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Gente de Opinião

Samuel Saraiva

Quando a justiça se curva ao dinheiro e despreza a verdade

O risco moral do Judiciário monetarizado e o dilema ético da advocacia que normaliza a mentira. O dinheiro não pode pesar mais do que a verdade na atuação de um artífice do Direito — nem na consciência de um magistrado justo, que tem o dever de separar a verdade dos interesses Monetaristas daqueles que pretendem comprar o veredito.


Quando a justiça se curva ao dinheiro e despreza a verdade - Gente de Opinião

English version below

 

 

uma ruptura silenciosa que poucas sociedades percebem enquanto ainda há tempo. Ela não ocorre quando um tribunal erra por falha humana. O colapso real começa quando o sistema, gradualmente, passa a premiar não a verdade, mas a narrativa melhor financiada; não a prova mais consistente, mas a parte mais capaz de suportar os custos da disputa; não a razão pública, mas o peso econômico de quem pode transformar litígio em instrumento de pressão. 

Quando a justiça se curva ao dinheiro, não é apenas um indivíduo que perde: é o próprio contrato moral da democracia que se rompe. O Judiciário deixa de ser o árbitro do real e se converte em arena de assimetrias, onde a igualdade se torna retórica e a cidadania passa a depender do orçamento.

1) A justiça monetarizada e o dano invisível à democracia

Uma democracia real não é apenas o direito de votar. Ela depende de instituições que protejam o cidadão contra o abuso inclusive o abuso travestido de legalidade.

Quando o acesso ao sistema judicial é desigual, a verdade não desaparece por falta de existência: ela desaparece por falta de condições de defesa.

Em um sistema monetarizado, o litígio se torna um mecanismo de desgaste: quem tem recursos prolonga, pressiona, ameaça, multiplica custos, explora burocracias. A parte vulnerável, por exaustão, tende a ceder. Assim, o Direito se transforma em indústria e o processo, em método de extorsão moral e financeira.

Nesse contexto, a justiça não falha de vez em quando: ela passa a funcionar como estrutura previsível de benefício para quem pode pagar. E o que nasce dessa distorção é mais grave do que um erro pontual: nasce uma cultura institucional de permissividade, onde a desigualdade deixa de ser exceção e vira regra.

2) O dilema ético: o advogado que sabe que o cliente está errado e ainda assim fomenta a mentira

Aqui é essencial separar três coisas:

(A) Defender alguém que cometeu o ato não é mentir

Um advogado pode e deve garantir os direitos processuais de qualquer pessoa, inclusive quando as evidências sugerem culpa. Isso inclui exigir prova consistente, impedir abusos, questionar ilegalidades e preservar o devido processo.

Isso não é cinismo: é civilização.

(B) Defender teses jurídicas não é fabricar fatos

É plenamente legítimo discutir intenção, proporcionalidade, dúvida razoável, nulidades, credibilidade de testemunhas, admissibilidade de provas e interpretação do Direito.

Outra coisa é inventar versões factualmente falsas, orientar testemunhas a mentir, manipular prova, ocultar deliberadamente evidência material ou apresentar narrativa sabidamente enganosa.

Isso já não é advocacia combativa: é fraude travestida de técnica.

(C) A fronteira ética: sei que é falso, mas vou sustentar

Aqui está o ponto filosófico decisivo: o advogado não é “donoda verdade, mas também não pode se tornar cúmplice consciente do falso.

O núcleo ético da prática jurídica não deveria ser vencer a qualquer custo, e sim preservar a integridade mínima do jogo democrático: um espaço em que fatos importam, provas têm peso e a razão pública ainda possui valor.

Quando um profissional, por acesso privilegiado e compreensão técnica, reconhece a falsidade e ainda assim a sustenta como método, ele passa a operar como um operador de distorções, alguém que converte o Direito em mecanismo de impunidade ou de pressão e não em instrumento de justiça.

uma formulação dura, porém necessária:

quando a mentira vira estratégia profissional, o Direito deixa de ser ordem e passa a ser teatro.

