Terça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Vinício Carrilho

Pessoa com deficiência


Pessoa com deficiência - Gente de Opinião

         Eu tenho deficiência física, na perna esquerda, e estou nesse imenso rol que chamam de PCD – pessoa com deficiência. É mais um apelido. E como todo apelido não diz nada sobre você, aliás, apelidos relatam somente o mau gosto dos outros. Isso também me lembra das chamadas nomenclaturas: tentativas de explicações sintéticas sobre algo que via de regra levam a lugar algum. Começarei por esse PCD e depois trarei outras “nomenclaturas viciadas” por defeito catastrófico em sua origem e proposição.

Por pessoa com deficiência se entende um mar de gente – para mim infinito, como veremos –, da mais simples deficiência física às deficiências mentais e físicas das mais complexas e praticamente insolvíveis.

Antigamente, chama-se de “portadores de necessidades especiais” e, lá no passado, eu mesmo escrevi que todo mundo porta algo; poderia ser portador de Registro de nascimento (muita gente, na infinita miséria, sequer tem sinal público de sua existência) ou portador de alguma boa (ou má) intenção.

Ocorre que hoje me parece o mais óbvio, uma vez que, se todo mundo pode ser portador de alguma necessidade (por exemplo, milhares e milhões que não comem quatro refeições diárias), eu, com deficiência física, tenho uma necessidade especial que outras pessoas não tem – ou tem e fingem não ter. Tenho necessidade, por exemplo, de ter rampas de acesso ou elevadores – ao contrário das escadas que ainda encontro nas dependências do serviço público.

Pois bem, resolveram que essa terminologia não era boa e mudaram para PCD. Neste caso, particularmente, gostaria de saber qual pessoa não tem deficiência, alguma deficiência!? Gostaria de conhecer, porque um ser assim perfeito, majestoso, um anjo na Terra, é uma causa nobre. Não há ninguém assim: até o dedinho da mão esquerda será diferente, maior ou menor, do que o da mão direita (para as pessoas que têm mãos “normais”).

 Outro caso emblemático (talvez o mais estapafúrdio) é daquelas “pessoas absolutamente desabrigadas de dignidade humana” – essa nomenclatura seria o meu politicamente, sociologicamente, correto. Esse caso, no entanto, tem uma bizarrice latente, um desvio moral observado na cultura de época e, que, em seguida, na nossa época, revoltando-se, tornou-se absolutamente hipócrita.

          Lá nos cafundós da história, essa pessoa que chamei de “absolutamente desabrigada de dignidade” (porque não tem nem um cobertor) era “definida” pela cultura reinante como “indigente”. O termo já diz tudo (indigente), e não seria preciso detalhar muito o que se passava na cabeça das outras pessoas daquela época, afinal, nos bastaria pensar que, por “indigente” intui-se que se trata de alguém que não é gente. Assim, se não é gente, era (ou é) “algo” – um estorvo para as castas, classes e “mentes normais” daquele tempo.

          Depois, as “pessoas absolutamente desabrigadas de dignidade” foram apelidadas de mendigos, pedintes, moradores de rua, moradores em situação de rua e, no meio disso tudo, esse politicamente correto (na ortografia apenas) chamou-os de “moradores de área livre”. Aqui me parece que a hipocrisia chegou no seu auge. Definitivamente, não sei se há algo mais perverso do que isso.

          Concluindo, de volta ao topo, penso que a pior deficiência é a moral. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoTerça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O papel do intelectual (orgânico) no século XXI - nossa missão é denunciar e agir

O papel do intelectual (orgânico) no século XXI - nossa missão é denunciar e agir

Estamos aturdidos, alguns literalmente mortificados com os atuais bombardeios, as gravíssimas violações da ordem internacional e das soberanias, tan

ACESSAR O MUNDO

ACESSAR O MUNDO

A ideia matriz dessa construção textual não tem um corpus acadêmico ou academicista, pois é muito mais militante e voluntarioso. Por isso, acessar o

Fundamentos civilizatórios da educação emancipadora

Fundamentos civilizatórios da educação emancipadora

      O objetivo geral do texto é delinear alguns fundamentos que não podem ser questionados e abandonados por quem pensa a Educação de forma emancip

Fascismo verde e amarelo

Fascismo verde e amarelo

-- a contradição em carne viva. -- nuances e seduções do reprodutivo Pensamento Escravista.O Brasil não é o país das contradições, é a própria essênci

Gente de Opinião Terça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)