santo de Deus, santo e corajoso,   que iniciou seu apostolado na cidade do Rio de Janeiro,  e foi,  também, um defensor  incansável  dos direitos humanos, sobretudo dos pobrezinhos. Perseguido da ditadura militar, esta não conseguiu calar sua voz e gestos  eloqüentes, uma marca pessoal dele, da sua coragem e pleno de confiança em Deus, que viajou o mundo inteiro, porque em seu próprio país  estava proibido de falar nos meios de comunicação de um modo geral.   Está sepultado na Arquidiocese de Recife  e Olinda, onde  vive para sempre na memória do povo pernambucano e brasileiro.

(A propósito, no ano de 1982, encontrava-me a passeio na cidade de Manaus, quando soube que ele iria celebrar a Santa Missa na manhã do dia seguinte em uma igreja local. Não pensei duas vezes,  para lá me dirigi bem cedo, a tempo de ver o grande  religioso (ele era, com todo respeito,  baixinho, e  tinha o rosto piedoso  e sob os olhos olheiras profundas,  conseqüência, provavelmente, do hábito de dormir pouco, acordar de madrugada para  orar, estudar e escrever - é dele a expressão "minorias abraâmicas", autor de O deserto é fértil, Mil razões para viver, etc. -, na modesta casinha que escolheu para residência nos últimos anos de vida,  que fica  de fundo para a Igreja de Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras), sempre vestindo uma velha  batina bege, portando um simples crucifixo de madeira,  entrar pelo corredor central. Não é meu costume, mas me sentei no banco da primeira fila,  logo em seguida  os presentes à celebração, havia muitas pessoas, uma multidão mesmo, se levantou e vimos passar bem próximo de nós o grande homem de Deus, reconhecido por sua grande mística e carisma cristãos, um profeta-santo  e  um santo-profeta).

Retornando a Dom Luciano,  quantos assistiram à transmissão  da belíssima Santa Missa de suas exéquias,  presidida por Dom Cláudio Hummes,  arcebispo-Cardeal de São Paulo, na Catedral homônima, para encomendação de sua alma ao Deus Pai, tiveram a oportunidade de conhecer mais e melhor aquele grande religioso de Deus,  homem de ação, de fulgurante inteligência,  muito culto, doutor em Filosofia e Teologia. Nele se destacava a mansidão, a calma, a humildade e o saber ouvir com atenção a todos que o procuravam, sobretudo os mais pobres e necessitados, ou então ele mesmo ia ao encontro deles.

Deixou duradoura obra na região de Belém na capital paulista, da Arquidiocese de São Paulo. Foi o criador da pastoral da criança, abrigou os mendigos, os drogados, os idosos, etc. O espaço é pequeno para citar toda sua perene obra e o bem que fez a muitas e muitas pessoas, sem alarde, com desprendimento, grande assistência religiosa e social para  execução de obras em prol da população sofrida. Basta dizer-se que chegou a ceder sua cama para um  mendigo dormir à noite. Ele dormiu no chão.

Mais, muito mais, Dom Luciano fez para o bem das pessoas com autêntico e puro exemplo de santidade. Foi, ainda, durante 16 anos secretário-geral e presidente da Conferência nacional dos bispos do Brasil (CNBB), eleito por seus pares para mandatos de oito anos nessas duas funções. Conhecia o episcopado brasileiro e latino americano como poucos.

Certamente que todos, se o quisermos, podemos repetir hoje e sempre as palavras do saudoso Dom Luciano: "Deus é bom".

Uma síntese perfeita do que já dissera em entrevista, há algum tempo no programa "Prazer em conhecê-lo" da Rede Vida de televisão, um outro grande religioso brasileiro e homem de Deus  (no passado ele sofreu um grave acidente de carro, mas já se encontra completamente recuperado), o bispo Dom Mauro Morelli: "Deus é sábio, amoroso e misericordioso".   Amém.

Fonte: (Dr. Henrique Nascimento) -  h.nascimentomed@uol.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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