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Gente de Opinião

Samuel Saraiva

A vergonhosa ‘indústria criada em nome de Deus’: engano, morte, dízimo e privilégios fiscais


Entre o altar e a fome: a sinceridade é ataque, a compaixão é ameaça — e a ignorância é virtude - Gente de Opinião
Entre o altar e a fome: a sinceridade é ataque, a compaixão é ameaça — e a ignorância é virtude

ENGLISH VERSION BELOW

 

Com base em registros históricos, qual é a estimativa de mortes associadas a conflitos travados em nome de Deus as chamadas guerras santas’ — e em que medida esse conceito, quando instrumentalizado como autoridade moral absoluta, contribui para a suspensão da razão, para a legitimação de crueldades, para a destruição ambiental e para a manutenção de desigualdades extremas? Além disso, como explicar o acúmulo de patrimônio religioso na Terra frequentemente avaliado em trilhões de dólares em contraste com o próprio ensinamento atribuído às escrituras (não acumuleis tesouros na terra), sobretudo quando milhões permanecem em miséria crônica e sucumbem à fome e ao abandono? Considerando que a caridade e a compaixão para com os necessitados deveriam ser, na prática, o objetivo moral central de organizações religiosas que ainda desfrutam de incentivos fiscais e outros privilégios, como justificar que muitas dessas instituições, desviadas de seus próprios fundamentos filosóficos, tenha transformado sua atuação em um modelo comercial que vende saúde e educação serviços dos quais os mais pobres são comprovadamente excluídos enquanto expandem um negócio altamente lucrativo e ainda impõem à população o pesado encargo de um imposto divinochamado dízimo, somado a ofertas constantes, sustentando promessas de recompensa espiritual frequentemente tratadas como mecanismo de exploração e estelionato moral?”

A estimativa de mortes decorrentes de conflitos travados em nome de Deus” — ou legitimados pela ideia de guerra sagrada não pode ser fixada com precisão absoluta, pois a História raramente oferece um único fator causal isolado. Ainda assim, os registros permitem afirmar, com razoável segurança, que o total histórico se mede em dezenas de milhões, podendo alcançar centenas de milhões quando se incluem guerras, perseguições, massacres sectários e processos de dominação sustentados por discurso religioso como autorização moral. O ponto essencial não é apenas o número, mas o mecanismo: quando um conflito é carimbado como sagrado”, deixa de ser tratado como erro humano e passa a ser encarado como dever”, o que suspende a dúvida, desativa a empatia e transforma a violência em virtude.

Nesse sentido, o conceito de Deus quando usado como selo de autoridade incontestável opera como um alucinógeno moral coletivo: não porque crie bombas ou armas, mas porque pode remodelar o julgamento humano, tornando aceitável aquilo que, em condições racionais, seria reconhecido como monstruoso. A ideia de mandato divino” frequentemente produz uma blindagem psicológica que substitui responsabilidade por obediência, consciência por submissão e ética por medo. Com isso, a mente deixa de perguntar “é certo?” e passa a perguntar apenas foi ordenado?”, abrindo espaço para fanatismo, desumanização do outro, guerras intermináveis e, inevitavelmente, para a destruição ambiental que acompanha qualquer máquina bélica.

No entanto, a contradição moderna mais gritante não está apenas na guerra: está também na economia do sagrado. Organizações religiosas que pregam, em seus registros sagrados”, que não se deve acumular tesouros na Terra passaram a concentrar patrimônio e influência que, em muitos casos, alcançam valores de ordem trilionária, enquanto milhões vivem em miséria crônica, morrem de fome ou sobrevivem sem acesso real à saúde, educação e dignidade. Aí surge a pergunta moral inevitável: se a compaixão e a caridade deveriam ser o núcleo prático de toda religião, como justificar que instituições ainda amparadas por incentivos fiscais e privilégios tenham se desviado da finalidade ética e se convertido, em parte, em empreendimentos comerciais, vendendo cura”, prosperidade” e até “educação” como produto exatamente onde os mais pobres são, na prática, excluídos?

A distorção se agrava quando esse modelo não apenas cresce, mas se sustenta por meio de um mecanismo que pode ser descrito como um imposto emocional travestido de fé: o dízimo e as ofertas, exigidos sob pressão moral, medo espiritual ou promessa de recompensa no plano superior”. Nesse formato, o sagrado deixa de ser um caminho de elevação humana e se transforma em instrumento de controle, onde se comercializa esperança e se administra culpa, enquanto o fiel financia expansão institucional e recebe, em troca, promessas frequentemente impossíveis de verificar e que, quando usadas como manipulação, se aproximam de um tipo de estelionato moral.

