Porto Velho (RO) quinta-feira, 29 de julho de 2021
×
Gente de Opinião

Francisco Matias

REQUIEN PARA CLAUDIONOR RORIZ


          

FRANCISCO MATIAS* ESCREVE

               

          REQUIEN PARA CLAUDIONOR RORIZ - Gente de Opinião

         REQUIEN PARA CLAUDIONOR RORIZ

1.A história contemporânea do estado de Rondônia, a partir de 1981, ano em que se deu a elevação do Território Federal à condição de Unidade Federada, tem nas eleições de 1982, seu marco inicial. Naquele pleito foram eleitos os três primeiros senadores do estado: Odacir Soares, Galvão Modesto e Claudionor Roriz. E lá se vão 33 anos. No ano passado morreu o senador Galvão Modesto. Ontem, 17 de dezembro de 2015, morreu o senador Claudionor do Couto Roriz, ou Claudionor Roriz, ou simplesmente, Dr. Claudionor. Era médico cirurgião, cearense, estava radicado em Rondônia desde 1974, tendo imigrado do estado do Paraná, no grande processo migratório direcionado à Fronteira de Expansão Agropecuária que o regime militar transformou Rondônia, com ênfase aos imigrantes sulistas, dentre os quais constavam nordestinos que moravam na região sul.

2. Claudionor Roriz instalou-se no lugar chamado Vila de Rondônia (atual Ji-Paraná) onde passou a exercer a profissão de médico e sua militância política. Eis uma questão para ser entendida. Ele era comunista orgânico, havia sido preso político em 1972 e pertenceu ao extinto PCdoB. Em Vila de Rondônia ingressou no MDB (atual PMDB) sob o comando do deputado federal Jerônimo Santana e tornou-se presidente do diretório municipal depois que ocorreu a criação do município de Ji-Paraná. Era da ala esquerdista e comunista do PMDB, naquele período do bipartidarismo tolerado pela ditadura militar, com apenas dois partidos políticos: Arena e MDB, depois PDS, de apoio ao governo militar, e PMDB, de oposição. O Dr. Claudionor era conhecido no SNI (Serviço Nacional de Informações) como “um comunista perigoso ao regime” e, desta maneira, vivenciou os governos dos coronéis Theodorico Gayva, Marques Henriques e Humberto Guedes, sempre na oposição, ao lado de Jerônimo Santana.

3.Mas o Brasil estava mudando e o regime militar iria mudar também. Foi assim que o Território Federal de Rondônia recebeu como novo governador, em 1979, o coronel Jorge Teixeira, que tinha como missão elevar o território a estado e construir uma maioria para o presidente João Figueiredo no senado, por isso, deveria eleger os três senadores pela legenda do PDS, o que não seria tarefa das mais fáceis, tendo em vista a força politica do PMDB e do deputado Jerônimo Santana.

4.Mas o governador Jorge Teixeira, militar linha dura, anticomunista convicto, descobriu um modo de minar essa força política do PMDB e foi buscar no âmago do partido, seu maior estrategista do  interior, o Dr. Claudionor Roriz, que iria se tornar o primeiro comunista a dirigir um partido ligado ao regime militar no Brasil. “Ou você vem para o PDS me ajudar a ganhar as eleições, ou vai preso pra ilha”. “Se você vier, eu te faço senador”, ameaçou e prometeu o coronel Jorge Teixeira. Não dava pra recusar. E assim, o médico Claudionor Roriz tornou-se presidente estadual do PDS, homem de confiança do coronel Jorge Teixeira, aliado do presidente João Figueiredo, detestado pela direita e odiado pela esquerda de Rondônia. E foi sua estratégia de enfraquecer a esquerda atraindo para o PDS outros comunistas como os médicos Cayo Cesar Pena, Orlando Ramires, Demétrio Bidá, o farmacêutico Dionízio Xavier da Silveira, pele curta histórico, Sebastião Melgar e José Sales de Oliveira, o último preso político do Brasil e tantos outros, fazendo do PDS de Rondônia uma mistura inexplicável de ideologias, mas vitorioso nas eleições de 1982.

5.Claudionor Roriz foi senador, com mandato de quatro anos, secretário de estado da Saúde, sendo o responsável pela construção e implantação do CEMETRON, da UNIR e do SEST/SENAT. Mas, na condição de comunista orgânico - sempre em busca do novo homem -, conforme reza a cartilha do comunismo, ele não soube construir uma liderança regional sobre o seu nome e encerrou sua carreira política na condição de candidato derrotado a deputado estadual e  vereador. Nunca mais recuperou sua carreira política e morreu ontem, esquecido em um canto da história. Viveu e morreu em Ji-Paraná, município que ajudou a fundar com sua especialização médica e militância política. Muito ainda há que se escrever sobre os três primeiros senadores do estado de Rondônia, dentre eles, o Dr. Claudionor Roriz, o homem que viveu e morreu por suas próprias circunstâncias. Réquiem para você, meu bom amigo.

Historiador e Analista Político*

Membro da Academia Rondoniense de Letras,ARL

Porto Velho, 18.12.2015

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Francisco Matias

 O JANTAR DO CONDOR. O ALMOÇO DA ABRIL.  O HOSPITAL DO AMOR - Por Francisco Matias

O JANTAR DO CONDOR. O ALMOÇO DA ABRIL. O HOSPITAL DO AMOR - Por Francisco Matias

 Governador Confúcio Aires Moura, do estado de Rondônia   1.Novembro passou e dezembro entrou. O ano caminha para o seu final. Mas existe o risco de n

PORTO VELHO 103 ANOS - Por Francisco Matias

PORTO VELHO 103 ANOS - Por Francisco Matias

1.Hoje, dia 2 de outubro de 2017 completam-se 103 anos da criação do município de Porto Velho. Na manhã daquele 2 de outubro de 1914, no Palácio Rio N

O JORNAL ALTO MADEIRA E A HISTÓRIA - PARTE II

  1. Continuando com a série o Alto Madeira e a história, relatando a saga deste centenário em fase de adormecimento, este escriba lança novas matéria

O JORNAL ALTO MADEIRA E A HISTÓRIA- PARTE I

O JORNAL ALTO MADEIRA E A HISTÓRIA- PARTE I

    1. A propósito do anúncio publicado nas redes sociais dando conta de que o jornal ALTO MADEIRA vai encerrar suas atividades no final deste mês de