Sábado, 24 de janeiro de 2026 - 07h00

Eu tenho deficiência física, na perna
esquerda, e estou nesse imenso rol que chamam de PCD – pessoa com deficiência. É
mais um apelido. E como todo apelido não diz nada sobre você, aliás, apelidos
relatam somente o mau gosto dos outros. Isso também me lembra das chamadas
nomenclaturas: tentativas de explicações sintéticas sobre algo que via de regra
levam a lugar algum. Começarei por esse PCD e depois trarei outras
“nomenclaturas viciadas” por defeito catastrófico em sua origem e proposição.
Por
pessoa com deficiência se entende um mar de gente – para mim infinito, como
veremos –, da mais simples deficiência física às deficiências mentais e físicas
das mais complexas e praticamente insolvíveis.
Antigamente,
chama-se de “portadores de necessidades especiais” e, lá no passado, eu mesmo
escrevi que todo mundo porta algo; poderia ser portador de Registro de
nascimento (muita gente, na infinita miséria, sequer tem sinal público de sua
existência) ou portador de alguma boa (ou má) intenção.
Ocorre
que hoje me parece o mais óbvio, uma vez que, se todo mundo pode ser portador
de alguma necessidade (por exemplo, milhares e milhões que não comem quatro
refeições diárias), eu, com deficiência física, tenho uma necessidade especial
que outras pessoas não tem – ou tem e fingem não ter. Tenho necessidade, por
exemplo, de ter rampas de acesso ou elevadores – ao contrário das escadas que
ainda encontro nas dependências do serviço público.
Pois
bem, resolveram que essa terminologia não era boa e mudaram para PCD. Neste
caso, particularmente, gostaria de saber qual pessoa não tem deficiência,
alguma deficiência!? Gostaria de conhecer, porque um ser assim perfeito,
majestoso, um anjo na Terra, é uma causa nobre. Não há ninguém assim: até o
dedinho da mão esquerda será diferente, maior ou menor, do que o da mão direita
(para as pessoas que têm mãos “normais”).
Outro
caso emblemático (talvez o mais estapafúrdio) é daquelas “pessoas absolutamente
desabrigadas de dignidade humana” – essa nomenclatura seria o meu
politicamente, sociologicamente, correto. Esse caso, no entanto, tem uma
bizarrice latente, um desvio moral observado na cultura de época e, que, em
seguida, na nossa época, revoltando-se, tornou-se absolutamente hipócrita.
Lá nos cafundós da história, essa
pessoa que chamei de “absolutamente desabrigada de dignidade” (porque não tem
nem um cobertor) era “definida” pela cultura reinante como “indigente”. O termo
já diz tudo (indigente), e não seria preciso detalhar muito o que se passava na
cabeça das outras pessoas daquela época, afinal, nos bastaria pensar que, por
“indigente” intui-se que se trata de alguém que não é gente. Assim, se não é
gente, era (ou é) “algo” – um estorvo para as castas, classes e “mentes
normais” daquele tempo.
Depois, as “pessoas absolutamente
desabrigadas de dignidade” foram apelidadas de mendigos, pedintes, moradores de
rua, moradores em situação de rua e, no meio disso tudo, esse politicamente
correto (na ortografia apenas) chamou-os de “moradores de área livre”. Aqui me
parece que a hipocrisia chegou no seu auge. Definitivamente, não sei se há algo
mais perverso do que isso.
Concluindo, de volta ao topo, penso
que a pior deficiência é a moral.
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