Em resumo: a responsabilidade histórica e social não está em um Deus metafísicoque ninguém pode provar, mas no uso humano desse conceito como ferramenta de poder. Quando a fé vira blindagem contra a razão e quando o discurso religioso vira estratégia de domínio, o resultado recorrente é sempre o mesmo: violência legitimada, atraso mental normalizado, desigualdade preservada e, muitas vezes, sofrimento em escala industrial. O problema não é a espiritualidade como busca íntima; é o momento em que o sagrado vira moeda e a consciência humana, refém.

Constatação A síntese inevitável

No fim, o que se revela não é um mistério espiritual, mas uma engrenagem humana: quando Deus vira argumento absoluto, a razão é dispensada e tudo passa a ser permitido.

A História registra o preço dessa licença moral: guerras travadas em nome do sagrado”, massacres justificados como dever e uma humanidade repetidamente seduzida pela ideia de que matar pode ser virtude quando embalado por fé.

E quando o altar se transforma em empresa, o drama se completa: o sagrado vira negócio, a esperança vira moeda, e a miséria continua sendo o chão onde o povo ajoelha o por fé, mas por falta de alternativa. O mesmo sistema que promete salvação muitas vezes impõe fardos: dízimos, ofertas, medo, culpa e promessas que jamais se podem cobrar.

Assim, o que deveria ser compaixão vira controle.

O que deveria ser caridade vira patrimônio.

O que deveria ser luz vira fumaça.

Porque quando o sagrado vira negócio: a fé vira arma e vira caixa-forte.

E então surge a pergunta que ninguém deveria ignorar: fé ou extorsão moral? O dízimo, o poder e a fome.

Enquanto isso, cresce o paradoxo que humilha a consciência: o delírio consagrado guerras santas, patrimônio trilionário e o povo na miséria.

E se alguém ainda tenta dourar a narrativa, a realidade responde com a frase que não pede opinião, apenas honestidade: não acumuleis” — eles acumulam.

Pois a verdade incômoda é esta: Deus como entorpecente social serve, com frequência, para produzir a suspensão da razão em nome do sagrado.

E dessa suspensão nasce a monstruosidade moderna: guerras em nome de Deus, lucro em nome da fé.

No fim, o saldo moral é impossível de esconder:

Sagrado para o púlpito, fome para a rua a fé sequestrada pelo poder.

E o que se vende como eternidade muitas vezes apenas adia a justiça terrena.

Porque, para muitos, restou isso: o paraíso dos outros promessas espirituais, pobreza real.

Comentário:

O texto escancara o absurdo: criaram limites mentais, normalizaram injustiças e chamaram submissão de moral. Quem se incomoda não é pela forma — é porque a verdade desmonta o sistema e encomoda os que não adimitem a verdade. Oliver Norton. - Los Angeles, CA


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 ENGLISH 

THE SHAMEFUL INDUSTRY CREATED IN GODS NAME”: DECEPTION, DEATH, TITHES, AND TAX PRIVILEGES

 

Between the altar and hunger: sincerity is treated as an attack, compassion as a threat — and ignorance as a virtue

 

Based on historical records, what is the estimated death toll associated with conflicts waged in the name of God” — the so-called holy wars” — and to what extent does this concept, when instrumentalized as an absolute moral authority, contribute to the suspension of reason, the legitimization of cruelty, environmental destruction, and the perpetuation of extreme inequality? Furthermore, how can one explain the accumulation of religious wealth on Earth — often valued in the trillions of dollars — in contrast with the very teaching attributed to scripture (do not store up treasures on Earth), especially when millions remain trapped in chronic misery and succumb to hunger and abandonment? Considering that charity and compassion toward those in need should, in practice, be the central moral purpose of religious organizations that still enjoy tax incentives and other privileges, how can it be justified that many of these institutions — diverted from their own philosophical foundations — have turned their mission into a commercial model that sells health and education, services from which the poorest are demonstrably excluded, while expanding a highly profitable enterprise and still imposing upon the population the heavy burden of a divine taxcalled the tithe, added to constant offerings, sustaining promises of spiritual reward that are often treated as mechanisms of exploitation and moral fraud?