Nesse ponto, cabe ainda um registro objetivo: profissionais do Direito que atuam com prudência e responsabilidade institucional compreendem que nenhum benefício circunstancial compensa os custos éticos, profissionais e reputacionais associados à transgressão. A possibilidade de apurações disciplinares, sanções proporcionais e, em casos mais graves, restrições ao exercício profissional não é retórica — é consequência previsível quando se ultrapassam limites claros. E quando esses limites são relativizados por conveniência ou cálculo, o dano excede o interesse imediato das partes: a maior vítima passa a ser a própria sociedade, que perde confiança no sistema e nos seus mecanismos de proteção.

3) Fundamentos clássicos: por que isso destrói o sentido da Justiça

Essa crítica não nasce de sentimentalismo. Ela tem fundamentos sólidos na tradição filosófica:

Aristóteles compreendia justiça como virtude social: a disposição de dar a cada um o que lhe é devido. Se o dinheiro compra o resultado, o sistema já não distribui justiça distribui vantagem.

A noção de equidade nasce para corrigir a rigidez desumana do formalismo. Mas sem compromisso com a verdade, a equidade degenera em flexibilidade seletiva: uma elasticidade aplicada aos fortes e negada aos fracos.

Em Kant, mentir não é um detalhe pragmático: é uma agressão à estrutura da razão pública. Se a mentira se normaliza como ferramenta, a instituição do julgamento racional perde seu fundamento.

Em Rawls, justiça é fairness: jogo limpo. Quando o sistema favorece sistematicamente quem tem mais recursos, ele deixa de ser neutro e vira gerador institucional de desigualdade.

Em Habermas, a legitimidade de decisões públicas depende da aceitabilidade racional: argumentos, provas, justificativas. Se uma decisão nasce da vantagem econômica e não da razão, ela deixa de ser justiça reconhecida e vira imposição tolerada.

4) A consequência humana: quando a verdade vira luxo

O resultado concreto não é apenas teórico. O efeito é humano: cidadãos desamparados, honrados, pacíficos, passam a sentir que justiça é um privilégio e não um direito.

Quando isso se instala, o Estado perde autoridade moral. E o que surge no lugar não é ordem: é desconfiança, ressentimento e descrença coletiva.

Se o sistema premia o oportunismo e penaliza a honestidade, o que se ensina à sociedade não é cidadania: é cinismo. E o cinismo é a antessala da decadência.

Conclusão

Quando a justiça se curva ao dinheiro, não é apenas a verdade que se enfraquece: é a democracia que se deteriora. O sistema deixa de ser um árbitro e passa a funcionar como um mercado de narrativas, onde vence quem pode financiar a versão mais eficiente.

Nesse cenário, a lei já não garante igualdade ela apenas administra desigualdades.

Uma justiça comprável é apenas um nome elegante para injustiça organizada.


English

 

WHEN JUSTICE BOWS TO MONEY AND DISREGARDS TRUTH 

The moral hazard of a monetized judiciary and the ethical dilemma of legal advocacy that normalizes lies. Money cannot outweigh truth in the work of a practitioner of the law—nor in the conscience of a fair judge, who has a duty to separate truth from the monetarist interests of those who seek to buy a verdict.



Quando a justiça se curva ao dinheiro e despreza a verdade - Gente de Opinião

When justice bows to money, it is not merely an individual who loses. The moral contract of democracy itself is fractured. The judiciary ceases to function as an arbiter of reality and becomes an arena of asymmetries, where equality turns into rhetoric and citizenship becomes dependent on budget.

1) A monetized justice system and the invisible harm to democracy

A real democracy is not merely the right to vote. It depends on institutions capable of protecting citizens from abuse—including abuse disguised as legality.

When access to the courts is unequal, truth does not vanish because it does not exist; it vanishes because it cannot be defended.

In a monetized system, litigation becomes a mechanism of attrition: those with resources prolong proceedings, increase pressure, multiply costs, exploit bureaucratic delays, and weaponize procedure. The vulnerable party, exhausted, is often pushed toward surrender. Thus, the law turns into an industry, and the courtroom becomes a stage where financial stamina substitutes for justice.

