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Vinício Carrilho

“Sociologia dos Afetos”


“Sociologia dos Afetos”  - Gente de Opinião

           Está correto falar de/em afetos? Claro que sim. Isso fica evidente quando tratamos de relações pessoais ou de relações sociais. Num exemplo simples, quando nos dirigimos em falas e em ações com nossos colegas, vizinhos, familiares, desconhecidos na fila do pão, demonstramos nossa capacidade de respeito (civilidade) e de Interação Social – se adequada ou não, se é presente um mínimo de ajuda mútua (socialidade). O mesmo se aplica quando respeitamos as regras legítimas os limites e as necessidades do Outro, quando respeitamos a fila preferencial, quando tratamos bem os animais. E aqui cabe outro exemplo: os jovens que mataram o cachorro comunitário (Orelha) a pauladas e com extremo requinte de crueldade, por certo, não conhecem algumas dessas palavras ou essas expressões não fazem parte do seu repertório cognitivo. São pessoas que desconhecem a Ética, o zelo pela coisa pública, os códigos de civilidade, assim como desconhecem a Interação Social, a “simpatia pelas outras pessoas”, o mínimo “afeto” pela vida – seja ela de um cachorro ou de outro ser humano. Quem mata um cão com aquela desenvoltura de crueldade, em algum momento, pode facilmente demonstrar o mesmo nível de descontrole, agressividade e violência contra qualquer ser humano – especialmente os mais vulneráveis, indefesos e fragilizados: “as pessoas que se encontram desprovidas de qualquer dignidade humana”.

          Não será difícil ver, dizer, que o afeto está (empatia, simpatia) ou não está (entropia, disrupção, sociopatia), esteve e deixou de estar (antipatia) em todos os sentidos e segmentos da vida social. Há dois caminhos elementares aqui: 1) das ações humanas louváveis, invejáveis e de outras detestáveis, condenáveis; 2) tanto quanto há práticas sociais e de poder honoríficas e a serem replicáveis e outras que são abomináveis e execráveis. Pelo senso comum, seria possível analisar “afetos” por esse caminho também.

          Porém, será que isso não nos remete a uma análise psicológica, a um circuito dos sintomáticos das situações e das relações? A crítica aqui não está em discutir se a Psicologia é necessária e acertada, isso é bastante óbvio, no sentido de sua validação científica e reconhecimento social. A questão estaria em saber se esse plano de averiguação, avaliação é suficiente e sobreviveria a uma análise social que ultrapassasse o recorte do senso comum.

          Para uma Sociologia a resposta é de insatisfação. A Sociologia não deve desconhecer os efeitos – e os níveis perceptíveis da Interação Social (no caso, os afetos) –, mas, saber ou reconhecer tal dimensão não é bastante para a visão de mundo requerida pela Sociologia. Curiosamente, a Psicologia e a Sociologia repartem boas partes do mesmo objeto, que é a Interação Social.

          A diferença está no “que olhar” e “como olhar”, pois, isto modifica e direciona o “que fazer”. Para a Sociologia, a “falta de afeto” corresponde à crescente entropia social (um termo emprestado da Física), às diferenças que nunca foram diferenças, mas sim desigualdades, à ausência de organização social que não seja ditada pela exploração do trabalho (expropriação), pela imposição da opressão e do subjugo e da miséria humana em todas as suas formas mais brutais. Hoje é facilmente predizível afirmar que amanhã teremos ainda mais “pessoas absolutamente desprovidas de dignidade humana”.

          O que nos leva a pensar o “afeto” em termos de embrutecimento societal, quer dizer, o aprofundamento da opressão que impõe a extrema desigualdade. É dessa imposição da desigualdade que advém a negação das pessoas, sobretudo, as mais frágeis e sem poder de fato ou de representação. É dessa desigualdade extrema que provém a lógica “amigo-inimigo”: os amigos são protegidos pelo poder; “os inimigos são abatidos como cães” (essa frase de filme não é originária do cinema). Numa Sociologia crítica, portanto, não é difícil analisar e concluir que a “falta de afeto” é programada socialmente, pelo poder e pela lógica econômica. E é essa programação que deve guiar nossa atenção, em especial quando vem apelidada de luta de classes racista, ou quando se autointitula de neoliberalismo (neocolonialismo).

          Como se vê, o recorte é outro, a perspectiva desde a origem – entendendo-se que se parte do mesmo objeto social – e o alcance possível e desejado são diversos. Nesta ótica da Sociologia crítica, no fundo, o objetivo é delineado pela visão de mundo (Cosmovisão) que nos dirige desde o início; pensando-se que o resultado almejado é a profunda transformação social. Desse modo, o âmbito do “afeto” se desloca do indivíduo para o coletivo e, assim, poderia receber outro nome, como solidariedade social. Veja-se que não se trata, necessariamente (e mesmo que não se exclua), da solidariedade com alguém especificamente; trata-se de ser vocacionado (como “ser social”) à solidariedade com quem nem se conhece – ou ainda nem nasceu (como no caso do “direito das gerações não-nascidas”).

          Por isso, em tese, nessa Teoria Social, o título é incorreto, ao menos desde a origem dessa Ciência Social, e ainda que tenha sido útil para nos mostrar a necessidade de observarmos, analisarmos, as situações, as relações, as incidências, sob outros prismas. (E novamente, aqui, fazemos empréstimos de outra Ciência).

          Por fim, não há uma suposta “Sociologia dos Afetos” porque, na maioria esmagadora das vezes, olhamos muito mais para os indivíduos que não são afeitos à solidariedade social e que basicamente instigam contra a “solidez social”. Neste último sentido, seria mais coerente uma “Sociologia dos Desafetos” – econômicos, sociais, políticos, culturais. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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