Segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026 - 17h20

Está
correto falar de/em afetos? Claro que sim. Isso fica evidente quando tratamos
de relações pessoais ou de relações sociais. Num exemplo simples, quando nos
dirigimos em falas e em ações com nossos colegas, vizinhos, familiares,
desconhecidos na fila do pão, demonstramos nossa capacidade de respeito (civilidade)
e de Interação Social – se adequada ou não, se é presente um mínimo de
ajuda mútua (socialidade). O mesmo se aplica quando respeitamos as regras
legítimas os limites e as necessidades do Outro, quando respeitamos
a fila preferencial, quando tratamos bem os animais. E aqui cabe outro exemplo:
os jovens que mataram o cachorro comunitário (Orelha) a pauladas e com extremo
requinte de crueldade, por certo, não conhecem algumas dessas palavras ou essas
expressões não fazem parte do seu repertório cognitivo. São pessoas que
desconhecem a Ética, o zelo pela coisa pública, os códigos de
civilidade, assim como desconhecem a Interação Social, a “simpatia pelas
outras pessoas”, o mínimo “afeto” pela vida – seja ela de um cachorro ou de
outro ser humano. Quem mata um cão com aquela desenvoltura de crueldade, em
algum momento, pode facilmente demonstrar o mesmo nível de descontrole, agressividade
e violência contra qualquer ser humano – especialmente os mais vulneráveis,
indefesos e fragilizados: “as pessoas que se encontram desprovidas de qualquer
dignidade humana”.
Não será difícil ver, dizer, que o
afeto está (empatia, simpatia) ou não está (entropia, disrupção, sociopatia),
esteve e deixou de estar (antipatia) em todos os sentidos e segmentos da vida
social. Há dois caminhos elementares aqui: 1) das ações humanas louváveis,
invejáveis e de outras detestáveis, condenáveis; 2) tanto quanto há práticas
sociais e de poder honoríficas e a serem replicáveis e outras que são abomináveis
e execráveis. Pelo senso comum, seria possível analisar “afetos” por esse
caminho também.
Porém, será que isso não nos remete a
uma análise psicológica, a um circuito dos sintomáticos das situações e das
relações? A crítica aqui não está em discutir se a Psicologia é necessária e
acertada, isso é bastante óbvio, no sentido de sua validação científica
e reconhecimento social. A questão estaria em saber se esse plano de
averiguação, avaliação é suficiente e sobreviveria a uma análise social que
ultrapassasse o recorte do senso comum.
Para uma Sociologia a resposta é de
insatisfação. A Sociologia não deve desconhecer os efeitos – e os níveis
perceptíveis da Interação Social (no caso, os afetos) –, mas, saber ou
reconhecer tal dimensão não é bastante para a visão de mundo requerida pela
Sociologia. Curiosamente, a Psicologia e a Sociologia repartem boas partes do
mesmo objeto, que é a Interação Social.
A diferença está no “que olhar” e “como
olhar”, pois, isto modifica e direciona o “que fazer”. Para a Sociologia, a
“falta de afeto” corresponde à crescente entropia social (um termo
emprestado da Física), às diferenças que nunca foram diferenças, mas sim
desigualdades, à ausência de organização social que não seja
ditada pela exploração do trabalho (expropriação), pela imposição da opressão
e do subjugo e da miséria humana em todas as suas formas mais brutais. Hoje é
facilmente predizível afirmar que amanhã teremos ainda mais “pessoas
absolutamente desprovidas de dignidade humana”.
O que nos leva a pensar o “afeto” em
termos de embrutecimento societal, quer dizer, o aprofundamento da
opressão que impõe a extrema desigualdade. É dessa imposição da desigualdade
que advém a negação das pessoas, sobretudo, as mais frágeis e sem poder de
fato ou de representação. É dessa desigualdade extrema que provém a lógica
“amigo-inimigo”: os amigos são protegidos pelo poder; “os inimigos são
abatidos como cães” (essa frase de filme não é originária do cinema). Numa
Sociologia crítica, portanto, não é difícil analisar e concluir que a “falta de
afeto” é programada socialmente, pelo poder e pela lógica econômica. E é essa
programação que deve guiar nossa atenção, em especial quando vem apelidada de luta
de classes racista, ou quando se autointitula de neoliberalismo (neocolonialismo).
Como se vê, o recorte é outro, a
perspectiva desde a origem – entendendo-se que se parte do mesmo objeto social
– e o alcance possível e desejado são diversos. Nesta ótica da Sociologia
crítica, no fundo, o objetivo é delineado pela visão de mundo (Cosmovisão)
que nos dirige desde o início; pensando-se que o resultado almejado é a profunda
transformação social. Desse modo, o âmbito do “afeto” se desloca do
indivíduo para o coletivo e, assim, poderia receber outro nome, como solidariedade
social. Veja-se que não se trata, necessariamente (e mesmo que não se
exclua), da solidariedade com alguém especificamente; trata-se de ser
vocacionado (como “ser social”) à solidariedade com quem nem se conhece
– ou ainda nem nasceu (como no caso do “direito das gerações não-nascidas”).
Por isso, em tese, nessa Teoria
Social, o título é incorreto, ao menos desde a origem dessa Ciência
Social, e ainda que tenha sido útil para nos mostrar a necessidade de
observarmos, analisarmos, as situações, as relações, as incidências, sob outros
prismas. (E novamente, aqui, fazemos empréstimos de outra Ciência).
Por fim, não há uma suposta
“Sociologia dos Afetos” porque, na maioria esmagadora das vezes, olhamos muito
mais para os indivíduos que não são afeitos à solidariedade social e que
basicamente instigam contra a “solidez social”. Neste último sentido, seria
mais coerente uma “Sociologia dos Desafetos” – econômicos, sociais, políticos,
culturais.
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