In such a climate, justice does not fail occasionally.It begins to operate as a predictable structure that benefits those who can afford the struggle. And what emerges from that distortion is more dangerous than an isolated error: a culture of institutional permissiveness, where inequality is no longer the exception—it becomes the rule.

2) The ethical dilemma: the lawyer who knows the client is wrong and still fuels the lie

Here, it is essential to distinguish three things:

(A) Defending someone who committed the act is not the same as lying

A lawyer can—and must—protect procedural rights even when the evidence suggests wrongdoing. That includes demanding proper proof, preventing abuse, challenging unlawful practices, and safeguarding due process.

This is not cynicism. It is civilization.

(B) Arguing legal theories is not the same as manufacturing facts

It is legitimate to debate intent, proportionality, reasonable doubt, procedural defects, credibility, admissibility of evidence, jurisdiction, and the interpretation of law.

But it is something else entirely to invent a false factual account, coach a witness to lie, manipulate evidence, deliberately conceal material facts, or build a narrative one knows to be deceptive.

That is no longer zealous advocacy—it is fraud wearing a technical mask.

(C) The ethical boundary: I know it is false, but I will argue it anyway

This is the decisive philosophical point: a lawyer is not the ownerof truth, but cannot become a conscious accomplice of falsehood either.

The ethical core of legal practice should not be winning at any cost,but preserving the minimum integrity of the democratic game: a space where facts matter, evidence carries weight, and public reason still has authority.

When a professional, through privileged access and technical understanding, recognizes falsity and still advances it as a method, the lawyer becomes an operator of distortion—turning law into a mechanism of impunity or coercion rather than an instrument of justice.

There is a harsh but necessary formulation:

when deception becomes professional strategy, law ceases to be order and becomes theater.

At this point, one additional clarification becomes necessary. Legal professionals who act with discernment and institutional responsibility understand that no short-term advantage justifies the objective risks of ethical transgression. Disciplinary scrutiny, reputational erosion, sanctions, and—in more serious circumstances—restrictions on professional practice are not hypothetical costs; they are predictable consequences of conduct that crosses clear boundaries. And when those boundaries are deliberately disregarded, the harm extends far beyond the immediate parties: the ultimate victim is society itself, whose trust in the legal system is gradually depleted.

3) Classical foundations: why this corrodes the meaning of justice

This critique is not emotional. It stands on solid philosophical ground.

For Aristotle, justice is a social virtue: a stable disposition to give each person what is due. If money can buy outcomes, the system is no longer distributing justice—it is distributing advantage.

The idea of equity exists to correct the inhuman rigidity of strict formalism. Yet without commitment to truth, equity degenerates into selective flexibility—elastic for the strong, rigid for the weak.

In Kant, lying is not a tactical detail. It is an assault on the structure of public reason itself. Once deception is normalized as a tool, the very foundations of rational judgment collapse.

In Rawls, justice is fairness: a level playing field. When the system structurally favors those with greater resources, the state loses impartiality and becomes an institutional producer of inequality.

In Habermas, legitimacy depends on rational acceptability: reasons, evidence, justification. If outcomes flow from economic advantage rather than reason, decisions are no longer experienced as justice—they are tolerated as imposition.

4) The human consequence: when truth becomes a luxury

The concrete result is not theoretical—it is human. Honest, peaceful citizens begin to feel that justice is a privilege rather than a right.

Once this takes root, the state loses moral authority. And what replaces it is not order, but distrust, resentment, and collective disillusionment.

If opportunism is rewarded and integrity is punished, society is not taught citizenship—it is taught cynicism. And cynicism is the threshold of decline.

Conclusion

When justice bows to money, it is not only truth that weakens—democracy itself decays. The system stops being an arbiter and becomes a marketplace of narratives, where victory goes to the side most capable of funding the most efficient story.

In that environment, the law no longer guarantees equality—it merely manages inequality.

A justice system that can be bought is simply a refined name for organized injustice.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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