The estimate of deaths resulting from conflicts fought in the name of God” — or legitimized by the idea of sacred war — cannot be fixed with absolute precision, because history rarely offers a single, isolated causal factor. Still, historical records allow us to state with reasonable confidence that the total reaches into the tens of millions, and may approach hundreds of millions when we include wars, persecutions, sectarian massacres, and domination processes sustained by religious discourse as moral authorization. The essential point is not only the number, but the mechanism: when a conflict is stamped as holy,” it stops being treated as a human error and begins to be seen as a duty,which suspends doubt, disables empathy, and turns violence into virtue.

In this sense, the concept of God — when used as a seal of unquestionable authority — functions like a collective moral hallucinogen: not because it manufactures bombs or weapons, but because it can reshape human judgment, making acceptable what, under rational conditions, would be recognized as monstrous. The idea of a divine mandate” often produces a psychological shield that replaces responsibility with obedience, conscience with submission, and ethics with fear. As a result, the mind stops asking is it right?and begins asking only was it commanded?” — opening the door to fanaticism, dehumanization of the other, endless wars, and, inevitably, the environmental destruction that follows any war machine.

Yet the most glaring modern contradiction is not found only in war: it is also found in the economy of the sacred. Religious organizations that preach — in their sacred” records — that one must not accumulate treasures on Earth have come to concentrate wealth and influence that, in many cases, reach values in the trillions, while millions live in chronic poverty, die of hunger, or survive without real access to health, education, and dignity. And then the unavoidable moral question arises: if compassion and charity should be the practical nucleus of any religion, how can it be justified that institutions still protected by tax incentives and privileges have drifted from their ethical purpose and, in part, transformed into commercial enterprises — selling healing,” “prosperity,and even educationas a product, precisely where the poorest are, in practice, excluded?

The distortion grows worse when this model not only expands, but sustains itself through a mechanism that can be described as an emotional tax disguised as faith: tithes and offerings, demanded under moral pressure, spiritual fear, or the promise of reward in some higher plane.Under this structure, the sacred ceases to be a path of human elevation and becomes an instrument of control, where hope is commercialized, and guilt is administered, while the believer funds institutional expansion and receives, in return, promises that are often impossible to verify — and which, when used as manipulation, resemble a form of moral fraud.

In summary, the historical and social responsibility does not lie in a metaphysical Godthat no one can prove, but in the human use of that concept as a tool of power. When faith becomes armor against reason, and religious rhetoric becomes a strategy of domination, the recurring result is always the same: legitimized violence, normalized mental stagnation, preserved inequality — and, often, suffering on an industrial scale. The problem is not spirituality as an intimate search; the problem begins the moment the sacred becomes currency — and the human conscience becomes hostage.

A finding — the inevitable synthesis

In the end, what is revealed is not a spiritual mystery, but a human mechanism: when God becomes an absolute argument, reason is dismissed — and everything becomes permissible.

History records the price of that moral license: wars waged in the name of the sacred,massacres justified as duty, and humanity repeatedly seduced by the idea that killing can become virtue when wrapped in faith.

And when the altar turns into a business, the drama is complete: the sacred becomes commerce, hope becomes currency, and misery remains the ground on which the people kneel — not out of faith, but out of lack of alternatives. The very system that promises salvation often imposes burdens: tithes, offerings, fear, guilt, and promises that can never be held to account.

Thus, what should be compassion becomes control.
What should be charity becomes property.
What should be light becomes smoke.

Because when the sacred becomes business: faith becomes a weapon — and a vault.

And then comes the question no one should ignore: faith or moral extortion? The tithe, power, and hunger.

Meanwhile, the paradox that humiliates the conscience continues to grow: consecrated delirium — “holy” wars, trillion-dollar wealth, and a people left in misery.

And if anyone still tries to gild the narrative, reality responds with a sentence that demands no opinion, only honesty: do not store up” — they store up.

For the uncomfortable truth is this: God, as a social sedative, often serves to produce the suspension of reason in the name of the sacred.

And from that suspension comes the modern monstrosity: wars in Gods name, profit in faith’s name.

In the end, the moral balance is impossible to hide:

Sacred for the pulpit, hunger for the street — faith kidnapped by power.

And what is sold as eternity often merely postpones earthly justice.

Because for many, this is what remains: other peoples paradise — spiritual promises, real poverty.

 

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Comments:

This text exposes the absurd: mental limits were imposed, injustice was normalized, and submission was labeled as morality. Those who feel threatened aren’t reacting to the tone—they’re reacting because truth dismantles the system. Oliver Norton. Los Angeles, CA.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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