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Samuel Saraiva

Entre a Retórica da Sustentabilidade, a Distinção de Excelência e o Lixo na Vegetação em Volta

Entre a retórica da sustentabilidade e o lixo espalhado na vegetação ao redor, fragiliza-se o mérito ambiental proclamado.


Entre a Retórica da Sustentabilidade, a Distinção de Excelência e o Lixo na Vegetação em Volta - Gente de Opinião

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A poucos metros de uma faixa celebrando excelência ambiental em uma escola privada cristã, localizada na área metropolitana de Washington DC mais precisamente no Condado de Montgomery a vegetação ao redor revela uma realidade bem menos inspiradora. Entre garrafas plásticas, embalagens descartáveis e outros resíduos esquecidos entre os arbustos, emerge um contraste que dispensa grandes explicações: de um lado, o discurso institucional da sustentabilidade; de outro, a prática cotidiana que parece não acompanhar a retórica.

Curiosamente, essa mesma escola cujo nome do santo prefiro não mencionar costuma organizar passeios ecológicos primaveris com seus alunos, atividades destinadas justamente a estimular a consciência ambiental e o respeito pela natureza.

Talvez houvesse aí uma oportunidade pedagógica ainda mais rica: iniciar esse aprendizado no próprio entorno da escola. Parte dos estudantes poderia dedicar alguns minutos dessas atividades à coleta de resíduos durante o passeio, com reconhecimento simbólico aos que mais contribuíssem para a limpeza do local.

Além do evidente aprendizado ambiental, tal iniciativa também cultivaria algo igualmente essencial: a consciência social cidadã e a prática do voluntariado valores fundamentais para a formação de adultos empáticos, responsáveis e comprometidos com o bem coletivo.

Porque, em última análise, a educação ambiental não se constrói em slogans, certificados ou faixas comemorativas. Ela se consolida nas pequenas atitudes que transformam o espaço coletivo e cultivam o senso de responsabilidade pelo mundo que compartilhamos uma tarefa que interpela diretamente professores e administradores do sistema educacional.

Se um contraste como esse pode ser observado justamente na capital do país considerado um dos mais desenvolvidos do planeta, é inevitável imaginar a dimensão das agressões ambientais em tantas outras partes do mundo, onde a natureza agoniza sufocada e paisagens inteiras acabam transformadas em verdadeiros depósitos de lixo.

Nesse cenário, fauna e flora que compartilham conosco o mesmo habitat no qual fomos acolhidos pela própria natureza acabam submetidas a um castigo injusto, fruto direto da negligência humana.

Seres inofensivos e vulneráveis da criação de Deus, como acreditam os criacionistas, transitam silenciosamente por esses espaços: passarinhos, esquilos, patos, guaxinins, raposas, veados e tantos outros animais que dividem conosco o mesmo ambiente natural. Alguns, infelizmente, já deixaram marcas discretas de sofrimento pequenas pegadas manchadas de sangue após se ferirem em cacos de vidro, garrafas quebradas ou fragmentos metálicos abandonados criminosamente entre a vegetação.

Não se trata apenas de uma questão estética ou urbana. Trata-se de uma agressão silenciosa aos delicados equilíbrios da vida. Diante disso, é impossível não sentir uma legítima indignação acompanhada da inquietante preocupação com o futuro que estamos legando às próximas gerações.

A natureza sempre nos acolheu com generosidade. Talvez tenha chegado o momento de demonstrarmos que somos dignos dessa hospitalidade e de provar que somos, de fato, seres racionais e civilizatoriamente evoluídos.

 

P.S.:
Talvez, em um próximo passeio ecológico organizado pela escola, além das explicações sobre sustentabilidade e consciência ambiental, os alunos possam dedicar alguns minutos para recolher o lixo espalhado na vegetação ao redor do próprio campus. Seria uma oportunidade simples de alinhar discurso e prática — e, quem sabe, transformar uma aula teórica em um gesto concreto de respeito ao meio ambiente e aos pequenos animais que ali vivem.

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Comentários 

O texto me impressionou por apresentar um contraste muito interessante entre o discurso institucional sobre sustentabilidade e a realidade observada no entorno imediato. Essa abordagem, baseada na simples observação dos fatos, acaba sendo bastante eficaz, porque não depende de acusações ou exageros — o próprio contraste fala por si.

A presença de lixo na vegetação ao redor de um local que celebra valores ambientais revela algo que vai além de um problema pontual de limpeza. Ela nos convida a refletir sobre um desafio mais amplo: a distância que muitas vezes existe entre aquilo que declaramos como princípio e aquilo que efetivamente praticamos no cotidiano.

Achei particularmente relevante a lembrança de que o impacto desse descuido não se limita à paisagem urbana. Pequenos animais — pássaros, esquilos, patos, guaxinins, raposas, veados e tantos outros seres que compartilham esses espaços conosco — acabam sendo vítimas silenciosas desse tipo de negligência.

Talvez a mensagem mais valiosa do artigo seja justamente a ideia de que educação ambiental não se transmite apenas em discursos ou atividades pedagógicas formais. Ela começa, antes de tudo, no cuidado concreto com o espaço que habitamos.

Uma reflexão oportuna e necessária.

Fátima Arbidron - Olney, Maryland.

 

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 ENGLISH

 

Sustainability Rhetoric, a Banner of Excellence — and the Trash in the Bushes 

Not far from a banner celebrating environmental excellence at a private Christian school in Montgomery County, just outside Washington, D.C., the surrounding vegetation tells a very different story.

Among the bushes lie plastic bottles, disposable packaging, and other litter quietly scattered across the ground.

The contrast is striking — and requires little explanation.

On one side stands the institutional language of sustainability. On the other, the everyday reality that seems unable to keep pace with that rhetoric.

Ironically, the same school — whose saint’s name I prefer not to mention — regularly organizes spring environmental outings for its students. These activities are designed to encourage ecological awareness and respect for nature.

Perhaps there is an even more meaningful educational opportunity waiting just outside the classroom door.

During these outings, a few minutes could be dedicated to collecting litter around the school grounds. Students could take pride in leaving the place cleaner than they found it, perhaps even receiving symbolic recognition for their contribution.

Beyond the obvious environmental lesson, such an exercise would nurture something equally valuable: civic responsibility and the spirit of volunteerism — essential qualities in the formation of thoughtful, engaged citizens.

Because environmental education is not built on banners, certificates, or institutional slogans.

It begins with small, concrete actions — the kind that shape habits, transform shared spaces, and cultivate responsibility for the world we inhabit.

If a contrast like this can be observed in the capital region of one of the most developed nations on Earth, one cannot help but wonder about the scale of environmental neglect in many other parts of the world, where landscapes increasingly resemble open dumping grounds.

In such environments, wildlife inevitably pays the price.

Birds, squirrels, ducks, raccoons, foxes, deer, and countless other creatures move silently through these spaces we share with them. Some leave behind small but tragic signs of suffering — faint traces of blood in their tracks after being injured by broken glass, shattered bottles, or sharp metal fragments discarded carelessly among the vegetation.

This is not merely a matter of aesthetics or urban tidiness.

It is a quiet assault on the fragile balance of life.

Nature has welcomed humanity with remarkable generosity.

Forests, rivers, animals, and landscapes have sustained us long before we learned to call ourselves civilized.

The question is no longer whether nature has done its part.

The question is whether we are capable of doing ours.

 

P.S.:
Perhaps on a future ecological outing organized by the school, in addition to the lessons about sustainability and environmental awareness, students might take a few minutes to collect the litter scattered in the vegetation around the campus itself. It would be a simple opportunity to bring practice into alignment with principle — and perhaps turn a theoretical lesson into a quiet, meaningful gesture of respect for the environment and for the small animals that live there.

 

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Reader Comment

What makes this article particularly effective is its restraint. Rather than relying on accusations or exaggeration, it simply presents a contrast that speaks for itself.

The presence of litter in the vegetation surrounding a place that publicly celebrates environmental values reveals a deeper issue: the frequent gap between what institutions proclaim and what is actually practiced in everyday life.

Equally important is the reminder that this negligence does not affect only the landscape. Small animals — birds, squirrels, ducks, raccoons, foxes, deer, and many other creatures — often become the silent victims of human carelessness.

Perhaps the most valuable point raised by the article is that environmental education does not begin with speeches or official programs. It begins with something far simpler: caring for the space we occupy.

A thoughtful and timely reflection.

Fatima Arbidron
Olney, Maryland

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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